- Limite dos clãs?
- Sim, estamos exatamente em baixo do rio que os
divide. De fato, aquela cachoeira ali - ele apontou para as águas caindo - é o
próprio rio Tyyak.
Agora que estava em pé ela pode olhar o local direito.
“Caverna” realmente não poderia descrever o local. Eles estavam em uma gruta.
Um pequeno lago cobria metade dela e eles estavam bem na margem. Perto do que
parecia ser o fundo da gruta havia uma fogueira e um pequeno acampamento havia
sido montado. Apesar da chuva o local era claro e a água lançava reflexos
coloridos na parede. A cachoeira cobria a entrada como um véu e Melody não
conseguia ver por onde havia entrado. Seus pensamentos estavam clareando e
podia jurar que não estava muito perto do rio quando entrou na gruta. Éron
percebeu o olhar dela e falou:
- É uma gruta mágica. - Ele disse; Melody estava tão
absorta em seus pensamentos que demorou a perceber que ele falará com ela.
-Hã... O que?
- A gruta... Ela é mágica, era nisso que estava
pensando não era?
- Era sim... Eu não estava tão perto do rio quando
entrei aqui. - Ela olhou para Éron que a observava curioso. - O que é que você
está olhando? - Ela perguntou fechando a cara.
- Nada, só estava... Apreciando a vista. - Ele riu,
enquanto Melody sentia que o rosto estava em chamas. - Sobre a gruta... Digamos
que ela aparece sempre que alguém precise, não importa em que lugar esteja, ela
sempre abrirá uma passagem que trará a pessoa até aqui. - Ele parou por um
tempo e suspirou, depois continuou. - Bem, desde que a pessoa não esteja com
más intenções. - Ele observou a garota mais uma vez e então começou a seguir
para dentro da gruta. - Você não vem? Eu juro que sou uma pessoa boa e que não
vou fazer nada com você. - Aquele sorriso estava em seu rosto mais uma vez. - A
não ser é claro, que você queira que eu faça algo.
Melody bufou e ficou ainda mais vermelha. Entretanto,
por algum motivo que ainda não entendia, seguiu-o. Pelo menos perto da fogueira
ela estaria quente.
Éron caminhou tranquilo até o seu pequeno acampamento,
sentou-se em um tronco no chão e apontou para outro que estava ao lado. Melody
sentou-se o mais distante que pode e viu que Éron a observava mais uma vez.
- Posso saber por que é que você está me olhando desse
jeito de novo? - Ela perguntou sem olhar para o rapaz.
- Estou pensando: o que é que você estava fazendo no
meio dessa chuva?
- Quando saí do vilarejo não estava chovendo.
- De que vilarejo você é? - Éron pareceu feliz em
encontrar um assunto para conversar. - Tenho certeza de que nunca te vi no Clã
do Norte. - Melody paralisou e Éron pareceu perceber que a garota ficará
nervosa. - Tudo bem Melody?
-V-você é do clã do norte? - Ela perguntou em um
sussurro.
- Sou sim, mas vo... - Ele interrompeu a frase.
Percebeu porque a garota ficará tão nervosa. - Ai meu Deus... Você é do Clã do Sul?
- S-sou.
- Isso é incrível. - O rapaz parecia animado com a
constatação. - Nunca conheci ninguém de lá. Mas o que alguém do Clã do Sul faz
por aqui? - Melody não conseguiu acreditar na alegria que via e resolveu dar
uma chance ao rapaz. Talvez as lendas não falassem de todos daquele clã.
- Minha inicialização. - Ela respondeu olhando o fogo.
- De algum modo minha profecia realmente me trouxe aqui... Vocês também tem
isso?
- Temos sim, a minha foi há dois anos. Tenho vindo
aqui desde então, ela dizia que só estaria completo se encontrasse aquilo que
mais desejava... Bem, isso ainda não aconteceu. O que dizia a sua?
- A primeira parte era algo sobre ir até o limite onde
eu encontraria algo que me pertence. - Melody não sabia por que, mas se sentia
a vontade ao lado daquele estranho, era como se já o conhecesse. “Isso é loucura”, ela pensou.
- Olha, a gruta se manifestou para você... Talvez de
algum modo ela te pertença. Então pode ser que essa parte da profecia já esteja
completa. - Ele olhou pensativo para a cachoeira. - O que vinha depois disso?
- Tenho que viajar para o litoral e descobrir o que
meu coração mais deseja. - Melody riu com aquilo. - Só posso estar com alguns
parafusos a menos, quem sabe eu encontro por lá.
- Então você tem pelo menos uns dois dias de viajem
até o litoral e pelo visto você vai perder o resto de hoje por causa dessa
chuva.
- Eu tenho que arrumar um lugar para passar a noite e
nem sei como chegar ao litoral. - Melody falou para si mesma abraçando os
joelhos, mas Éron a ouviu.
- Você poderia passar a noite aqui. - Ao ver o olhar
assustado dela, ele completou. - Eu juro que não vou fazer nada e se você
aceitar eu posso te levar ao litoral... Estou precisando respirar um pouco.
Um lado de Melody dizia para sair correndo dali para o
mais longe possível, mas outro dizia para confiar nele. Mesmo que corresse não
iria muito longe, ele a alcançaria logo. Ela deu um suspiro longo e concordou
em ficar. Melody começou a tirar um pouco de comida e algo que o pai chamará de
“saco de dormir” de dentro da bolsa (coisas do “Continente”). Ao ver aquilo
Éron abriu um sorriso e contou que o pai também buscava coisas no continente.
Os dois conversaram até estarem desabando de sono.
No outro dia Melody acordou com uma luz em seu rosto,
abriu os olhos e vasculhou a gruta. Viu um trecho da parede brilhando, Éron já
estava perto para ver o que era. Ele viu que a garota acordara e falou:
- Acho que a gruta está formando uma nova passagem...
Ela já abriu várias para mim. - Os dois decidiram comer e arrumarem as coisas
até que aquilo terminasse. Depois disso esperaram por um tempo e então a parede
parou de brilhar. Éron se aproximou para verificar e gritou entusiasmado. - É
uma escada, isso vai nos poupar um dia de escalada no morro. - Melody se
aproximou para olhar, realmente havia uma escada ali, mas não parecia ser tão
grande para levá-los ao topo do morro. Antes que pudesse perguntar a Éron, ele
já estava começando a subir, então começou a segui-lo. Quinze minutos depois
eles estavam no topo.
Ela ficou maravilhada como o que vira, a cachoeira que
devia estar exatamente onde eles estavam, parecia ter andado e estava há alguns
quilômetros dali. O sol brilhava e a floresta abaixo tinha muito mais vida e era
mais colorida do que no lado em que viera. No horizonte via uma linha azul que
devia ser o mar. Mas Éron olhava para o lado oposto com o rosto triste. Ela se
virou e viu o que ele via. De onde estavam dava para ver o grande rio correndo
e os dois clãs que estavam envoltos em nuvens cinzentas e pesadas.
- É por isso que sempre venho para cá, eu só quero
fugir daquele lugar sombrio. A gruta me acolhe... Não importa onde eu esteja,
eu sempre consigo encontrá-la.
Os dois começaram a descer para o lado que ainda tinha
vida, mas Melody não resistiu e deu uma última olhada para os clãs. Nunca
pensara no Clã do Sul como um lugar triste. Contudo, agora, olhando de longe,
não encontrara outra palavra para descrevê-lo, a não ser “deprimente”.
Eles desceram pela encosta do morro, o que levou
metade do dia. Quando chegaram ao final pararam para descansar e comer. Depois
continuaram pela floresta. Os dois dias que se seguiram foram de longas
caminhadas e quando a noite caia eles arranjavam algum lugar para acampar e partiam
logo quando o sol nascia. Durante esse tempo, Melody viu que não fizera uma
escolha tão ruim ficando. Éron era divertido e parecia entendê-la como ninguém.
Eles conversaram sobre praticamente tudo, mas ela percebeu que ele sempre fugia
do assunto quando o perguntava sobre seus pais e decidiu não perguntar mais.
Eles chegaram ao litoral na metade do 2º dia. Melody fitou admirada a imensidão
azul a sua frente e a areia branquinha. Correu para a beira do mar, fechou os
olhos e deixou a brisa bater em seus cabelos, então ouviu Éron se aproximando.
Ele entrelaçou seus dedos nos dela e Melody sentiu seu coração saltar no peito,
mas permaneceu imóvel. Ela não entendia, mas sentia uma ligação entre eles.
- Melody qual é o seu maior desejo? - Ele perguntou em
um sussurro.
- Eu pensava em várias coisas, mas depois do que vi de
cima do morro... Bem, eu queria muito que essa rixa acabasse... Acho que é
sobre isso que se trata a minha profecia. Talvez de algum modo, eu possa trazer
a vida de volta aos dois clãs, talvez eu possa uni-los novamente.
- Talvez a minha seja te ajudar a realizar a sua. -
Éron respondeu ainda em um sussurro, ela olhou para ele e viu que o rapaz
olhava sério para o mar.
Naquele momento eles ouviram risadas e passos atrás deles,
então uma voz rude falou:
- Até que enfim te encontramos. - Mais uma vez as
pessoas atrás deles riram. - E olha só parece que você tem companhia... Seu pai
vai adorar saber disso. - Melody não conseguia mover um músculo, sabia que
seria inútil correr. Sentia-se incapaz de qualquer coisa e ao olhar para Éron
viu que a expressão dele havia mudado. Parecia rude e um sorriso começava a
brotar no canto dos lábios. Será que ela havia se enganado com ele?
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