Os
Filhos do Abismo sob o comando da alma-uma-vez-chamada-Caleb, o Kyaryak Vizard, contavam as almas
capturadas na Batalha de Roma, da qual saíram vitoriosos no dia anterior. Não
havia necessidade de numerar seus subordinados, pois pela memória coletiva dava
para saber que havia trinta e seis mil setecentos e vinte e dois Filhos sob seu
comando. Dentre eles havia cento e nove Ryaks,
que são Filhos com habilidades especiais.
Eram
esses cento o nove que Vizard tentava reunir, ele teve uma ideia que poderia
facilitar suas estratégias de guerra. Os cento e dez, contando com ele, estavam
reunidos de frente ao Palácio da Justiça em Roma. Demorou quase uma hora para
juntá-los todos ali. Depois, Vizard separou-os em grupos de acordo com a
habilidade.
Havia
doze Kyaryaks, aqueles que manipulam
a terra, sem contar com Vizard.
Havia
sete Louryaks, aqueles que manipulam
a água.
Havia
quatorze Manáryaks, aqueles que leem
mentes fora da memória coletiva.
Havia
dezessete Heyroryaks, aqueles que
invocam e manipulam o fogo.
Havia
apenas três Thunroryaks, aqueles que
invocam e manipulam o trovão – dos Ryaks, esse era o tipo mais raro; Vizard
dera sorte de haver três deles em seus liderados.
Havia
vinte e dois Sunsáryaks, aqueles que
manipulam o ar.
Havia
dezoito Pnamryaks, aqueles podiam ir
de um lugar ao outro em segundos – pelas memórias de Caleb, Vizard classificou
esse poder como “teletransporte”.
Havia
dez Ganaruryaks, aqueles que davam
forma as sombras – estes poderiam ser chamados de “os Ryaks mais poderosos”.
Havia
seis Hasashuryaks, literalmente seu
nome significa “aqueles que manipulam mil lâminas”. Ninguém sabia exatamente
como suas habilidades funcionavam, contudo, elas foram muito úteis na Primeira
Guerra Celestial.
Por que nos juntou
aqui?, um dos Louryaks perguntou.
Estou aqui para
ensiná-los a libertar suas antigas formas sem perderem o poder que as almas nos
concedem, Vizard respondeu.
Como?
Eu não sei explicar com
palavras, então vou pedir para que os Manáryaks monitorem minha mente e ao
mesmo tempo passem a informação aos nossos irmãos.
Entendemos,
os Manáryaks responderam em uníssono.
Vizard
fechou os olhos e se concentrou nas memórias de Caleb. Algumas eram boas,
outras ruins. Lembrou-se então dos sentimentos quando o Heartless, Aws, prendeu os quatro Kyaryaks naquela jaula. Sentir-se preso... Era um sentimento que
compartilhava com Caleb. De alguma forma, Caleb sabia o que era sentir-se preso
– nunca tinha saído do Paraíso; nem mesmo sabia como era o Éden. Quando reabriu
os olhos, os outros estavam mais baixos que ele. Vizard estava novamente na sua
forma original.
Ele libertou mais
memórias da alma do que qualquer um de nós,
um Manáryak explicou, libertou memórias e sentimentos profundos da
alma. Os dois, Vizard e Caleb, possuíam memórias e sentimentos parecidos. Isso
libertou sua verdadeira forma e ao mesmo tempo manteve a alma dentro de si.
Uma medida extremamente
arriscada. Libertar tal quantidade de memórias poderá dar o controle de volta
ao possuído, outro falou.
Não obrigarei nenhum de
vocês a tentar, Vizard adiantou-se, não temos necessidade. Estamos com vantagem
na guerra. Quem não estiver disposto a arriscar, pode se retirar sem remorso
algum.
Dos
cento e nove, apenas trinta e dois ficaram. Os três Thunroryaks permaneceram. Todos sentaram no chão de pernas cruzadas
e se concentraram. Apenas cinco Manáryaks
ficaram, e estes monitoravam os outros, assim se eles perdessem o controle,
poderiam intervir em favor de seus irmãos.
Estou ficando mais
forte, Vizard agora na forma humana ouviu a
voz de Caleb, você pode sentir. Em breve
vou recuperar meu corpo.
Vizard
decidiu ignorar as ameaças da alma. Sabia que o que ele dizia era verdade,
todavia não havia nada que o Filho pudesse fazer contra. Um dia, sem dúvida,
ele com certeza teria que lutar contra Caleb pelo controle do poder que, para
torná-lo mais forte, teve de compartilhar.
Um
dos Thunroryaks levantou. Ele tinha
os braços cumpridos e finos, quase tocando o chão; ele também não tinha face,
apenas um olho no lugar onde deveria ser o nariz; tinha os cabelos muito
cumpridos; não só chegavam ao chão, como se estendiam pelo menos um metro.
Aquela era a forma original dele.
Parabéns, Blanier,
Vizard disse, você é o primeiro...
O
Ryak calou-se quando viu o olho dele,
não estava negro e laranja como o dos outros; ele estava branco de íris azul.
Era o olho da alma que ele possuíra. Contudo, seu olho não estava com raiva,
estava em dor. Como se a alma estivesse sofrendo dentro dele. Ele gritou, mesmo
não tendo uma boca; um grito de dor e tristeza, algo que Vizard nunca ouvira
antes; pôde até mesmo sentir aquela dor. Blanier soltou pequenas faíscas
elétricas em todas as direções.
Ele vai entrar em curto,
Caleb falou; logo em seguida mostrou uma de suas memórias para o Filho – que no
momento não se dera conta, mas foi a primeira vez que a alma liberara algo por
conta própria.
A
imagem que Caleb lhe mostrara não o agradou nem um pouco. Era a imagem de um
prédio que literalmente explodira em milhares e milhares de descargas
elétricas. Um fruto da imaginação de Caleb.
Se fosse realmente o que estava acontecendo ao Thunroryak, todos aqueles Filhos ali...
Era difícil dizer; aquilo era algo totalmente novo para os Filhos do Abismo. O
que será que aconteceria com eles se aquele raro Filho explodisse?
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