-
Você sabe como matá-los? - Elena repetiu a pergunta.
-
Não podemos matá-los. Só podemos “pará-los”.
-
E você sabe como?
-
A palavra na testa deles. Só temos que apagar a primeira letra. - Anúbis
explicou.
-
Não pense que será uma tarefa fácil. - Disse o rabino. Ele então acrescentou
uma ou duas palavras em hebraico. Poderia ser mais, mas ela não conhecia
hebraico o bastante para dizer.
Na
cabeça de cada um dos golens surgiu um capacete de guerra, cujo objetivo era
protegê-los. Ela não podia dizer com certeza, mas pareciam de aço.
-
Se arrancarmos as cabeças deles, será que resolve? - A garota perguntou.
-
Não sei. Talvez. Se esconda.
-
Não, eu quero lutar!
-
Você não pode lutar. Agora, se esconda. - Seu tom foi definitivo.
Ela
correu por entre algumas prateleiras que estavam fora do alcance dos golens e
se escondeu sentindo-se a pessoa mais inútil do mundo. Queria poder lutar,
ajudar Anúbis, trazer Leonard de volta com sua própria força, e não ficar
dependendo do deus. Sentia que poderia fazer qualquer feitiço que quisesse,
dependendo de sua energia e se conhecesse as palavras. Conhecimento era o que
lhe faltava. E ela estava na maior fonte de conhecimento que podia existir na
Terra. Pegou alguns pergaminhos nas prateleiras, porém nenhum ensinava a fazer
magia ou a tomar o controle dos golens.
O conhecimento
que procuras, minha criança, posso lhe entregar. Aquela
estranha voz familiar soou em sua mente.
Quem é você?
Perguntou, irritada. Estava cansada de pessoas falando na sua cabeça. Já
bastava Anúbis, agora havia outro.
Não se lembra de
mim, brincamos juntos tantas vezes quando você era uma criança indefesa.
As
imagens vieram de supetão em sua cabeça. Ela era de novo uma menininha
brincando com suas bonecas. Havia o Ken, namorado de sua Barbie favorita. Por
alguma razão, o Ken era o único que respondia a ela; o único que ela não
precisava mudar a voz para fazer. E aquela voz falando em sua mente naquele
momento era a mesma voz.
É por isso que
sua voz é tão familiar. Esteve comigo o tempo todo.
Não exatamente, ele
respondeu.
Como assim?
Eu não estive com você, eu sou você. E você sou eu. Somos um só.
O que isso quer
dizer?
Não se preocupe
você descobrirá logo. Agora tem algo que precisa fazer. Os golens foram criados
principalmente por causa dos deuses egípcios. Não há como ele derrotar tantos
ao mesmo tempo, pois eles são praticamente imunes à magia egípcia.
Como posso
ajudá-lo?, a garota estava desesperada em ajudar o deus.
Por sermos um só, tudo o que eu sei você sabe.
Você apenas precisa abrir sua mente, seu coração, sua vontade e alma a mim.
Elena
estava assustada. Era muita bizarrice acontecendo em muito pouco tempo. Seu
cérebro estava prestes a pifar, ou pelo menos era assim que se sentia. Nada
mais estava fazendo sentido. Mas, ao mesmo tempo, ela sabia que tudo aquilo
realmente estava acontecendo; que Leonard estava morto; que um deus estava
ajudando a ressuscitá-lo. Aquela voz... Era tão familiar, tão confortadora, e
parecia ter poder. Poder para ela conquistar todos os desejos de seu coração!
Eu aceito,
respondeu, quero todo conhecimento que
preciso para salvá-lo.
Ela
não o via, obviamente, mas sabia que o dono da voz estava sorrindo.
Então, que seja.
Dar-lhe-ei todo conhecimento que precisa para salvar Anúbis.
Não,
retrucou, quero todo o conhecimento para
trazer Leonard de volta.
Porém, nem mesmo
eu posso transgredir a morte diretamente, ele disse, mas não é impossível trazê-lo de volta, como
sabes. E, também, não posso te ensinar a Sr̥ṣṭi.
Por que não?
Por que me foi
proibido.
Elena
decidiu não perguntar “por quem”, mas quis fazê-lo. Um sussurro sombrio veio de
todos os lugares e de lugar nenhum. Estava dentro de sua mente, todavia, fora.
O cochichar ecoava em seu coração e em sua alma. Ela sentiu poder vindo da voz.
Apesar de ser em dezenas de línguas, ela compreendia cada palavra; e todas elas
haviam um propósito, uma vontade, um poder. Cada uma delas possuía um
conhecimento diferente. Como que por instinto, ela fechou os olhos, para logo
em seguida reabri-los.
Tudo
estava num tom estranho de lilás; ela não olhou, mas sabia que havia palavras
de todas as línguas tatuadas em seu corpo. Sentiu o poder. Dessa vez estava
diferente, não sentia como se o poder viesse de fora, um intruso em seu corpo.
O poder era dela. Ela conhecia toda e
qualquer palavra capaz de fazer magia, e sabia qual delas gastavam mais energia
ou não.
Sorriu.
Nunca
se sentira tão viva. Tão completa. Nem mesmo quando Leonard estava vivo, ela se
sentiu tão completa. Tão feliz.
Sentia prazer no poder; na sensação de ser capaz de qualquer coisa. Ela pensou
em Leonard e piscou. Não viu nada além de escuridão, mal enxergava a um palmo
do seu nariz. Será que o poder estava falhando? Mas ela soube que não quando a
voz dele disse:
-
Quem está ai? Será que pode me soltar?
Ele
estava preso! Preso em algum lugar sem luz.
Sentiu
sua raiva crescer. Piscou de novo e voltou à realidade. Tinha uns golens para
destruir, logo em seguida iria direto ao Paraíso para salvá-lo.
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