- Pai. - Éron parecia encantado com o fato do pai
estar ali.
- O que foi Éron? Parece que nunca me viu.
- É que o senhor não sai de seu quarto há seis anos. -
Uma sombra passou pelo rosto de André e Melody pode ver o sofrimento através de
seus olhos. Seria por isso que Éron sempre fugia do assunto quando ela
perguntava sobre seus pais? O que acontecerá para ele se trancar por tanto
tempo? E onde estaria a mãe de Éron? Antes que ele falasse algo, Nana correu
até o filho e o abraçou, ela parecia ainda menor ao lado dele.
- Estou muito feliz em vê-lo aqui meu filho. - Ela
disse sorrindo e o puxando para perto da fogueira. - Venha sentar-se, estamos
contando histórias.
Quando ele se sentou, Felix, que ainda estava parado
no mesmo local, saiu xingando baixinho. Éron tocou o braço de Melody e indicou
para que ela senta-se novamente.
- Você está bem? Ele te machucou muito?
- Estou bem. - Ela respondeu num sussurro e então
sentou-se; ela não sabia que horas o relógio marcava, mas sabia que já era
tarde.
Nana contou mais histórias e Melody se deixou perder
em meio a elas; havia algo no jeito em que Nana as contava que deixava qualquer
um encantado. Quando as histórias terminaram, Melody estava caindo de sono,
mais uma vez foi vendada e acompanhada por Éron e Felipe ao seu quarto. Ela não
queria dormir com Éron do outro lado da porta, mas estava cansada demais e apagou
assim que caiu na cama. Acordou no momento em que Felipe entrou no quarto.
- Desculpe, não queria acordá-la. - Ele disse erguendo
uma bandeja que estava em mãos. - Mas minha mãe insistiu que eu trouxesse isso
para você. - Ele fez uma careta e se aproximou.
- Tudo bem, não faz mal.
- Nana e ela prepararam para você e também mandaram
isso. - Ele mostrou um vestido pendurado em seu braço.
Melody sentou-se. Felipe colocou a bandeja no colo
dela, deixou o vestido aos pés da cama e depois saiu. Quando estava fechando a
porta, ela agradeceu. Na bandeja havia uma xícara de chocolate quente que enxia
o quarto com um aroma delicioso; havia também um sanduíche quente e uma taça
com iogurte de frutas. Ela não tinha percebido que estava com fome até ver a
comida. Depois do café, resolveu tomar um banho. Conferiu se banheiro poderia
ser trancado, pegou sua bolsa e o vestido que Felipe havia trazido, que era longo
e delicado na cor rosa chá.
Quando saiu do banheiro, Erón estava esperando sentado
em sua cama, ele passava algo por entre os dedos e assoviava.
- Pensei que não ia sair nunca mais. - Ele disse sem
olhá-la.
- Me desculpe vossa realeza, não sabia que estava me
esperando. - Ela bufou e jogou a mochila ao lado da porta, Éron apenas riu.
- Adoro seu sarcasmo. - Ele levantou e foi até ela. -
A propósito, você ficou linda com esse vestido, nem parece a mesma garota. -
Melody cruzou os braços e o encarou.
- O que você quer? - A expressão dele mudou, ele olhou
para baixo e depois respondeu em um sussurro.
- Meu pai quer te ver. - Ele suspirou. - Acho melhor
irmos logo, ele já deve estar esperando. - Melody congelou, Éron pareceu
entender o que ela estava pensando. - Felix não vai estar lá e eu vou ficar por
perto. - Ele se virou e foi em direção a porta, mas tornou a olhar para Melody
antes e tocar a maçaneta. - Meu pai não é um homem mal. Ele só não escolheu a
pessoa certa para confiar.
Ele abriu a porta e esperou que ela saísse a frente.
Felipe esperava com a venda na mão. Taparam seus olhos quando chegaram ao fim
da escada. Ao tirar um tempo depois, ela se encontrava do lado de trás do
casarão em outro jardim muito florido. Ela podia ver a torre que lhe servia de
quarto dali; havia um caminho de pedras brancas que ziguezagueava em meio as
flores. No centro do jardim havia um grande pinheiro, André estava sentado em
um banco branco em frente a ele.
- Pai. - André parecia meditar; os olhos estavam
fechados, como se estivesse absorvendo os raios de sol. Eles se aproximaram e
pararam ao lado do banco. - Pai, Melody já está aqui. - Ele abriu os olhos para
olhar a visitante.
- Ah, olá Melody. Gostaria muito de conversar com
você... Sente-se, sente-se. - Melody olhou para Éron que a encorajou, ela
sentou-se na pontinha do banco.
- Vou estar aqui perto. - Éron sussurrou para que o
pai não ouvisse e se retirou.
- Eu sei que está assustada com tudo isso, apesar da
situação não quero que a tratem mal e peço perdão por meu conselheiro, acho que
ele... Se exaltou um pouco. - Ele olhou para ela e então voltou a falar. -
Melody você sabe por que a trouxeram aqui?
- Algo sobre a criança de lótus...
- Há 18 anos, quando minha tia morreu, nasceu no seu Clã
aquela que seria a próxima criança de lótus. Contudo, os membros do seu Clã
esconderam-na de nós. Melody, não quero lhe fazer mal, mas sem a criança, a
magia do Vale não se regenera. Se o Clã do Sul continuar mantendo-a escondida, a
nossa magia morrerá com ela.
- Mas eu já disse que não sei onde ela está. Não se houve falar nela há 18 anos... Eu não posso ajudar. - André
baixou a cabeça.
- Entendo... Sabe, eles também me tiraram algo muito
importante.
- O que?
- Minha esposa foi embora por não aceitar essa
desavença. Ela não aceitava que os do Sul haviam escondido a criança, mas
Felix afirma que vocês querem o poder e controlar o Vale, por isso a escondem. -
Melody não conseguiu segura as lágrimas de raiva; levantou-se do banco e passou
a andar de um lado para o outro.
- O senhor está nos culpando porque sua mulher
resolveu ir embora? Você tem noção de que eu não tenho nada haver com isso? Nós
não queremos poder nenhum, só queremos que isso acabe logo.
- Melody, não tenho nada contra você... Você parecer
ser uma boa garota, mas não posso fingir que nada aconteceu. - Ele ainda estava
calmo, levantou-se, mas Éron já estava ao lado de Melody.
- Você está bem? - Ela já não aguentava mais vê-los
fingindo serem bonzinhos com ela.
- Por que é que isso importa? Se eu estou bem ou
não... Se não fosse por você eu não estaria aqui. - Éron segurou-a pelos ombros
tentado fazê-la parar de andar. - Maldita hora em que você cruzou o meu
caminho. - Ela gritou e desabou no chão, chorando.
- Acho melhor levá-la para dentro, filho. Ela está
muito nervosa. - Melody sentiu uma mão a puxando para cima. - Eu sinto muito,
não queria deixá-la assim. - Eles a acompanharam até onde Felipe estava, ele
estendeu a venda, mas André negou. - Ela não precisa mais disso. - Eles
seguiram em silêncio para a torre, aos poucos Melody se acalmou, quando
chegaram a porta do quarto André se virou para ela. - Eu sinto muito mesmo; não
tinha a intenção de deixá-la assim. - Ele baixou os olhos e depois se virou
para o filho. - Vamos Éron. Decidi que irei com Felix para o continente, você
pode me ajudar a arrumar minhas coisas? - Os olhos de Éron pareceram brilhar e
ele concordou na hora; eles então se viraram e desceram as escadas, apenas ela
e Felipe ficaram. Melody entrou no quarto e sentou-se perto da janela, ficou
ali o resto da manhã. Então, a porta se abriu e Nana entrou.
- Olá, querida. - Ela disse sorridente. - Pensei que
gostaria de conversar um pouco, acho que ficar trancada aqui não faz bem para a
cabeça. - Ela se sentou na cama e chamou Melody para sentar-se junto. - Éron me
pediu para vir falar com você, ele achou que você não o escutaria e eu acho que
se eu estivesse na sua posição, não escutaria também.
- O que ele quer?
- Ele queria que eu te explicasse por que te trouxe
aqui. - Ela segurou a mão de Melody. - Peço que me escute primeiro querida e se
quiser depois pode xingá-lo a vontade. - Nana riu e então voltou a ficar séria.
- Sei que pensa que ele te trouxe para te entregar a André, mas na verdade não
foi por isso. Quando ele te conheceu, ele sentiu e soube que você poderia
ajudá-lo; achou que se você visse o que acontece por aqui poderia aceitar mais
fácil.
- O que ele quer que eu faça Nana?
- Ele acredita que salvando o Vale e acabando com a rixa...
Bem, ele acha que sua mãe voltará e acha que você pode ajudá-lo.
- André comentou algo sobre ela ter ido embora por não
aceitar isso. Mas o que aconteceu realmente? O que eu tenho haver com isso?
- Vou deixar que o Éron te conte essa história e te
explique outras coisas. Sabe Melody, nós anciãs sempre fomos preparadas para o
dia em que a magia do Vale se esgotasse, eu temo que esse dia esteja muito mais
próximo. Por isso que eu vou ensinar tudo que eu sei a
você e a Éron; eu vejo em vocês uma esperança que não tenho há anos. Quero ver
meu filho feliz novamente; para isso precisamos desfazer a rixa e
descobrir seu real motivo. - Ela segurava um pequeno livro de folhas muito
amareladas. - Esse livro tem sido passado de geração em geração e nós, anciãs,
recebemos as ordens de entregá-lo em épocas de dificuldade para alguém a quem
julgamos digno. Entretanto, ele apenas se revelará para a criança de Lótus.
Vocês também precisam encontrar o Grande Carvalho da Sabedoria, em que todos os
segredos do Vale estão guardados; também precisam chegar ao Lago onde a flor de
lótus nasceu, mas sem o conhecimento desse livro, não obterão sucesso e, mesmo
que encontrem os locais, não saberão o que fazer quando chegarem lá.
- E sem a criança nada disso será possível não é? -
Melody perguntou ainda processando o que Nana falara.
- Não, querida. É essencial que ela esteja com vocês. -
Ela fez uma pausa e olhou pela janela, então voltou a falar. - Não sei se sabe,
mas minha irmã foi a última criança de Lótus e nós éramos muito ligadas;
fiquei ao lado dela até o fim. Não havia criatura mais doce e bondosa que ela,
mas ela também era muito forte e corajosa e lutava pelo que achava ser justo. -
Ela suspirou. - Eu vejo o mesmo brilho que via nela em você Melody, vejo a
beleza e a ternura, vejo a força e a coragem. - Nana segurou as mãos de Melody
com ternura e olhou a menina no fundo dos olhos. - Peço que confie em Éron,
vocês precisarão muito um do outro se quiserem partir nessa jornada. - Ela se
levantou e deu um beijo na testa de Melody e deixou o livro aos pés da cama.
- Nana como a senhora... - Nana não a deixou terminar
a frase.
- Não faça perguntas querida, eu apenas sei... Logo
trarão seu almoço e acho que Éron passará aqui mais tarde para conversar com
você, temo que deveremos tirá-la daqui enquanto meu filho estiver viajando. Ele
não sai daquele quarto a tanto tempo que sinto uma dor por traí-lo
assim, mas é necessário.
Dizendo isso ela saiu do quarto. Alguns minutos
depois, Felipe lhe trouxe o almoço. Durante toda a tarde andou pelo quarto e
sentou-se a janela; tinha coisas demais para pensar e ao mesmo tempo, esperava
que Éron entrasse a qualquer momento, mas isso não aconteceu. O dia escureceu e
logo o jantar lhe foi servido; estava quase indo dormir quando ouviu uma batida
na porta.
- Pode entrar. - Ela gritou receosa; Éron entrou um
tanto relutante.
- Oi. - Ele disse entrando no quarto, parecia
cuidadoso. - Vovó disse que conversou com você. Olha Melody, eu sei que você
tem todos os motivos do mundo para me odiar, mas eu precisava te trazer até
aqui. - Ele se aproximou e ficou de frente para ela. - Você viu meu pai, ele
estava trancado naquele quarto há seis anos e sua chegada tirou ele de lá! Sei
que pensa que somos os vilões, mas não somos. Agora sei que vocês também não. -
Ele parecia não saber o que dizer, segurou as mãos de Melody e a olhou nos
olhos. - Eu sei que você também quer o fim de tudo isso tanto quanto eu. -
Melody o interrompeu soltando suas mãos.
- Éron, antes de tudo eu preciso te mostrar uma coisa.
Eu pensei sobre isso a o dia todo, não sabia se poderia confiar, mas eu preciso
ter certeza de que você não vai me trair. A melhor forma de descobrir se você é
confiável é mostrando minha maior fraqueza e meu maior segredo, talvez seja
estupidez, mas... - Ele se virou de costas para ele e puxou o cabelo para a
frente. - Você poderia abrir o meu vestido? - Éron ficou paralisado.
- Melody o que exatamente isso quer dizer?
- Quer dizer que você tem que abrir o meu vestido,
você sabe fazer isso? - Ela virou o rosto e olhou séria para ele. - E nem pense
em se aproveitar. - Ainda com medo ele se aproximou, puxou o zíper que se abriu
até o final da coluna dela, deixando a mostra sua pele macia e rosada; ele
observava a garota, mas logo outra coisa lhe chamou a atenção: um brilho um
pouco a baixo da cintura, ele olhou mais atentamente e viu que ali havia o
desenho de uma flor de Lótus dourada e perfeita, ele arquejou. Melody se virou
ainda segurando os cabelos e o olhou nos olhos. - Eu sou a criança de Lótus,
Éron.
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