-
Melody. - Éron disse desesperado.
-
Me leve até a nossa gruta. E me afunde no lago.
-
Melody. Eu não posso.
-
É preciso, Éron. Você precisa me prometer.
-
Eu... Eu prometo. - As lágrimas corriam ainda mais por seu rosto e ele a olhou
desesperado. - Melody não me deixe.
-
Eu nunca vou te deixar.
-
Eu te amo.
-
Eu também te amo, Éron... Amei-te desde o primeiro instante.
Melody
deu seu último suspiro e toda a discussão foi cortada pelo grito de Éron. Ele
se agarrou ao corpo de sua amada enquanto todos a sua volta corriam em direção
a eles.
André
ficou sem reação ao ver o filho desesperado. Irina foi a primeira a chegar até
a filha. Abraçou-a ainda com ela nos braços de Éron. Ele via as pessoas
correndo e via o desespero, mas só conseguia se concentrar em sua pálida
Melody. Sua mãe se aproximou com lágrimas nos olhos. Tentaram tirar Melody de
seus braços, mas ele a segurou ainda mais forte. Havia feito uma promessa e
iria cumpri-la.
-
Precisamos levá-la para dentro. - Alguém falou.
-
Vamos, Éron, precisamos levá-la para dentro. - Ele olhou para cima e viu sua
mãe lhe estendendo a mão. Ele se levantou e ajeitou Melody em seus braços.
-
Para onde?
-
Venha por aqui. - Ele seguiu Rosie até a casa de Melody. Irina e Thomas iam ao
seu lado, André e Felipe, atrás.
Eles
seguiram pela casa até chegarem a um quarto no segundo andar. Não precisavam
lhe dizer, ele sabia que era dela. Entrou no quarto e a ajeitou em sua cama.
Arrumou seus cabelos e passou a mão por seu rosto.
-
Eu não vou descansar enquanto não cumprir o que lhe me prometi. Por você e por
Melissa. - Ele segurou sua mão. - Serei o seu Aurion. Não desistirei disso.
-
O que você prometeu a ela? - Irina perguntou delicadamente.
Éron
havia se esquecido das pessoas ao seu redor, olhou para a mãe que não via há
tanto tempo. Queria abraçá-la e lhe dizer que entendia tudo, mas havia muito
mais coisas a fazer e a explicar.
-
Melody e eu estávamos tentando salvar o Vale... - Ele lhes contou tudo o que
haviam passado, falou sobre Felix e Melissa. E como Melody havia se esgotado
para salvar sua vida. Por fim lhes contou o que Melody havia lhe contado sobre
sua mãe.
Rosie
chorava a todo o momento e André demorou a absorver tudo. Então, olhou para o
filho como se pedisse desculpas.
-
Melody descobriu onde seria o lago original e me fez prometer que a levaria até
lá. - Ele respirou por um momento e então continuou. - Ela disse que tenho que
afundá-la no lago. Só assim o Vale será salvo.
Quando
terminou, Éron estava chorando. Ninguém no quarto falou mais; Irina se
aproximou dele e se ajoelhou ao lado da cama.
-
Se é isso que ela queria. É isso que vamos fazer. - Irina o olhou por um
instante. - Obrigada por nos trazê-la de volta e por ter cuidado dela por todo
esse tempo.
-
Mas eu falhei... - Ele disse em meio às lágrimas.
-
Se ela se esgotou para poder salvar sua vida, é porque você merecia isso e
devia ser muito especial a ela. - Thomas disse, se aproximando. - Eu vejo o
quanto isso tudo lhe dói e fico feliz em saber que ela pôde conhecer você.
Enquanto
eles conversavam, Yan entrou correndo. Rosie tentou segurá-lo, mas ele foi mais
rápido e pulou na cama ao lado de Melody. Passou as mãozinhas por seus cabelos
e olhou para a mãe.
-
O que a Mel tem mamãe?
-
Ela está dormindo, Yan. - Éron respondeu. André olhou confuso para Rosie e
então para Yan.
-
Ele é? - Ele perguntou, gaguejando.
-
É sim, pai.
Yan
se deitou ao lado de Melody e a abraçou. Depois de um tempo, ele puxou a
coberta para cobri-la e então começou a cantar. Ao redor dele, todos choravam.
Éron queria poder trazê-la de volta. André ainda olhava para Yan com os olhos
cheios de lágrimas.
-
Acho que vocês precisam descansar antes de partimos e acredito que Rosie queira
um momento com vocês. - Thomas falou. - Vou providenciar. - Éron via o quanto
estava sendo difícil para ele se manter forte. Ele deu um beijo na testa da
filha e seguiu em direção à porta.
-
Eu... Eu posso ficar aqui... Com ela? - Éron perguntou.
-
Não vejo problema nisso. - Então ele saiu, seguido de Irina. Yan continuava
cantando e estava quase adormecendo ao lado de Melody.
-
Acho que vocês dois tem muito que conversar. - Éron falou. - Eu fico com Yan
até voltarem.
Éron
se deitou do outro lado de Melody e ficou observando Yan. Aquilo parecia ser
algo que talvez Melody fizesse com ele. Era errado deixar uma criança assim, ao
lado de alguém, mas Melody não parecia morta, ainda estava quente. Ele sabia
que precisava deixar Yan ter esse momento, esse último momento. Depois de algum
tempo, Yan se levantou e olhou para Éron.
-
Agora Mel pode dormir sem monstros.
-
Há monstros aqui? - Éron perguntou.
-
Não... Mel canta para os monstros não me pegarem. - Ele olhou sério para Éron. -
Eu canto para os monstros não pegaram Mel. - Éron se levantou e foi até a
janela. Yan o seguiu até lá.
-
Você gosta da Melody, Yan?
-
Sim... Mel cuida de mim quando a mamãe está ocupada. Você é amigo da Mel?
-
Sou sim. - Ele disse, sorrindo.
-
Então, é meu amigo também.
Éron
não viu quando seus pais entraram no quarto. Só percebeu a presença deles
quando sua mãe falou.
-
Ele é mais que seu amigo, Yan. - Éron se virou e viu seus pais abraçados. Nem
sabia o quanto queria ver isso. Rosie correu para ele e o abraçou. - Me perdoe
filho. Eu queria voltar, mas...
-
Tudo bem, mãe... Eu sei. - Rosie o olhou e passou a mão em seu rosto.
-
Você ficou tão bonito... Já é um homem.
Rosie
levou Éron e Yan para o seu quarto. Ela morava na casa de Melody. Explicou a
Yan quem eram Éron e André. O menino reagiu bem a notícia e pulou para os
braços do pai. Aquele deveria ser um momento feliz, mas a cabeça de Éron estava
em Melody. Felipe havia voltado para o Clã do Norte para contar a Nana o que
havia acontecido.
Éron
não queria estragar o momento de seu pai com Yan, então apenas ficou
observando. Algum tempo depois, Thomas apareceu para chamá-los. Éron queria
levar Melody, mas deixou que Thomas a levasse até a carruagem. Depois disso,
Thomas, Éron e André subiram em cavalos e Irina e Rosie foram à carruagem.
Éron
os guiou pela floresta. Sabia que a gruta apareceria para ele a qualquer
momento. Quando se aproximou do começo do morro, ele viu a abertura brilhando.
Apontou o lugar para os outros e então eles pararam. Éron desceu de seu cavalo
e correu para a carruagem. De uma coisa ele tinha certeza: ele tinha que fazer
aquilo sozinho.
Ele
pegou Melody no colo e a levou para dentro da gruta. Ele já havia explicado a
todos que ela aparecia em qualquer lugar, mas ficava em baixo da cachoeira.
Ninguém ficou surpreso quando entraram e se depararam com a cortina de água.
O
lago parecia brilhar, assim como no dia em que haviam se conhecido. Éron se
aproximou da margem e olhou para trás. Seus pais e os pais de Melody se
abraçavam chorando. Thomas fez sinal para que ele fosse em frente. Éron começou
a entrar no lago e quando chegou até a metade dele, parou. Deu um beijo na
testa de Melody e sussurrou:
-
Eu sou tão seu quanto você pertence ao Vale. Enquanto eu viver, meu amor estará
com você.
Ele
a abraçou e então deixou que seu corpo afundasse no lago. O lago a abraçou e a
levava cada vez mais longe dele. Disse adeus baixinho com lágrimas nos olhos e
torceu para que isso funcionasse. Afastou-se devagar e seguiu em direção aos
outros. Não conseguia superar a dor que sentia; ter a deixado ir era a coisa
mais dolorosa que já fizera.
Estava
pronto para deixar a gruta, quando a água começou a borbulhar e ficar dourada.
Eles olharam para o lago enquanto algo brotava no meio dele. Depois de alguns
minutos uma flor dourada surgiu. Era a flor mais linda que já haviam visto.
Os
raios do sol começaram a brilhar pela cachoeira que aos poucos perdia a força e
ia se tornando uma fina cascata. O sacrifício de Melody havia salvado o Vale.
Éron sentia isso. Apesar de tudo, ele estava feliz em saber que eles tinham
conseguido. Seus pais o abraçaram e então saíram da gruta o deixando a sós com
Irina e Thomas.
-
Você sabe que fez o que ela queria. - Thomas falou-lhe.
-
Então, por que eu me sinto tão mal?
-
Porque você, assim como nós, teve que deixá-la ir. Mas você vai senti-la em
todo lugar, pois ela é parte do Vale. - Irina o abraçou e saiu da gruta seguida
por Thomas. Éron olhou para a flor no meio do lago.
-
Esse vai ser para sempre o nosso lugar. Assim como a árvore de Melissa e Aurion,
essa será a marca do meu amor. Por toda a eternidade. - Éron começou a chorar. -
Eu te amo, Melody Farley Rebello.
Dizendo
isso, ele limpou as lágrimas e seguiu em direção à saída. Via o sol brilhando
lá fora como nunca brilhara, mas não queria ver isso. Queria ficar ali pela
eternidade. Ele suspirou e continuou. Quando estava quase saindo, ouviu uma
voz.
-
Eu também te amo, Éron.
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