O Vale de Lótus - Capítulo 05: O Segredo de Melody

- Pai. - Éron parecia encantado com o fato do pai estar ali.
- O que foi Éron? Parece que nunca me viu.
- É que o senhor não sai de seu quarto há seis anos. - Uma sombra passou pelo rosto de André e Melody pode ver o sofrimento através de seus olhos. Seria por isso que Éron sempre fugia do assunto quando ela perguntava sobre seus pais? O que acontecerá para ele se trancar por tanto tempo? E onde estaria a mãe de Éron? Antes que ele falasse algo, Nana correu até o filho e o abraçou, ela parecia ainda menor ao lado dele.
- Estou muito feliz em vê-lo aqui meu filho. - Ela disse sorrindo e o puxando para perto da fogueira. - Venha sentar-se, estamos contando histórias.

Quando ele se sentou, Felix, que ainda estava parado no mesmo local, saiu xingando baixinho. Éron tocou o braço de Melody e indicou para que ela senta-se novamente.
- Você está bem? Ele te machucou muito?
- Estou bem. - Ela respondeu num sussurro e então sentou-se; ela não sabia que horas o relógio marcava, mas sabia que já era tarde.
Nana contou mais histórias e Melody se deixou perder em meio a elas; havia algo no jeito em que Nana as contava que deixava qualquer um encantado. Quando as histórias terminaram, Melody estava caindo de sono, mais uma vez foi vendada e acompanhada por Éron e Felipe ao seu quarto. Ela não queria dormir com Éron do outro lado da porta, mas estava cansada demais e apagou assim que caiu na cama. Acordou no momento em que Felipe entrou no quarto.
- Desculpe, não queria acordá-la. - Ele disse erguendo uma bandeja que estava em mãos. - Mas minha mãe insistiu que eu trouxesse isso para você. - Ele fez uma careta e se aproximou.
- Tudo bem, não faz mal.
- Nana e ela prepararam para você e também mandaram isso. - Ele mostrou um vestido pendurado em seu braço.
Melody sentou-se. Felipe colocou a bandeja no colo dela, deixou o vestido aos pés da cama e depois saiu. Quando estava fechando a porta, ela agradeceu. Na bandeja havia uma xícara de chocolate quente que enxia o quarto com um aroma delicioso; havia também um sanduíche quente e uma taça com iogurte de frutas. Ela não tinha percebido que estava com fome até ver a comida. Depois do café, resolveu tomar um banho. Conferiu se banheiro poderia ser trancado, pegou sua bolsa e o vestido que Felipe havia trazido, que era longo e delicado na cor rosa chá.

Quando saiu do banheiro, Erón estava esperando sentado em sua cama, ele passava algo por entre os dedos e assoviava.
- Pensei que não ia sair nunca mais. - Ele disse sem olhá-la.
- Me desculpe vossa realeza, não sabia que estava me esperando. - Ela bufou e jogou a mochila ao lado da porta, Éron apenas riu.
- Adoro seu sarcasmo. - Ele levantou e foi até ela. - A propósito, você ficou linda com esse vestido, nem parece a mesma garota. - Melody cruzou os braços e o encarou.
- O que você quer? - A expressão dele mudou, ele olhou para baixo e depois respondeu em um sussurro.
- Meu pai quer te ver. - Ele suspirou. - Acho melhor irmos logo, ele já deve estar esperando. - Melody congelou, Éron pareceu entender o que ela estava pensando. - Felix não vai estar lá e eu vou ficar por perto. - Ele se virou e foi em direção a porta, mas tornou a olhar para Melody antes e tocar a maçaneta. - Meu pai não é um homem mal. Ele só não escolheu a pessoa certa para confiar.
Ele abriu a porta e esperou que ela saísse a frente. Felipe esperava com a venda na mão. Taparam seus olhos quando chegaram ao fim da escada. Ao tirar um tempo depois, ela se encontrava do lado de trás do casarão em outro jardim muito florido. Ela podia ver a torre que lhe servia de quarto dali; havia um caminho de pedras brancas que ziguezagueava em meio as flores. No centro do jardim havia um grande pinheiro, André estava sentado em um banco branco em frente a ele.
- Pai. - André parecia meditar; os olhos estavam fechados, como se estivesse absorvendo os raios de sol. Eles se aproximaram e pararam ao lado do banco. - Pai, Melody já está aqui. - Ele abriu os olhos para olhar a visitante.
- Ah, olá Melody. Gostaria muito de conversar com você... Sente-se, sente-se. - Melody olhou para Éron que a encorajou, ela sentou-se na pontinha do banco.
- Vou estar aqui perto. - Éron sussurrou para que o pai não ouvisse e se retirou.
- Eu sei que está assustada com tudo isso, apesar da situação não quero que a tratem mal e peço perdão por meu conselheiro, acho que ele... Se exaltou um pouco. - Ele olhou para ela e então voltou a falar. - Melody você sabe por que a trouxeram aqui?
- Algo sobre a criança de lótus...
- Há 18 anos, quando minha tia morreu, nasceu no seu Clã aquela que seria a próxima criança de lótus. Contudo, os membros do seu Clã esconderam-na de nós. Melody, não quero lhe fazer mal, mas sem a criança, a magia do Vale não se regenera. Se o Clã do Sul continuar mantendo-a escondida, a nossa magia morrerá com ela.
- Mas eu já disse que não sei onde ela está. Não se houve falar nela há 18 anos... Eu não posso ajudar. - André baixou a cabeça.
- Entendo... Sabe, eles também me tiraram algo muito importante.
- O que?
- Minha esposa foi embora por não aceitar essa desavença. Ela não aceitava que os do Sul haviam escondido a criança, mas Felix afirma que vocês querem o poder e controlar o Vale, por isso a escondem. - Melody não conseguiu segura as lágrimas de raiva; levantou-se do banco e passou a andar de um lado para o outro.
- O senhor está nos culpando porque sua mulher resolveu ir embora? Você tem noção de que eu não tenho nada haver com isso? Nós não queremos poder nenhum, só queremos que isso acabe logo.
- Melody, não tenho nada contra você... Você parecer ser uma boa garota, mas não posso fingir que nada aconteceu. - Ele ainda estava calmo, levantou-se, mas Éron já estava ao lado de Melody.
- Você está bem? - Ela já não aguentava mais vê-los fingindo serem bonzinhos com ela.
- Por que é que isso importa? Se eu estou bem ou não... Se não fosse por você eu não estaria aqui. - Éron segurou-a pelos ombros tentado fazê-la parar de andar. - Maldita hora em que você cruzou o meu caminho. - Ela gritou e desabou no chão, chorando.
- Acho melhor levá-la para dentro, filho. Ela está muito nervosa. - Melody sentiu uma mão a puxando para cima. - Eu sinto muito, não queria deixá-la assim. - Eles a acompanharam até onde Felipe estava, ele estendeu a venda, mas André negou. - Ela não precisa mais disso. - Eles seguiram em silêncio para a torre, aos poucos Melody se acalmou, quando chegaram a porta do quarto André se virou para ela. - Eu sinto muito mesmo; não tinha a intenção de deixá-la assim. - Ele baixou os olhos e depois se virou para o filho. - Vamos Éron. Decidi que irei com Felix para o continente, você pode me ajudar a arrumar minhas coisas? - Os olhos de Éron pareceram brilhar e ele concordou na hora; eles então se viraram e desceram as escadas, apenas ela e Felipe ficaram. Melody entrou no quarto e sentou-se perto da janela, ficou ali o resto da manhã. Então, a porta se abriu e Nana entrou.
- Olá, querida. - Ela disse sorridente. - Pensei que gostaria de conversar um pouco, acho que ficar trancada aqui não faz bem para a cabeça. - Ela se sentou na cama e chamou Melody para sentar-se junto. - Éron me pediu para vir falar com você, ele achou que você não o escutaria e eu acho que se eu estivesse na sua posição, não escutaria também.
- O que ele quer?
- Ele queria que eu te explicasse por que te trouxe aqui. - Ela segurou a mão de Melody. - Peço que me escute primeiro querida e se quiser depois pode xingá-lo a vontade. - Nana riu e então voltou a ficar séria. - Sei que pensa que ele te trouxe para te entregar a André, mas na verdade não foi por isso. Quando ele te conheceu, ele sentiu e soube que você poderia ajudá-lo; achou que se você visse o que acontece por aqui poderia aceitar mais fácil.
- O que ele quer que eu faça Nana?
- Ele acredita que salvando o Vale e acabando com a rixa... Bem, ele acha que sua mãe voltará e acha que você pode ajudá-lo.
- André comentou algo sobre ela ter ido embora por não aceitar isso. Mas o que aconteceu realmente? O que eu tenho haver com isso?
- Vou deixar que o Éron te conte essa história e te explique outras coisas. Sabe Melody, nós anciãs sempre fomos preparadas para o dia em que a magia do Vale se esgotasse, eu temo que esse dia esteja muito mais próximo. Por isso que eu vou ensinar tudo que eu sei a você e a Éron; eu vejo em vocês uma esperança que não tenho há anos. Quero ver meu filho feliz novamente; para isso precisamos desfazer a rixa e descobrir seu real motivo. - Ela segurava um pequeno livro de folhas muito amareladas. - Esse livro tem sido passado de geração em geração e nós, anciãs, recebemos as ordens de entregá-lo em épocas de dificuldade para alguém a quem julgamos digno. Entretanto, ele apenas se revelará para a criança de Lótus. Vocês também precisam encontrar o Grande Carvalho da Sabedoria, em que todos os segredos do Vale estão guardados; também precisam chegar ao Lago onde a flor de lótus nasceu, mas sem o conhecimento desse livro, não obterão sucesso e, mesmo que encontrem os locais, não saberão o que fazer quando chegarem lá.
- E sem a criança nada disso será possível não é? - Melody perguntou ainda processando o que Nana falara.
- Não, querida. É essencial que ela esteja com vocês. - Ela fez uma pausa e olhou pela janela, então voltou a falar. - Não sei se sabe, mas minha irmã foi a última criança de Lótus e nós éramos muito ligadas; fiquei ao lado dela até o fim. Não havia criatura mais doce e bondosa que ela, mas ela também era muito forte e corajosa e lutava pelo que achava ser justo. - Ela suspirou. - Eu vejo o mesmo brilho que via nela em você Melody, vejo a beleza e a ternura, vejo a força e a coragem. - Nana segurou as mãos de Melody com ternura e olhou a menina no fundo dos olhos. - Peço que confie em Éron, vocês precisarão muito um do outro se quiserem partir nessa jornada. - Ela se levantou e deu um beijo na testa de Melody e deixou o livro aos pés da cama.
- Nana como a senhora... - Nana não a deixou terminar a frase.
- Não faça perguntas querida, eu apenas sei... Logo trarão seu almoço e acho que Éron passará aqui mais tarde para conversar com você, temo que deveremos tirá-la daqui enquanto meu filho estiver viajando. Ele não sai daquele quarto a tanto tempo que sinto uma dor por traí-lo assim, mas é necessário.
Dizendo isso ela saiu do quarto. Alguns minutos depois, Felipe lhe trouxe o almoço. Durante toda a tarde andou pelo quarto e sentou-se a janela; tinha coisas demais para pensar e ao mesmo tempo, esperava que Éron entrasse a qualquer momento, mas isso não aconteceu. O dia escureceu e logo o jantar lhe foi servido; estava quase indo dormir quando ouviu uma batida na porta.
- Pode entrar. - Ela gritou receosa; Éron entrou um tanto relutante.
- Oi. - Ele disse entrando no quarto, parecia cuidadoso. - Vovó disse que conversou com você. Olha Melody, eu sei que você tem todos os motivos do mundo para me odiar, mas eu precisava te trazer até aqui. - Ele se aproximou e ficou de frente para ela. - Você viu meu pai, ele estava trancado naquele quarto há seis anos e sua chegada tirou ele de lá! Sei que pensa que somos os vilões, mas não somos. Agora sei que vocês também não. - Ele parecia não saber o que dizer, segurou as mãos de Melody e a olhou nos olhos. - Eu sei que você também quer o fim de tudo isso tanto quanto eu. - Melody o interrompeu soltando suas mãos.
- Éron, antes de tudo eu preciso te mostrar uma coisa. Eu pensei sobre isso a o dia todo, não sabia se poderia confiar, mas eu preciso ter certeza de que você não vai me trair. A melhor forma de descobrir se você é confiável é mostrando minha maior fraqueza e meu maior segredo, talvez seja estupidez, mas... - Ele se virou de costas para ele e puxou o cabelo para a frente. - Você poderia abrir o meu vestido? - Éron ficou paralisado.
- Melody o que exatamente isso quer dizer?

- Quer dizer que você tem que abrir o meu vestido, você sabe fazer isso? - Ela virou o rosto e olhou séria para ele. - E nem pense em se aproveitar. - Ainda com medo ele se aproximou, puxou o zíper que se abriu até o final da coluna dela, deixando a mostra sua pele macia e rosada; ele observava a garota, mas logo outra coisa lhe chamou a atenção: um brilho um pouco a baixo da cintura, ele olhou mais atentamente e viu que ali havia o desenho de uma flor de Lótus dourada e perfeita, ele arquejou. Melody se virou ainda segurando os cabelos e o olhou nos olhos. - Eu sou a criança de Lótus, Éron.

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