- O que você está fazendo aqui? - Vociferou; a raiva brotando nela.
- Eu sou o seu vigia esqueceu? Posso entrar aqui quando bem entender. - Ele abriu um sorriso perverso para ela, Melody deixou o pano que segurava cair e começou a entrar em pânico. Como pudera ser tão burra a ponto de acreditar nele? - E eu decidi entrar agora. - Ele se aproximou ainda com aquele sorriso no rosto e mais uma vez Melody ficou sem reação. Como é que posso fugir de algo se todas as vezes que fico nervosa eu travo?, ela pensou. Trincou os dentes e observou tudo ao redor. - Não adianta tentar Melody, não tem por onde escapar e mesmo se tentasse eu iria te alcançar. - Ele disse se aproximando ainda mais. - Eu te encontraria em qualquer lugar.
- Eu não vou tentar fugir. - Melody disse relutante.
- É bom saber disso. - Éron andou pelo quarto por algum tempo e então parou pensativo. - Minha avó quer vê-la, mas antes eu preciso dar um jeito em você. - Ele voltou a andar e se aproximou de Melody que ainda estava travada sentada na cadeira, ele passou os dedos pelo rosto da garota e o virou de lado. - Isso não está nada bom. - Murmurou e devagar passou a mão para o cotovelo dela, fazendo-a se levantar. Meu Deus, o que eu faço agora?, Melody pensou, ela apertou ainda mais os dentes e segurou as lágrimas que queriam descer; estava desesperada, mas não queria desmoronar, precisava manter-se lúcida para qualquer coisa.
Éron puxou-a e a sentou na cama, depois se virou e buscou o pano que ela deixará cair, ele ergueu seu rosto com as pontas dos dedos mais uma vez e então passou a limpar seu machucado. Aquilo estava deixando Melody extremamente confusa, como ele poderia estar cuidando dela senso que ele mesmo a entregara para o Clã do Norte? Se a culpa era dele por estar machucada?
- Agora sim, está bem melhor. - Ele disse; e segurou seu rosto por mais um tempo. Melody desviou os olhos, ela lutava contra as lágrimas que a estavam queimando por dentro. - Melody olhe para mim. - Disse em um tom que pareceu uma ordem, relutante ela o encarou. Seus olhos estavam tristes, mas havia algo em seu rosto que a perturbava, ele parecia agressivo e decidido. - Eu sei que está com raiva, mas eu te peço: por favor que confie em mim.
- Como posso confiar em você, se foi assim que vim parar aqui? - Ela disse entre dentes.
- Eu vou explicar tudo, mas não neste momento. - Ele colocou-se em pé e bufou, procurou algo em seus bolsos e tirou um curativo; depois de colocá-lo, ele voltou a falar: - Agora vamos, Nana não gosta de esperar. - Melody não se levantou. - Você pode ficar com raiva de mim, pode me odiar... Mas por favor vamos ou daqui a pouco é ela quem vai entrar por aquela porta.
Relutante, ela se levantou e o seguiu. Felipe os esperava do lado de fora e os acompanhou pelas escadas. Quando chegaram ao final, Éron se virou para ela e tirou uma venda dos bolsos.
- E você ainda quer que eu confie em você. - Ela retrucou.
Melody foi guiada pelos ombros. Eles andaram pelo que parecia um longo corredor cheio de curvas.
Ela sentiu uma brisa e então eles pararam. Tiraram-lhe a venda para ver que estava em uma espécie de jardim de inverno imenso que ficava em meio as paredes do casarão, mas não havia telhado e assim dava para ver a lua e as estrelas. O chão era coberto por uma grama bem aparada e trepadeiras subiam pelas paredes; havia rosas em toda volta do jardim; bem no centro havia uma fogueira que lançava labaredas e fumaça para o céu. Ao lado da fogueira, uma senhorinha muito miúda e vestida de branco dançava ao mesmo tempo em que lançava algo no fogo; seus cabelos grisalhos estavam presos em uma trança muito longa que lhe caia pelas costas. Ao se aproximar, Melody pôde ver seus olhos muito negros. Nana fez sinal para que Melody se aproximasse; assim que o fez, a senhoria segurou sua mão e a conduziu ao redor da fogueira.
- Eu sinto muito pela sua situação, querida. Saiba que sempre fui contra essa rixa boba e que nunca a quis como prisioneira. - Ela lançou um olhar duro ao neto. - Espero que pelo menos a tratem bem... Sabe meu filho não me escuta, mas se eu souber que a trataram mal... Bem, vou ter uma conversinha com ele. - Nana lançou um sorriso a Melody e sinalizou para que ela se sentasse no chão. - Espero que goste de histórias, achei que você iria gostar de se distrair um pouco. Hoje é noite de contos.
Dizendo isso, ela voltou a atenção para a fogueira. A atitude de Nana e o modo como tratou Melody, a deixou muito confusa, mas ainda assim ela sentou-se no chão com Felipe de um lado e Éron de outro. Decidiu que não iria fazer perguntas e esperaria as “explicações” de Éron, ela estava presa ali e, mesmo que tentasse fugir, para onde iria? Não sabia como voltar ao seu Clã. Não tinha outra a escolha, a não ser esperar.
Aos poucos algumas pessoas também se aproximaram e se acomodaram na grama. Depois de algum tempo Nana se aproximou da fogueira e pareceu entrar em transe.
- Ela insistiu que você participasse. - Éron cochichou para Melody, sem tirar os olhos da avó. Melody se acomodou e abraçou os joelhos, olhando para as chamas enquanto Nana começava a história.
- Desde o princípio do Vale, a Magia sempre esteve presente.Acreditasse que ele nasceu de uma pequena lagoa, na qual uma única flor de Lótus flutuava; tal flor foi um dia a fonte da Magia, por isso foi lhe dado o nome Vale de Lótus. Contudo, um dia uma peste terrível caiu sobre o Vale, matando não apenas pessoas, mas os animais, a vegetação e logo ela caiu sobre o lago, fazendo adoecer a flor que ali estava. A Magia do Vale começou a se esgotar; tudo assumiu um tom de marrom e cinza. Como uma última prece, as anciãs dos dois clãs se uniram, foram até a lagoa e entoaram um cântico para que o Vale se fortalecesse. - Nana começou a cantar algo que Melody não entendia, mas era uma canção linda e melancólica. Enquanto cantava, ela dançava envolta da fogueira e lançava um pó nas chamas, fazendo com que mudasse de cor. Melody se deixou encantar pelas cores e fechou os olhos para escutar, logo Nana recomeçara a contar a história. - Naquela mesma noite uma grande tempestade caiu sobre o Vale. Durante a chuva, uma criança nasceu. Era uma linda menina, nascida da união dos filhos dos líderes dos Clãs. No momento em que ela chorou, um clarão iluminou todo o Vale e a chuva parou. - Nana fez uma pausa e logo voltou a falar. - Naquele mesmo instante, a flor de Lótus afundou no lago e um desenho dourado no formato da flor brilhou no pulso da garotinha. A peste foi embora naquela noite e a Magia foi renovada. Assim nasceu assim a lenda da “Criança de Lótus”; uma criança nascida com todos os dons e talentos que o Vale nos oferece. A criança cresceu, tornou-se velha e morreu; e neste momento, outra criança nasceu com marca de lótus; e assim tem sido desde a primeira. - Nana lançou pó novamente na fogueira e voltou a cantar, por mais que Melody já tenha ouvido aquela história mil vezes, ninguém nunca contara com tanto amor quanto Nana. Ela ficou tão envolta na história que havia se esquecido de onde estava e de sua situação. - A criança sempre nasce para renovar a Magia de todo o Vale...
- Mas há dezoito anos o do Clã do Sul a esconde e por isso o Vale tem estado cinza. - Melody se assustou com a voz que entrou em meio a história.
- O que você faz aqui Felix? - Nana olhava para uma silhueta atrás de Melody; e parecia furiosa.
- Pensei que todos fossem convidados para as famosas histórias de Nana. - Ironizou. - Estou apenas acrescentando fatos recentes a sua linda história.
-Você não é bem vindo aqui... Meu filho pode até escutá-lo, mas eu não tolero que me interrompam. - Melody nunca imaginou ver uma senhora tão irritada; Nana parecia que a qualquer momento pularia no pescoço de Felix.
- Me desculpe por isso Nana, peço mil perdões. - A voz dele tinha um tom de deboche que fez Melody enjoar. - Por que não continua a história? Acho que já estava no final... E olha só, por que é que não perguntamos a sua convidada onde é que escondem a criança? - Melody ouviu-o aproximar-se, mas se recusou a virar. Sabia que ele estava muito perto, pois podia ouvir sua respiração; subitamente, ele a agarrou pelos cabelos fazendo-a se contorcer e levantar. - Por que não nos conta, Melody? Nos conte o que o seu povo fez com a criança.
- Largue-a Felix. - Éron estava em pé em frente a Melody e encarando-o.
- Desde quando prisioneiras podem andar por aí como qualquer pessoa do Clã? E ainda participar de uma noite de contos? - Ele disse rindo e puxando ainda mais os cabelos de Melody, ela grunhiu e tentou escapar. - Acho que ela ficará melhor aos meus cuidados.
- Eu já mandei soltá-la Felix. Quem vai cuidar dela sou EU. Você está proibido de tocar mais um dedo nela. - Ele apertou ainda mais a mão nos cabelos da garota e retrucou.
- Vocês estão sendo muito moles com essa prisioneira...
- Enquanto eu ainda estiver aqui, ninguém será maltratado. - Nana falou em um tom muito severo que fez Felix se afastar, mas logo o sorriso de deboche voltou ao seu rosto.
- Acho que vocês esqueceram que eu sou o conselheiro pessoal de André, ou seja, posso tomar decisões por aqui. EU decidirei o que fazer com essa garota de agora em diante. - Felix a segurou em frente ao corpo enquanto Melody tentava se soltar, se debatendo e o chutando. Ele a agarrou pelo braço com força fazendo a gemer de dor. - Agora queridinha você vem comigo.
- Largue-a agora Felix. - Éron parecia prestes a explodir e Felipe estava ao lado dele tão nervoso quanto.
- Você não me dá ordens pirralho.
- Mas eu dou. - Uma voz grave veio de trás deles; Éron paralisou; Melody sentiu o aperto de Felix afrouxando. - Largue-a Felix. Meu filho já me falou que ela ficará sob seus cuidados e Felipe irá ajudá-lo. - Felix a empurrou em direção a Éron que a segurou.
- Pai. - Éron parecia encantado com o fato do pai estar ali.
- O que foi filho? Parece que nunca me viu. - Melody se virou e então pode vê-lo.
André era muito parecido com o filho, exceto pelos olhos que eram castanhos e não verdes, mas poderia se passar por um Éron mais velho com alguns cabelos grisalhos e um cavanhaque bem feito. Ele parecia abatido, mas sorria para o filho.
- Eu já vi, mas o senhor não sai de seu quarto a seis anos. - Uma sombra passou pelo rosto de André e Melody pode ver o sofrimento através de seus olhos. Seria por isso que Éron sempre fugia do assunto quando ela perguntava sobre seus pais? O que acontecerá para ele se trancar por tanto tempo? E onde estaria a mãe de Éron?
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