Elena cavalgava o chacal de pelo cinzento com mais de
três metros da ponta do focinho a ponta da calda. Ela agarrava com força seus
pelos, pois ia tão rápido que a cidade passou-lhe pelos olhos como um borrão. O
vento, que batia forte em seu rosto e bagunçava lhe os cabelos, deixava o calor
do deserto quase imperceptível. Estava tão distraída pela corrida e por seus
pensamentos que não viu o homem que, voando, cruzou com eles no Saara.
Pensava na conversa que tivera com Anúbis, o deus
egípcio da morte, algumas horas antes:
- Você está dizendo que é possível trazer Leonard de
volta? - Ela não podia acreditar.
- É claro! Existem dezenas de meios para isso. - Ele
falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
- Como?
- Isso depende. O que você está disposta a pagar?
- Tudo. - Ela realmente estava disposta a fazer qualquer
coisa para tê-lo de volta.
- Isso é bom. - Afirmou Anúbis. - Até mesmo sacrificar
algumas almas?
Elena não respondeu. Não sabia se conseguiria matar
alguém para trazer Leonard de volta. Ele nunca aprovaria tal método.
- Foi o que pensei. Eu só posso realizar um ritual de
ressurreição em alguém cujo corpo tenha sido mumificado, o que não é o caso.
- Então, o que faremos?
- Será que ele ainda está por ai? - Ele disse mais
baixo, estava falando com ele mesmo.
Ele quem?, ela pensou;
- Quando eu conheci os outros deuses da morte, - ele
começou a contar; outros deuses da morte?,
Elena pensou - a Morte nos introduziu a um homem chamado Novaselik. Ele era uma
espécie de mediador entre nós e a Morte. Novaselik possuí um vasto conhecimento
de todos os tipos de magia e rituais; seu conhecimento é tão vasto que a Morte
o batizou de “Aquele que Sabe de Todas as Coisas”. Ele com certeza possui um
ritual para ressuscitá-lo.
Era para onde estavam indo: encontrar o homem que sabe
de todas as coisas.
O que estou fazendo?, pensou.
Ela estava cavalgando um chacal, que por sinal era um
deus egípcio, pela África para encontrar um velho imortal que sabia de tudo;
tal velho foi apresentado a vários deuses da morte pela Morte em pessoa há mais
de cinco mil anos. Aquilo era loucura; quando foi que perdera a sanidade? Será
que estava sonhando? Será que acordaria em alguma cama de hospital com Leonard
ao lado dela observando-a? É, isso seria ótimo. Esperava que o pesadelo
acabasse logo.
Eles estão vindo. A voz de Anúbis
soou dentro de sua mente.
O que diabos você está fazendo na minha cabeça? Retrucou.
É muito mais fácil usar telepatia nessa forma do que falar. Explicou.
Ela ignorou a intrusão e perguntou: Quem está vindo?
Os anjos.
Elena olhou para o céu azul sem nuvens do deserto.
Três bolas de fogo vinham na direção deles em alta velocidade.
Isso é bom, não é? Tipo, os anjos são do bem. Ela pensou.
Bem, como eu posso dizer de forma simples, eu não sou parte da criação
do Deus dos Judeus e eu deveria estar preso no Duat. Em outras palavras, eles
são meus inimigos.
Merda. E agora?
Podemos tentar fugir, mas não será fácil. Lutar não é uma opção, eu não
tenho chance contra três deles. Se fosse apenas um, era outra história. E você
também não sabe usar magia.
Quando as bolas de fogo estavam mais próximas, elas
apagaram, deixando em seu lugar três seres alados. Elena reconheceu um deles, o
do meio e provavelmente líder, mas não se lembrava exatamente de onde podia
conhecê-lo. Da sua antiga escola? Ou será que era uns dos amigos do pai da
ordem? Não... Todos eram humanos, nenhum deles era um anjo. Ou será que eram?
Deixou esses pensamentos de lado, tinha algo mais
importante no que pensar.
Buscou no fundo de sua mente os poucos feitiços que o
pai lhe ensinara anos atrás, mas que ela nunca teve interesse em estudar em
profundidade. Bah nikin... Bah kinin...
Como era mesmo o feitiço de trovão? Merda...pensou.
Anúbis acelerou a corrida, mas os anjos estavam se
aproximando com velocidade.
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- Nós vamos mandá-lo de volta a Terra. - Disse Salazar
do Conselho de Prata horas antes.
- E por que isso? - Nathanael perguntou surpreso, mas
um pouco feliz, sentia falta da Terra. Mais especificamente, de Aaron Van
Helsing e dos outros amigos. Talvez conseguisse vê-los.
- Recebemos informações de que um dos deuses egípcios
escapou do Duat e está indo rumo ao sul da África. Não sabemos qual é seu
objetivo ainda, mas independente disso você deve capturá-lo e prendê-lo
novamente.
- Como ele escapou?
- Com a ajuda da Morte e de uma humana chamada Elena
Treagus.
O nome não lhe era estranho. Treagus era um ex-membro
da Ordem da Rosa Cruz, que foi morto em 2008, quando a Ordem do Brasil foi extinta.
Elena era sua filha mais velha e também ex-aluna do Colégio Católico Padre
Andersen. Nathanael foi funcionário do Colégio por alguns meses a fim de ajudar
a guardar a Chave de Lúcifer junto com Aaron, o Guardião.
- Senhor, não seria melhor que eu ficasse no Paraíso e
lutasse na guerra contra os Filhos do Abismo?
- A Segunda Guerra Celestial que enfrentamos pode
estar conectada a esse evento na Terra. Os dois envolvem a Morte.
- Como?
- Infelizmente não temos informações suficientes para
afirmar com certeza, pois envolve alguns fatos sobre a Primeira Guerra
Celestial e até mesmo sobre a nossa criação e do resto do Universo. Nossos
melhores homens estão investigando os documentos históricos.
- O que o Senhor falou sobre isso?
- Nada.
- Como assim nada? - Nathanael subiu o tom de voz,
costumava se irritar com o aparente desdém do Criador, e foi isso que o fez
unir-se a Lúcifer na Rebelião.
- Atente-se ao tom de voz, meu rapaz! Estamos falando
de nosso Criador, o Senhor todo poderoso e onisciente! Ele sabe o que está
acontecendo e o que vai acontecer, se Ele não interferiu até agora é porque
sabe que nós, os anjos e suas Legiões, podemos resolver. Quando for necessário
Ele irá dizer algo. E sim, você irá para a Terra junto com mais dois anjos
guerreiros. Eu também estou enviando um anjo mensageiro para o último Heartless vivo.
- Por quê? Acha que nós três não somos o suficiente
para selar um único deus?
- Cuidado com as palavras, moleque insolente! Apenas
porque o Senhor lhe deu permissão para usar a Magia Infernal no Paraíso e a
Magia Celestial quando lhe foi proibido não significa que não me deve respeito.
Vocês são o plano A até que o Heartless assuma
a missão, depois vocês devem voltar diretamente para esse Conselho, está me
entendendo?
- Sim, senhor.
- Ótimo. Você pode ir agora.
Nathanael saiu com raiva. Como que alguém onisciente,
onipresente e onipotente simplesmente abandona seus servos no meio de uma
guerra como aquela, a qual era muito mais para proteger as próprias almas criadas
e amadas por Ele? Era algo que Nathanael não conseguia entender. De certa
forma, fora isso que mudou Lúcifer e muitos outros.
O que eu estou pensando!?, censurou
a si mesmo. Ele usou a Arte, a magia demoníaca apenas uma vez, e ela já estava
afetando seus pensamentos. Ou será que não? Será que aqueles não eram seus
pórpios pensamentos? O Criador era misericordioso. Ele era amor. Talvez por
isso não gostasse de guerrear, de lutar, de machucar outros. Esse era serviço para
criaturas imperfeitas, como os anjos ou homens. Um ser perfeito como Ele não
sujava as mãos com sangue.
Os outros dois anjos se juntaram a ele na praça
central de Nova Jerusalém, onde era a entrada para o Salão de Prata. Um deles pertencia
as Legiões de Rafael, o outro, as de Miguel. O Conselho foi esperto o
suficiente para não mandar ex-Caídos junto de Nathanael na missão. Isso poderia
ser prejudicial. Um deles informou que o arcanjo Gabriel fora informar o Heartless.
Abriram as asas e alçaram voo. Enquanto voavam
Nathanael falou algo na Língua de Prata, o que abriu um portal no céu do
Paraíso para a Terra.
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Týr, Thais, Sara e eu estávamos no único vagão de trem
que a maquinaria, pilotada por Abraão, puxava. Decidimos dessa forma, pois
seriamos os únicos a viajar até Roma, uma das poucas capitais livre de Filhos
do Abismo e guardada por anjos. A viagem estava tranquila, e não havia sinal de
nenhum inimigo. Era até difícil dizer que estávamos em guerra... Ou melhor, que
os anjos estavam em guerra.
Eu já não sabia o que eu representava nessa guerra.
Sabia que não estava do lado dos Filhos, nem do lado dos anjos. Será que é uma
guerra de três lados, e eu era o único neste terceiro lado? Pelo menos somando
Týr e Thais, eu não estava sozinho.
Ele sabe que você se lembra de sua vida terrena. As palavras de Abraão voltavam com frequência a minha
mente. Ele sabe. Por que não fez algo
a respeito? Será que Ele sabe de Týr também? O que estava acontecendo. Um jogo de poder; foi o que veio a minha
mente. O Criador e o Destruidor, a Morte, estavam competindo; um era a vida e o
outro, o fim. Ou não? Talvez isso fosse apenas mais uma paranoia da minha mente
muito criativa. Mas o que eu estou
fazendo no Paraíso?
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Um dos anjos passou voando por eles como um borrão e parou
a alguns metros a frente. Nas mãos dele havia algum tipo de marreta gigante
feita de um fogo alaranjado belíssimo, porém mortal. Antes que Anúbis pudesse
desviar, o anjo acertou-o com a marreta na lateral do corpo. Anúbis soltou um
“caim” de dor, como um cão faz. Os dois voaram alguns metros e caíram na areia,
Elena caiu alguns metros a frente de Anúbis.
Bán kính, a
palavra veio do nada na mente de Elena.
Quando Elena olhou, Anúbis já estava lutando contra os
anjos. Ele estava na forma humana, porém sua cabeça ainda era um chacal. Ele
tinha duas espadas com a ponta em forma da meia-lua nas mãos chamada khopesh; tais espadas tipicamente usadas
no antigo Egito. Ele defendia com habilidade os ataques das espadas de fogo dos
anjos, mas estava em clara desvantagem.
Ele defendeu mais alguns golpes, e deu um salto
comprido para trás, ficando a menos de dois metros de distância deles. Ele
esticou um dos braços na direção deles e disse algo que Elena não entendeu; do
seu antebraço nasceram braços e mãos feitos apenas de ossos que atacaram os
anjos. Isso foi nojento, foi o que
ela pensou.
Com facilidade, os anjos destruíram os braços extras e
aumentaram a velocidade dos ataques. Se Elena não fizesse algo, com certeza ele
seria jogado de volta no Duat. Aí tudo estaria acabado. Perderia sua esperança
de ter Leonard de volta.
O que seu pai lhe dissera anos atrás? Pense em raios, a voz da lembrança veio
a sua mente, pense em raios em suas mãos.
E ela pensou, e a queimação surgiu subitamente.
Estava pelo corpo todo, dentro e fora sua pele. O que
estava acontecendo? Não foi assim na última vez. Ela gritou de dor. Os quatro
pararam a luta, estupefatos com a visão da garota. Sua íris estava lilás, e por
todo seu corpo havia tatuagens de palavras em todas as línguas, que serviam
para fazer magia, menos a Língua de Prata.
Isso é impossível!, Nathanael
pensou ao mesmo tempo que Elena disse:
- Bán kính.
Os três anjos levaram uma descarga elétrica tão forte
que os levou a inconsciência. Então, Elena desmaiou e caiu na areia.
Anúbis passou a sua forma cem por cento humana, suas
espadas sumiram numa nuvem de fumaça cinzenta, e pegou ela no colo. Andou por várias
horas até sair do deserto e chegar a uma área menos quente. Usando alguns de
seus feitiços característicos, montou um acampamento improvisado.
De onde a garota tiraria tanto poder como aquele? De
alguma forma ele sabia que aquilo havia sido um golpe de sorte do destino, e
que a Morte não tinha nada a ver com aquilo.
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Nathanael acordou e sentou ofegante. O que foi aquilo? Como aquela garota usou
aquele poder? Um Bán Kinh forte o
suficiente para apagar três anjos! Nem mesmo Stephan Van Helsing, o Artista
mais forte que já existiu, tinha um poder como esse! E todas aquelas marcas?
Palavras de todas as línguas que podem ser usadas para fazer magia. Era como os
braços de Sephiroth, mas em um nível muito além do dele. Mas não havia a Língua
de Prata. Por quê? Aquele não era o poder dela, era de outro. Alguém muito mais
antigo, e muito, muito mais poderoso.
Olhou em volta, os outros dois ainda estavam inconscientes.
Levantou-se e tentou acordá-los, em vão. Usou magia para criar um abrigo para
os três. Tinha que esperar que eles acordassem. Conjurou água e comida, e
consumiu-os. Normalmente não precisaria comer, mas o ataque dela deixou-o com o
corpo detonado, comida e água ajudava-o a melhorar consideravelmente.
Poucas horas mais tarde, quando um dos anjos estava
acordado, Gabriel, o arcanjo mensageiro, pousou perto deles. O Heartless pousou ao lado dele. O humano
sem coração usava um sobretudo preto com o capuz escondendo-lhe o rosto,
Nathanael não via, mas sabia que nas costas o coração com desenhos tribais
estava desenhado em branco. Lutara com muitos deles para conhecer o símbolo de
cor.
- Eu vou assumir a missão daqui. - Ele disse. - Vocês
devem voltar ao Paraíso.
- Gabriel e os dois vão voltar, eu vou ficar. -
Nathanael disse.
- Essa é minha missão agora, Caído.
- Eu não sou mais um Caído, Heartless, e agora pertenço as Legiões do Senhor. Sua missão é prender
o deus no Duat. A minha é descobrir de onde o poder da garota veio.
- Do que falas? - Gabriel perguntou.
O ex-Caído contou o que houve. Nathanael não deixou
espaço para discussão; aquela seria sua decisão final.
- Certo. Nós iremos avisar o Conselho. - Gabriel
falou. Em seguida disse umas palavras na Língua de Prata e um portal de volta
ao Paraíso se abriu.
O outro anjo pegou o anjo inconsciente e eles entraram
andando pelo portal.
- Eu trabalho sozinho. - O Heartless disse.
- Claro que sim, afinal, sem sua filha, você é o
último da sua raça. - Nathanael retrucou.
Um terremoto que durou alguns segundos chacoalhou os
dois.
- Acalme-se, Heartless,
eu não sou mais seu inimigo.
- Não fale sobre minha filha.
O Heartless
saltou a mais de dez metros do chão, e, como se o ar fosse sólido, saltou mais
uns cem metros, e então voou para o sul, mas seu voo era diferente do voo de um
anjo ou de um pássaro. Ele dava impulsos no ar, como diversas propulsões o
empurrassem para frente.
Nathanael voou atrás dele com suas imensas asas de
águia.
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Elena abriu os olhos e viu que estava sob uma cabana
improvisada feita de ossos e algo que ela deduziu ser pele. Contudo, não se
assustou; depois do que viu Anúbis fazer contra os anjos sabia que aquela
cabana tinha sido feita por ele.
- Onde estamos? - Perguntou enquanto sentava, fazendo
uma careta de dor.
- Em algum lugar entre o Sudão e o Congo. Aqui, coma
alguma coisa. - Ele entregou um espeto de madeira improvisado com algum animal
assado, ela preferiu não perguntar o que era e simplesmente comeu. Estava
faminta. Ele também lhe entregou uma vasilha com água.
- Ainda estamos muito longe? - Perguntou de boca
cheia.
- Não, na verdade estamos bem perto. O difícil agora é
encontrar a porta.
Elena terminou de comer, e quando se pôs de pé, sentiu
uma pontada de dor fortíssima no coração, para onde levou a mão imediatamente.
Ficou parada por alguns instantes até a dor passar, e então saiu da tenda.
Já estava de noite, e milhares de milhares de estrelas
brilhavam no céu. Ela nunca tinha visto tantas estrelas juntas. Era incrível.
Morara na cidade grande sua vida toda, e, mesmo quando estava no colégio, não
via as estrelas por causa das luzes artificiais.
- Um dos anjos e um homem voador passaram por aqui várias
vezes, mas não puderam nos ver graças a feitiços que fiz para nos esconder. -
Anúbis contou enquanto admiravam as estrelas. - Porém precisamos partir
imediatamente, Novaselik não é alguém que se encontra com facilidade.
Ele mal havia terminado de falar e já estava na forma
de chacal. Ela montou e eles cavalgaram, porém não para o sul e sim para leste.
Algumas horas se passaram quando Anúbis parou de
repete. farejando o ar.
Estamos perto. Disse dentro
da mente dela.
O quão perto? Ela respondeu.
- Mais perto do que imagina criança. - A voz não
estava em sua mente, nem pertencia a Anúbis ou a ela. Olhou em volta, mas não
havia ninguém por perto.
- Quem está ai? - Ela gritou.
De repente, eles começaram a cair sem parar. Ela
fechou os olhos, ia morrer com certeza.
Rápida como veio, a queda parou. Ela sentia que alguém
a segurava nos braços. Abriu os olhos para encontrar os olhos de Anúbis, que
eram negros como a noite e que pareciam ler sua alma. Sentiu seu coração
acelerar, como quando estava sozinha com Leonard. Pela primeira vez ela notara
como Anúbis era atraente, apesar de sua pele cinzenta. Pode sentir como seus
braços eram fortes e definidos, assim como o peito. Resistiu à tentação de
tocá-los. Sentiu o rosto esquentar, sabia que estava vermelha.
Ele colocou-a no chão, eles estavam em uma caverna de
paredes arredondadas, mas que pareciam naturais. De frente a eles havia uma
abertura coberta por um pano velho. Uma porta. Entraram.
- Meu velho amigo, Anúbis, e a aquela que busca a
felicidade.
O velho estava sentado em uma poltrona alta virada
para a porta. Ele estava olhando para eles, mas não os enxergava. Os olhos do
velho eram de um tom cinza esbranquiçado, ele era cego. Muito devagar ele se
levantou; se não estivesse com as costas curvadas pela velhice, ele teria mais
de dois metros. Ela notou que seu rosto era meio pontiagudo, apesar das rugas,
e as orelhas não eram arredondas, e sim num formato de “v” de ponta cabeça.
O homem andou até uma prateleira e pegou um livro,
depois o levou direto para as mãos de Elena. A garota estranhou o gesto. Olhou
o livro, ele não tinha nada escrito em sua capa de couro preta. Pela lateral
viu que o livro tinha páginas velhas e amarelas.
- O que é isso? - Perguntou.
- É o que procuras.
- Como o senhor sabe o que procuro? O senhor realmente
sabe de todas as coisas?
Ele soltou uma risada velha e gostosa, como o avô de
Elena costumava fazer.
- Não, não, criança. Eu não sei de tudo, não sei por
que a Morte me deu essa alcunha.
- Mas como sabe o que procuro?
O velho sentou novamente e olhou para ela, apesar de
ser cego. De alguma forma ele olhava para dentro dela, para o coração. Ela não
sabia explicar como sabia disso, mas sabia que era isso que ele estava fazendo.
Ele era cego para o mundo, mas não era cego para os corações das pessoas.
- Vamos. - Anúbis chamou. - Esse velho louco não vai
dizer mais nada.
- Quando entrei aqui o senhor me chamou de
"aquela que busca a felicidade", por quê? - Perguntou a garota pouco
antes de sair.
- Porque é exatamente isso o que buscas. - Disse o
velho sábio.
- Mas como posso buscar algo que não sei o que é?
- A felicidade não é apenas um. Para cada ser a
felicidade é diferente. Para alguns, é a sua ocupação, o conhecimento, o
nascimento, é ajudar ao próximo, é o sorriso de uma criança, um
agradecimento, o reconhecimento, a admiração. Para outros é mais de uma coisa.
Mas para você, sua felicidade é ele, e para ele, é você. E é isso que vai
uni-los de novo.
Apesar de seu encontro com Aquele que Sabe de
Todas as Coisas ter sido muito curto e poucas palavras terem sido trocadas, o
que ele disse ecoou em seu coração enquanto cavalgava em Anúbis na direção
norte. O livro estava guardado em uma mochila feita bizarramente com a magia de
Anúbis, mas que servia.
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