O Vale de Lótus - Capítulo 20: A Gruta

- Melody. - Éron disse desesperado.
- Me leve até a nossa gruta. E me afunde no lago.
- Melody. Eu não posso.
- É preciso, Éron. Você precisa me prometer.
- Eu... Eu prometo. - As lágrimas corriam ainda mais por seu rosto e ele a olhou desesperado. - Melody não me deixe.
- Eu nunca vou te deixar.
- Eu te amo.
- Eu também te amo, Éron... Amei-te desde o primeiro instante.
Melody deu seu último suspiro e toda a discussão foi cortada pelo grito de Éron. Ele se agarrou ao corpo de sua amada enquanto todos a sua volta corriam em direção a eles.
André ficou sem reação ao ver o filho desesperado. Irina foi a primeira a chegar até a filha. Abraçou-a ainda com ela nos braços de Éron. Ele via as pessoas correndo e via o desespero, mas só conseguia se concentrar em sua pálida Melody. Sua mãe se aproximou com lágrimas nos olhos. Tentaram tirar Melody de seus braços, mas ele a segurou ainda mais forte. Havia feito uma promessa e iria cumpri-la.
- Precisamos levá-la para dentro. - Alguém falou.
- Vamos, Éron, precisamos levá-la para dentro. - Ele olhou para cima e viu sua mãe lhe estendendo a mão. Ele se levantou e ajeitou Melody em seus braços.
- Para onde?
- Venha por aqui. - Ele seguiu Rosie até a casa de Melody. Irina e Thomas iam ao seu lado, André e Felipe, atrás.
Eles seguiram pela casa até chegarem a um quarto no segundo andar. Não precisavam lhe dizer, ele sabia que era dela. Entrou no quarto e a ajeitou em sua cama. Arrumou seus cabelos e passou a mão por seu rosto.
- Eu não vou descansar enquanto não cumprir o que lhe me prometi. Por você e por Melissa. - Ele segurou sua mão. - Serei o seu Aurion. Não desistirei disso.
- O que você prometeu a ela? - Irina perguntou delicadamente.
Éron havia se esquecido das pessoas ao seu redor, olhou para a mãe que não via há tanto tempo. Queria abraçá-la e lhe dizer que entendia tudo, mas havia muito mais coisas a fazer e a explicar.
- Melody e eu estávamos tentando salvar o Vale... - Ele lhes contou tudo o que haviam passado, falou sobre Felix e Melissa. E como Melody havia se esgotado para salvar sua vida. Por fim lhes contou o que Melody havia lhe contado sobre sua mãe.
Rosie chorava a todo o momento e André demorou a absorver tudo. Então, olhou para o filho como se pedisse desculpas.
- Melody descobriu onde seria o lago original e me fez prometer que a levaria até lá. - Ele respirou por um momento e então continuou. - Ela disse que tenho que afundá-la no lago. Só assim o Vale será salvo.
Quando terminou, Éron estava chorando. Ninguém no quarto falou mais; Irina se aproximou dele e se ajoelhou ao lado da cama.
- Se é isso que ela queria. É isso que vamos fazer. - Irina o olhou por um instante. - Obrigada por nos trazê-la de volta e por ter cuidado dela por todo esse tempo.
- Mas eu falhei... - Ele disse em meio às lágrimas.
- Se ela se esgotou para poder salvar sua vida, é porque você merecia isso e devia ser muito especial a ela. - Thomas disse, se aproximando. - Eu vejo o quanto isso tudo lhe dói e fico feliz em saber que ela pôde conhecer você.
Enquanto eles conversavam, Yan entrou correndo. Rosie tentou segurá-lo, mas ele foi mais rápido e pulou na cama ao lado de Melody. Passou as mãozinhas por seus cabelos e olhou para a mãe.
- O que a Mel tem mamãe?
- Ela está dormindo, Yan. - Éron respondeu. André olhou confuso para Rosie e então para Yan.
- Ele é? - Ele perguntou, gaguejando.
- É sim, pai.
Yan se deitou ao lado de Melody e a abraçou. Depois de um tempo, ele puxou a coberta para cobri-la e então começou a cantar. Ao redor dele, todos choravam. Éron queria poder trazê-la de volta. André ainda olhava para Yan com os olhos cheios de lágrimas.
- Acho que vocês precisam descansar antes de partimos e acredito que Rosie queira um momento com vocês. - Thomas falou. - Vou providenciar. - Éron via o quanto estava sendo difícil para ele se manter forte. Ele deu um beijo na testa da filha e seguiu em direção à porta.
- Eu... Eu posso ficar aqui... Com ela? - Éron perguntou.
- Não vejo problema nisso. - Então ele saiu, seguido de Irina. Yan continuava cantando e estava quase adormecendo ao lado de Melody.
- Acho que vocês dois tem muito que conversar. - Éron falou. - Eu fico com Yan até voltarem.
Éron se deitou do outro lado de Melody e ficou observando Yan. Aquilo parecia ser algo que talvez Melody fizesse com ele. Era errado deixar uma criança assim, ao lado de alguém, mas Melody não parecia morta, ainda estava quente. Ele sabia que precisava deixar Yan ter esse momento, esse último momento. Depois de algum tempo, Yan se levantou e olhou para Éron.
- Agora Mel pode dormir sem monstros.
- Há monstros aqui? - Éron perguntou.
- Não... Mel canta para os monstros não me pegarem. - Ele olhou sério para Éron. - Eu canto para os monstros não pegaram Mel. - Éron se levantou e foi até a janela. Yan o seguiu até lá.
- Você gosta da Melody, Yan?
- Sim... Mel cuida de mim quando a mamãe está ocupada. Você é amigo da Mel?
- Sou sim. - Ele disse, sorrindo.
- Então, é meu amigo também.
Éron não viu quando seus pais entraram no quarto. Só percebeu a presença deles quando sua mãe falou.
- Ele é mais que seu amigo, Yan. - Éron se virou e viu seus pais abraçados. Nem sabia o quanto queria ver isso. Rosie correu para ele e o abraçou. - Me perdoe filho. Eu queria voltar, mas...
- Tudo bem, mãe... Eu sei. - Rosie o olhou e passou a mão em seu rosto.
- Você ficou tão bonito... Já é um homem.
Rosie levou Éron e Yan para o seu quarto. Ela morava na casa de Melody. Explicou a Yan quem eram Éron e André. O menino reagiu bem a notícia e pulou para os braços do pai. Aquele deveria ser um momento feliz, mas a cabeça de Éron estava em Melody. Felipe havia voltado para o Clã do Norte para contar a Nana o que havia acontecido.
Éron não queria estragar o momento de seu pai com Yan, então apenas ficou observando. Algum tempo depois, Thomas apareceu para chamá-los. Éron queria levar Melody, mas deixou que Thomas a levasse até a carruagem. Depois disso, Thomas, Éron e André subiram em cavalos e Irina e Rosie foram à carruagem.
Éron os guiou pela floresta. Sabia que a gruta apareceria para ele a qualquer momento. Quando se aproximou do começo do morro, ele viu a abertura brilhando. Apontou o lugar para os outros e então eles pararam. Éron desceu de seu cavalo e correu para a carruagem. De uma coisa ele tinha certeza: ele tinha que fazer aquilo sozinho.
Ele pegou Melody no colo e a levou para dentro da gruta. Ele já havia explicado a todos que ela aparecia em qualquer lugar, mas ficava em baixo da cachoeira. Ninguém ficou surpreso quando entraram e se depararam com a cortina de água.
O lago parecia brilhar, assim como no dia em que haviam se conhecido. Éron se aproximou da margem e olhou para trás. Seus pais e os pais de Melody se abraçavam chorando. Thomas fez sinal para que ele fosse em frente. Éron começou a entrar no lago e quando chegou até a metade dele, parou. Deu um beijo na testa de Melody e sussurrou:
- Eu sou tão seu quanto você pertence ao Vale. Enquanto eu viver, meu amor estará com você.
Ele a abraçou e então deixou que seu corpo afundasse no lago. O lago a abraçou e a levava cada vez mais longe dele. Disse adeus baixinho com lágrimas nos olhos e torceu para que isso funcionasse. Afastou-se devagar e seguiu em direção aos outros. Não conseguia superar a dor que sentia; ter a deixado ir era a coisa mais dolorosa que já fizera.
Estava pronto para deixar a gruta, quando a água começou a borbulhar e ficar dourada. Eles olharam para o lago enquanto algo brotava no meio dele. Depois de alguns minutos uma flor dourada surgiu. Era a flor mais linda que já haviam visto.
Os raios do sol começaram a brilhar pela cachoeira que aos poucos perdia a força e ia se tornando uma fina cascata. O sacrifício de Melody havia salvado o Vale. Éron sentia isso. Apesar de tudo, ele estava feliz em saber que eles tinham conseguido. Seus pais o abraçaram e então saíram da gruta o deixando a sós com Irina e Thomas.
- Você sabe que fez o que ela queria. - Thomas falou-lhe.
- Então, por que eu me sinto tão mal?
- Porque você, assim como nós, teve que deixá-la ir. Mas você vai senti-la em todo lugar, pois ela é parte do Vale. - Irina o abraçou e saiu da gruta seguida por Thomas. Éron olhou para a flor no meio do lago.
- Esse vai ser para sempre o nosso lugar. Assim como a árvore de Melissa e Aurion, essa será a marca do meu amor. Por toda a eternidade. - Éron começou a chorar. - Eu te amo, Melody Farley Rebello.
Dizendo isso, ele limpou as lágrimas e seguiu em direção à saída. Via o sol brilhando lá fora como nunca brilhara, mas não queria ver isso. Queria ficar ali pela eternidade. Ele suspirou e continuou. Quando estava quase saindo, ouviu uma voz.

- Eu também te amo, Éron.

About Leandro Zapata

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