- Até que enfim te encontramos. - Pessoas atrás deles riram. - E olha só parece que você tem companhia... Seu
pai vai adorar saber disso. - Melody não conseguia mover um músculo, sabia que
seria inútil correr. Sentia-se incapaz de qualquer coisa e ao olhar para Éron
viu que a expressão dele havia mudado, parecia rude e um sorriso começava a
brotar no canto dos lábios. Ele se virou lentamente e soltou a mão de Melody.
- Então meu pai te mandou atrás de mim mais uma vez,
Maurício?
- Você já está fora há quase um mês, não pensou que
ele ia te dar toda essa folga não é? Já está na hora de voltar. - Fez se uma
pausa até que Maurício voltou a falar. - Mas quem é sua companhia? Não vai
apresentá-la para nós?
Melody ouviu Éron dar uma risada irônica e então ele a
segurou pelo braço e a girou com força, fazendo-a ficar de frente para os cinco
homens que estavam ali.
- Ela é só... Um presentinho pro meu pai.
- Que tipo de presente? - O homem mais a frente falou.
Pela voz deveria ser Maurício. Ele era alto e muito forte, a pele era bronzeada
e veias pareciam saltar de seus músculos. O cabelo era raspado e os olhos eram
tão negros quanto à noite, uma cicatriz grossa e vermelha corria desde a nuca
até o lado esquerdo do rosto.
- Não é esse tipo que está pensando. - Éron respondeu severo. - Ela é do Clã do Sul...
Pode ter as informações de que meu pai deseja.
Melody não conseguia manter o foco, sentia que iria
desmaiar a qualquer momento. Se Éron não estivesse apertando tanto seu braço, ela
já teria caído. Não conseguia olhar para ele e muito menos para os homens
diante dela, fixou então o olhar no chão e tentou segurar as lágrimas de
desespero. Ouviu passos se aproximando e sentiu uma mão agarrar-lhe pelo
queixo, era Maurício, ele ergueu o rosto da garota e o virou de um lado para o
outro a analisando.
- Ela não parece perigosa. - Ele disse soltando seu
rosto e voltando com os outros homens. - Mas em todo caso... Felipe amarre as
mãos dela. - Um rapaz com mais ou menos a idade de Éron se aproximou e puxou
uma corda de dentro da mochila.
Ele tinha a pele negra e os cabelos cacheados lhe
caiam sobre os olhos castanhos mel. Olhou feio para Éron e depois se voltou
triste para Melody. Com as mãos tremendo, passou as cordas pelos pulsos da
garota.
- Deixe que eu faço isso. - Éron empurrou o rapaz e
amarrou-a mais rapidamente e mais forte; Melody gemeu quando ele apertou demais
a corda, mas ele não pareceu se importar. - Agora vamos. - Ele disse apontando
para que Melody fosse à frente. Felipe colocou-se ao seu lado.
Ela não sabia o quanto conseguiria seguir, suas pernas
estavam bambas e tropeçava o tempo todo. Sua sorte era Felipe estar ao seu
lado, que sempre a segurava antes que caísse; quando isso acontecia, Éron
pigarrear. Eles foram a caminho da floresta seguindo Maurício e os outros três
homens. Melody começou a ficar zonza e sentiu que estava despencando, sentiu
mãos a segurando e no instante seguinte ela havia apagado. Só acordou quando já
era noite.
- O que aconteceu? - Ela perguntou abrindo os olhos.
Estava em uma espécie de carroça coberta, a sua volta
estavam as tralhas do que parecia ter sido o acampamento daqueles homens.
Felipe estava sentado do outro lado, observando-a. Ela tentou se sentar e ele logo
se prontificou a ajudá-la.
- A senhorita desmaiou logo que entramos na floresta,
por sorte Éron te segurou antes que batesse a cabeça... Eu me distraí por um
segundo. - Ele disse voltando a se sentar no lugar em que estava.
- Como foi que eu cheguei aqui? - Ela perguntou
confusa.
- Éron e eu revezamos te levando nos ombros até o
acampamento... Na verdade mais ele do que eu. - Ele parou por um instante e
voltou a falar. - Ele parecia estar muito preocupado com sua demora de acordar.
- Ele não se preocupa comigo. - Melody respondeu
virando o rosto para o outro lado. Sentiu as lágrimas brotarem em seus olhos e
agradeceu por estar no escuro, assim Felipe não a veria chorar. - Se ele
realmente se preocupasse eu não estaria aqui amarrada e sendo levada para o Clã
do Norte, para fazerem sei lá o que comigo.
- Eu sinto muito por isso, não sei o que deu na cabeça
de Éron. Geralmente ele não é assim. - Felipe parecia triste; Melody percebeu
que os dois deveriam ser amigos.
- Talvez ele tenha enganado a nós dois. - Ela já não
podia esconder o choro, estava com medo e assustada. Queria gritar, queria
fugir, mas a única coisa que conseguia fazer era chorar.
- Acho que ainda temos algumas horas de viagem, você
quer comer alguma coisa?
- Não estou com fome, mas mesmo assim obrigada.
- Eu realmente sinto muito. - Felipe então não disse
mais nada; depois de algum tempo Melody acabou dormindo.
Acordou quando a carroça parava. Assim que ela parou,
Felipe se levantou e a ajudou a andar em meio às tralhas do acampamento. Desceram
da carroça. Eles estavam parados em frente a um casarão feito de granito preto
que brilhava a luz da lua. Era um castelo medieval com uma única torre. Melody
não conseguia ver direito, pois ainda estava muito escuro.
- Você consegue andar?
- Acho que sim. - Ela respondeu em um sussurro. Deu
alguns passos e então ergueu as mãos para tirar o cabelo do rosto, esse
movimento a ver gemer de dor. Não havia percebido que as cordas haviam
praticamente queimado seu pulso. Felipe se apressou para afrouxar os nós.
- O que está fazendo Felipe? - Éron apareceu do nada e
parecia estar furioso, Felipe largou as mãos da garota e olhou desafiador para
ele.
- Eu me nego a me tornar um monstro como você está se
tornando Éron. Se essas cordas ficarem mais um pouco ali a pele dela vai ficar
na carne viva. - Ele seguiu em direção a carroça, Éron o segurou e disse algo
muito baixo, para que Melody não ouvisse. Depois se virou para a garota que
imediatamente olhou para chão. Ele ergueu os pulsos dela e pareceu arfar quando
os viu.
- Como é que isso aconteceu? - Ele ficou quieto por um
instante, mas Melody não disse nada. - Você não está com isso há tanto tempo
para que ficasse desse jeito. - Ele virou um dos pulsos e Melody se contraiu.
Ele passou a mão em seu rosto e o ergueu para que ela pudesse olhá-lo, imediatamente
ela fixou os olhos no casarão. Vendo que não conseguiria o que queria, ele
bufou e a soltou. Começou a afrouxar os nós dos pulsos e com cuidado passou o
dedo em cima de um dos machucados.
- Eu estou pronto Éron, vamos? - Felipe estava de
volta com a mochila de Éron em uma das mãos e a de Melody jogada no ombro.
Eles conduziram-na para dentro do casarão e a levaram
para uma sala onde um homem vestindo um manto azul os esperava. Não havia nada
na sala a não ser o homem, que estava em um degrau do chão, como um minipalco.
Ele tinha os cabelos cinza e curtos, seus olhos eram vítreos e azuis. A pele
parecia feita de papel, uma barba cinza e bem cortada emoldurava todo o rosto.
- Ora, ora, ora... O bom filho a casa torna. - Ele
disse em um tom ríspido. - Você deixou sei pai muito preocupado, mas olhe só. -
Ele pareceu só notar a presença de Melody agora. - Quem é esse ser com você?
- Ela é do Clã do Sul, quem sabe possa responder
algumas coisas ao meu pai. - Éron disse se posicionando um pouco mais a frente,
como se estivesse tentando escondê-la. O homem se aproximou e ignorou a
presença de Éron, o contornou e olhou Melody com certa curiosidade nos olhos.
Quando estava próximo o bastante, ele a ergueu pelo pescoço até que ela
estivesse na ponta dos pés.
- Então você é do sul? - Um sorriso maligno surgiu em
seu rosto. - Deve saber onde é que escondem a criança de Lótus.
- Eu não sei. - Melody respondeu sufocando. - Não
nasce uma criança dessas há dezoito anos, quando houve a guerra dos clãs. Eu só
conheço lendas.
- Você está mentindo. - Ele gritou no rosto dela. - Essa
desavença começou exatamente porque o Clã do Sul escondeu a criança. - Ele
baixou-a um pouco e olhou para Éron. - Muito obrigado por trazê-la para cá
Éron, agora ela vai ficar sob meus cuidados. Estão dispensados. - Ele baixou os
olhos novamente para Melody; ele estava medonho.
- Não Felix, eu vou cuidar dela e Felipe vai me
ajudar. - Houve uma pausa em que Felix fuzilou Éron com os olhos. - Ninguém
mais terá permissão para chegar perto dela. - A fúria cresceu em Felix, ele
jogou Melody no chão e começou a gritar.
- COMO OUSA DESRESPEITAR UMA ORDEM MINHA?
- COMO VOCÊ OUSA GRITAR COMIGO? - Éron respondeu
inflando o peito. - Eu sou o herdeiro do Clã do Norte e você não tem poder
sobre mim. Talvez meu pai possa te escutar, MAS EU NÃO FAÇO A SUA VONTADE
FELIX. - Houve uma pausa e Melody tentou se levantar. Havia batido a cabeça e
estava zonza, assim que conseguiu levantar-se viu uma gota de sangue pingando
no chão.
- Que assim seja, mande Felipe acomodá-la, pois seu
pai quer lhe ver. - Depois disso ele saiu da sala.
Felipe correu para ajudar Melody, ela levou a mão a
cabeça e viu que estava sangrando. Éron estava parado de costas para eles.
- Leve-a para a torre e peça uma bacia com água e
panos para ela poder limpar os machucados. Mais tarde mando a vovó ir cuidar
dela. - Então ele saiu.
Felipe a conduziu por uma escada que subia em espiral
para a torre. Chegando ao final havia uma porta de madeira por onde entraram
para um quarto onde havia apenas uma janela com grades, uma cama antiga e uma
mesinha, do outro lado havia outra porta.
- Você vai ficar aqui... Ali é o banheiro. - Ele
apontou para a outra porta. - Vou trancá-la para buscar algumas coisas para
você, não se preocupe que ninguém vai te incomodar. - Ele deixou a mochila de
Melody ao lado da cama e desamarrou a corda de seus pulsos, então saiu. Algum
tempo depois ele voltou trazendo uma bacia, alguns panos e um espelho.
Melody colocou a bacia em cima da mesinha e o espelho
ao lado. Sentou-se e começou a limpar os machucados dos braços. Éron estava
certo, os machucados tinham a aparência de quem fica dias com os pulsos amarrados.
Puxou o espelho e viu o sangue ainda escorrendo do corte na sobrancelha. Não
era um corte muito grande, mas sangrava muito. Ela ergueu um pano para limpar o
local e ouviu a porta ranger, quando olhou para cima viu Éron que entrando. Ele
estava com um olhar cansado e triste.
- O que você está fazendo aqui? - A raiva começava a
brotar nela.
- Eu sou o seu vigia esqueceu? Posso entrar aqui
quando bem entender. - Ele abriu um sorriso perverso para ela e lhe mostrou uma
chave. Melody deixou o pano que segurava cair e começou a entrar em pânico.
Como pudera ser tão burra a ponto de acreditar nele?
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