O copo estava em cima da mesa. Seu vidro transparente refletia o
sol que entrava pela janela. Ele estava cheio até a metade e parecia estar lá
desde sempre. Uma fina camada de poeira cobria a mesa rústica. As cadeiras
estavam cobertas por um lençol branco, juntamente com os demais móveis da casa.
O piano da sala, porém, estava aberto. Suas teclas empoeiradas até
a metade davam a impressão de que alguém limpara ao tocar uma melodia
melancólica.
Ao me aproximar, tropecei em uma
caixa próxima à poltrona também coberta por lençol. Ajoelhei-me junto a caixa e
uma curiosidade de saber o que tinha dentro tomou conta de mim. Espalhei a
poeira com um leve sopro e abri a caixa, revelando uma pequena caixa de música.
Embaixo, havia um porta-retrato que cabia perfeitamente dentro da caixa.
Com cuidado, tirei o porta-retrato e
virei para ver a figura gravada em sua superfÃcie. Levantei-me para apreciar a
bela imagem à luz da claridade que entrava pelas frestas da pesada cortina de
camurça.
A moça da antiga fotografia sorria.
Seus cachos caiam levemente sobre seus ombros enquanto seus olhos escuros
alegravam-se ao receber um buquê de flores do campo. As mãos que ofereciam as
flores pertencia a um rapaz de aparência nobre. Ele sorria igualmente, seus
olhos, porém, fixavam-se nos olhos da moça.
Segurei o quadro em minhas mãos
enquanto meus olhos vagavam pela sala há muito tempo desabitada. Fixei o olhar
sobre a lareira e notei um espaço marcado sobre ela. Notei que, talvez, era lá
que um dia fora pendido o quadro em minhas mãos.
Em poucos passos, alcancei a lareira
e encaixei o quadro onde um dia ele pertencera. Vi um envelope aberto sobre a
madeira rústica da lareira. Seu selo rosa, envelhecido com o tempo, permitia
que a carta de lá de dentro fosse retirada. Novamente, a curiosidade tomou
conta de mim e me vi abrindo a delicada carta.
Dei três passos para trás e acionei
a bela vitrola do canto da sala. Uma melodia desconhecida por mim soou pelo
auto falante da vitrola. Comecei a ler a carta.
Sua datação era de uma época antiga.
As mãos que a escrevera desenhara em uma bela caligrafia uma linda canção de
amor. Suspirei levemente e elevei meus olhos ao quadro que acabara de pender na
parede.
Olhei à minha volta novamente e
notei mais uma vez a grande poltrona coberta pelo lençol. Ao seu lado, havia outra
poltrona, agora menor e com formas delicadas. Sorri levemente, sentindo a
ternura que pairava sobre ar. Uma memória impregnada no local pelo jovem casal
que uma vez habitou essa pequena casa e que envelheceram juntos.
Lembrei-me então do que uma vez ouvi sobre o casal. Que sou
privilegiada por ser fruto de tão belo de amor. Olhei novamente para o retrato
da lareira e reconheci ali os traços familiares. E então acreditei que não
houve amor tão belo quanto o amor compartilhado entre meus avós.
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