O Vale de Lótus - Capítulo 01: A Profecia

       O Vale havia sido criado pela mais antiga e poderosa das Magias. Tão antiga e poderosa quanto o próprio universo, a Magia protegia-o e o mantinha longe de invasores, apenas alguém como você e eu poderíamos encontrá-lo. Nele existiam dois grandes clãs, um ao sul e outro ao norte. Os clãs eram rodeados por pequenos vilarejos espalhados por toda a extensão do Vale e todos viviam na mais completa paz, não poderia haver maior harmonia.
       Em uma noite tudo ficou escuro e a paz e harmonia deram lugar ao ódio. Os dois clãs haviam entrado em guerra. Para se proteger, o Vale forjou um rio tão largo e poderoso que serpenteou pelo Vale, separando os dois clãs. Evitando que a ambos se destruíssem, mas deixando cair sobre eles à escuridão e o silêncio. Passaram-se 18 anos. O Vale continuava dividido, não havia mais brigas, muito menos guerras. Os clãs apenas esqueceram o que haviam do outro lado do rio.

       Melody acordou com a claridade entrando por sua janela. Os pássaros cantavam lá fora e podia ouvir um burburinho vindo da praça. Ela abriu os olhos e mal pode conter sua alegria. Correu até janela e deixou que o sol esquentasse sua pele, nunca vira um dia tão claro! Afinal, os dias no Vale costumavam ser nublados e escuros, como um dia de tempestade.
       O dia está perfeito!, ela pensou.
       Melody tinha longos cabelos castanhos e ondulados que passavam da cintura. Sua pele era clara, e os olhos tão castanhos quanto os cabelos. Tinha os lábios cheios. Não havia criatura mais bela em todo o Clã do Sul. Ela fechou os olhos e sentiu a brisa no rosto. Ficou ali alguns minutos antes de se dirigir ao banheiro. Tomou um banho rápido, prendendo seus cabelos para que não molhassem. Voltou ao quarto, enrolada na toalha, vestiu-se e então sentou-se na cama. Observou o cômodo por um instante. Suas paredes eram pintadas de branco; na da esquerda ficava o guarda-roupas e na da direita havia uma cômoda. Entre elas, sob uma janela, ficava a cama; seus lençóis e edredom eram azuis, de cada lado da cama havia dois criados mudos e à parede diante da cama estava sua penteadeira. Os móveis eram feitos de carvalho, antigos, contudo, ornamentados e lustrosos. A porta ficava logo ao lado da penteadeira, mais especificamente, a sua direita. Ela então começou a difícil tarefa de desembaraçar os cabelos até que alguém bateu na porta.
       - Entre. - Ela disse. Sua mãe entrou e se sentou-se, tomou-lhe o pente das mãos de Melody e começou a pentear seus cabelos parando apenas uma vez para perguntar:
       - Como é que você conseguiu embaraçar tanto esse cabelo, Mel?
       - Eu realmente não faço a mínima ideia, mãe.
       Irina riu da filha. Com delicadeza, desembaraçou cada nó de seu cabelo. Uma vez feito isso, ela deixou o pente de lado enquanto Melody virava-se de frente para a mãe.
       - Feliz aniversário querida. Tenho um presente para você.
       Ela entregou uma caixinha à menina e sorriu. Seu sorriso era o como o de Melody, mas Irina tinha a pele mais branca e o rosto mais fino. Seus olhos eram de um verde profundo e os cabelos louros caiam como uma cascata cacheada nas costas.
       - Meus pais me deram isso quando fiz dezoito anos. Agora, quero passa-lo a você.
       Melody abriu a caixinha. Dentro havia uma corrente prateada, cujo pingente era uma pedra azul turquesa arredondada, em que pequenas inscrições foram escritas, mas as quais a menina não entendeu. Notando a confusão da filha, Irina explicou:
       - Está escrito: “enquanto existir luz, as trevas não te atingirão”. Ele é um amuleto que tem passado de geração em geração da nossa família desde o começo do Vale. - Irina segurou o rosto da filha e completou. - Você é a nossa luz agora.
       - É lindo mamãe, obrigada.
       Elas se abraçaram. Alguém pigarreou na porta, Melody viu seu pai parado, segurando um embrulho rosa. Thomas Rebello ainda vestia pijamas; sua pele era um tom mais escura que a da filha, como se ele pegasse sol constantemente e seus cabelos castanhos estavam despenteados para todos os lados possíveis. Seus olhos castanhos estavam sonolentos, Melody tinha muito mais traços de seu pai do que de sua mãe, com certeza.
       - Bom dia, pai.
       - Bom dia, querida. E feliz aniversário! - Ele disse ao se aproximar; abraçou-a. - Vejo que já ganhou o amuleto da família Farley, mas agora é hora do meu presente.
       Ele empurrou o embrulho para as mãos da filha. Melody puxou a fita cor-de-rosa, abrindo-o. Havia um vestido azul quase do mesmo tom do medalhão. Ela tirou-o da caixa para ver os detalhes. Ele tinha o decote em V todo bordado com pequenos cristais; da cintura crescia uma saia rodada.
       - É para você usar hoje a noite querida. - O homem acrescentou.
       - Obrigada papai. É lindo. Adorei.
       O dia passou tranquilamente. Todos desejaram felicidades a Melody, que ia de um lado para o outro ajudando na decoração da praça. No fim da tarde, ela voltou para o casarão onde morava. Arrumou-se para a festa, trançou os cabelos e colocou um diadema de flores. No pescoço, pendurou o amuleto entregue por sua mãe. Melody achou que combinava tanto com ela, que decidiu que não iria mais tirá-lo. Já estava pronta quando vieram chamá-la.
       Era seu aniversário de 18 anos e com isso ela seria “inicializada”. Seus estudos de magia teriam terminado. Ela seguiu até a fonte. Seus pais a aguardavam lá, junto de Rosie, sua tutora; e Ana, a anciã do clã, que começou a cerimônia assim que Melody se juntou aos quatro.
       - Estamos aqui hoje para a inicialização de Melody Farley Rebello. - Ela então olhou para a garota, Ana era uma mulher idosa e miúda, de cabelos brancos e olhos muito azuis. - Hoje minha querida, seus estudos de magia terminam, entretanto, sua jornada se inicia. - Ela então lhe entregou um anel dourado e liso. - Esse será o diário de cada dom alcançado ou cada tarefa completada.
       Melody sabia que gravuras apareceriam nele com o tempo, a anciã virou-se para Rosie, que entregou um cálice a anciã. Estendeu-o e o encheu numa fonte; no momento em que a anciã se virou, a água tornou-se dourada. Ela o ofereceu a Melody que o pegou e bebeu o líquido; no começo ele queimou sua garganta e depois se tornou doce. Agora vem a profecia, ela pensou. No momento em que cada membro do clã nasce uma profecia nasce come ele, mas só é lida em sua inicialização. Ana recolheu o cálice, virou-se para ela e fechou os olhos, parecia estar entrando em uma espécie de transe. Ela então começou a falar:
A criança de Farley Rebello até o limite viajará
Onde, o que lhe pertence, encontrará 
Apenas quando chegar ao ponto em que areia encontra o mar 
É que saberá o que seu coração tende a desejar 
       Ana abriu os olhos. Sorriu, desejando um feliz aniversário a Melody. Em seguida ela desceu mandando a banda começar a tocar. As outras três pessoas no altar desceram para curtir a festa.
       Melody não dormiu direito à noite. Aproveitou a festa, mas estava nervosa com tudo. Ela levantou-se com o sol subindo no horizonte; tomou banho. Suas coisas estavam arrumadas, sua mochila estava ao lado da cama com todas as coisas que o pai havia trazido para ela de um lugar que chamava de “continente” e a roupa em cima da cômoda. Colocou uma calça legging preta, uma camiseta da mesma cor e coturnos - peças estas que também vieram do tal “continente”. Prendeu os cabelos em um rabo de cavalo, jogou a mochila nas costas e desceu.
       Meia hora mais tarde, ela estava na entrada da floresta que rodeava o vilarejo do Clã do Sul, olhou para trás e com um aceno de mão despediu-se dos pais. Ao entrar na floresta pensou consigo ‘o resto de minha vida começa agora’. Então seguiu em frente.
       Ela andou o que pareceram horas. Não sabia ao certo para onde ir, mas continuava andando. Ouviu o ruído de um rio, talvez uma cachoeira. Olhou para o céu e percebeu que uma chuva se aproximava. Apressou o passo. Viu de longe um pequeno morro e, após ele, o rio. Estava bem próxima quando a chuva caiu. Ela correu encostada ao morro e viu um relance de luz adiante. Ao chegar mais perto viu o que parecia ser um pequeno buraco cavado no morros. Ela se enfiou ali e no momento seguinte estava sendo pressionada contra a parede e sentia algo afiado no pescoço. Sua visão estava um pouco embaçada por causa dos pingos da chuva e não conseguira ver quem a estava prendendo.
       - O que você está fazendo aqui? - Perguntou uma voz grave.
       - Eu... estou... fugindo... da... chuva. - Ela respondeu arfando.
       - É só isso mesmo?
       - Sim... É... Só... Isso. - Ela sentiu a pressão ceder e caiu de joelhos no chão ainda arfando.
       Olhou em volta. Estava em uma caverna atrás de uma cachoeira. Ela não reparou nisso antes por causa da chuva. Ergueu os olhos e viu uma mão estendida para ela; usou-a de apoio para levantar. Um rapaz de uns 20 anos estava diante dela; ele tinha a pele bronzeada, cabelos lisos e castanhos; seus olhos eram verdes. E Ele parecia ser muito forte. Ele sorriu, mas Melody fechou a cara.
       - Qual é o seu nome?
       - Melody. - Ela respondeu ainda carrancuda.
       - Prazer Melody, eu sou Éron. - Ele estendeu a mão e a cumprimentou ainda com um sorriso nos lábios. - O que te trás até limite dos clãs?
       - Limite dos clãs? - Ela se lembrou da história que seu pai contava, sobre o Vale ter sido dividido. Ela estava no limite. Será que este era o limite da profecia? Mas o que encontraria ali que a pertencia? E quem era aquele rapaz? O que ele fazia ali?

About Suelen Candeu

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