O Viajante Noturno
por Caroline Alves
O Viajante Noturno era o navio mais temido dos sete mares. Visto apenas por pessoas destinadas à morte, dizem que o navio possui velas vermelhas como sangue e madeira preta, quase podre. As lendas contam que o capitão do navio é o próprio Lorde das Almas, em nosso mundo conhecido como Morte, um ser de pele tão branca quanto papel, colada aos ossos, deixando-os quase a mostra; perfurações espalhavam-se por todo seu corpo enrugado. Ele cobria-se com uma capa negra rasgada nas bordas, parecia mais uma cortina enrolada no corpo moribundo do que uma roupa.
Seus tripulantes eram conhecidos como Lamentos, pois eram almas pecadoras que morreram fazendo o mal. A punição para atos cruéis e desastrosos era a eternidade no Viajante Noturno como escravos do Lorde temido por cada ser da face terrestre.
A Morte era fria calculista, escolhia seus futuros marujos a dedo e só matava alguém quando decretasse que estava na hora. Neste momento, a pessoa poderia ver o Viajante Noturno, a único navio a navegar sobre água e sobre ar.
No alto do farol, vivia o vigilante Chippy Nortan, um senhor de 48 anos que lutara em mais de cinco guerras pela Rainha da Inglaterra. O homem de 1,76 andava pelos corredores do farol arrastando sua perna marcada pelas batalhas. Uma fumaça branca penetrou pelas janelas redondas. Um ar frio percorreu o corpo de Nortan, que olhou pela pequenina janela daquele lugar. Viu as velas vermelho-sangue. Ele sabia que era o Viajante Noturno. Aumentou a velocidade seus passos mancos.
Era difícil fugir que algo que não se consegue ver, mesmo assim, para Nortan ainda não era sua vez de partir. O Lorde das Almas não levaria sua alma sem luta.
Os cabelos longos e grisalhos do homem dançaram junto ao vento forte, que a todo minuto adentrava pelas pequenas janelas do farol. Seu coração batia mais rápido do que o de um rato ou coelho; podia senti-lo batendo contra as paredes de seu peito. Finalmente nas escadas, Nortan se segurou ao corrimão tentando, com toda sua força, pular os degraus para correr ainda mais do que suas pernas conseguiam aguentar.
A névoa se tornou intensa, já não era possível ver mais nada. O homem implorou a seus deuses que o ajudassem a sair daquela vivo; contudo a Morte também é um deus e deuses não interferem nos assuntos de outros deuses. Nortan não teria a ajuda que desejava.
Ele estava no meio dos degraus, três lances para o fim e três para o todo. A risada penetrou seus ouvidos; era algo medonho mesclado ao horror e a cada gargalhar um frio percorria seu corpo. Era horrendo ouvir a Morte rindo antes de lhe embalar o manto da vida e tomá-la de si.
Nortan continuou a correr, mesmo com poucas esperanças. A vontade de viver e morrer, deitadas, sonhavam com algo bom que era maior, mais forte e poderoso. Fora a vontade de viver que o motivou a pular o último lance. Caiu com força no piso grosso e gélido próximo a saída. Sua perna rangeu na mesma fratura feita por um inimigo na última guerra, a mesma que falhava todos os dias de manhã, a mesma que falhara no momento que a Morte surgiu sobre seu corpo cansado e ofegante. Uma imagem era ainda pior do que a voz que gargalhou.
O manto negro soltou-se do corpo. A Morte estava cada vez mais parecida com um esqueleto; a carne avermelhada já colada nos ossos; pouca pele para esconder o nojo de um corpo em decomposição. O cheiro de vinho e carneiro morto ao sol se alastrava pelo farol. Nortan sentiu medo principalmente dos olhos amarelos que o fitavam famintos e dos dentes afiados como de tubarão loucos para morder sua carne velha.
O manto voou. Nortan acompanhou o movimento como se estivesse hipnotizado e o embalou em um sono de olhos abertos. A imagem da Morte devorando-o mesclou-se ao riso sombrio da criatura horrenda. Os gritos foram ouvidos na cidade, mas não havia tempo ou meios para salvar Nortan, o velho louco do farol. Ele desapareceu, deixando apenas sangue no chão azulado, próximo as escadas.
O Viajante Noturno sumia no horizonte enquanto o sol nascia para um dia calmo e silencioso.
Havia uma nova alma para o trabalho forçado no navio sombrio. O pecado de Nortan fora matar homens durante as guerras que combateu. Era hora de pagar por cada tiro disparado de sua espingarda preta: cem chibatadas por dia com cordas espinhentas que faziam sua alma rasgar-se; uma eternidade de gritos e tarefas nojentas dentro do Viajante Noturno.
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