Levamos
um dia e meio para chegar a Paris. Uma viagem como aquela na Terra não levaria
mais do que dez horas, parando para descansar algumas vezes, porém aqui no meio
do terreno inimigo, até que foi rápido.
Nós
seguimos a costa da Itália até a cidade de Grosseto, onde abastecemos a moto,
comemos e passamos a noite. A cidade estava completamente deserta,
aparentemente todos os Filhos seguiram para a tomada de Roma. Não havia nenhuma
alma não possuída também. Encontramos uma casa nos limites norte da cidade, um
pouco mais isolada do resto, assim poderíamos com facilidade detectar algum
intruso e se fugir fosse necessário, estaríamos próximos da saída que
deveríamos tomar.
A
noite foi tranquila. Tomamos banho quente e improvisamos uma refeição com o que
encontramos na casa que nos hospedávamos. Nenhum Filho ou anjo passou por nós,
então conseguimos dormir a noite toda sob a vigilância de Thais; Týr e eu
estávamos completamente exaustos devido à batalha em Roma.
Acordamos
por volta das onze horas, Thais descansou da noite em claro enquanto eu e Týr
preparávamos o almoço. Partimos de lá por volta do meio dia e meia.
Cruzamos
a fronteira com a França quase escurecendo. Foi necessário mudar a rota
diversas vezes devido a patrulhas de anjos e Filhos que encontramos no caminho.
Era realmente uma guerra. Algumas vezes eles lutavam. Pensei em ajudar aos
anjos, porém Týr me trouxe a razão: eu não podia me meter mais naquela batalha
mais do que já estava envolvido, pois ambos os lados eram inimigos. Pelo menos
era o que aparentava.
Seguimos
viagem um pouco à noite, enquanto deu. Porém, quanto mais nos aproximávamos do
centro da França, mais a quantidade de Filhos aumentava. Evitamos cidades
grandes como Monaco e Lyon, sabendo que lá estaria uma maior quantidade deles e
de anjos. Estávamos nos arredores de Yonne quando decidimos montar acampamento.
Thais
tirou a barraca da mochila encantada que Týr criou em Grosseto, onde poderíamos
colocar diversos objetos de qualquer tamanho sem alterar o volume externo.
Montamos a barraca e acampamos. Eu faria o primeiro turno de vigia, pois Thais
estava cansada e Týr ainda não se recuperara totalmente da nossa luta.
Aquela
noite não foi tão tranquila.
O
dia estava amanhecendo quando avistei os Filhos - estava novamente no meu turno
de vigia. Eles estavam a poucos metros de distancia, seria impossível não terem
nos notado. Eu tentei acordar Thais sem fazer muito barulho. Tapei sua boca
para que não produzisse algum som que pudesse chamar a atenção deles; ela se assustou
no começo, mas logo me reconheceu e percebeu a situação. Colocamos o máximo de
coisas que conseguimos na mochila, deixando apenas a barraca para trás; o tempo
era curto para desarmá-la.
Nós
corremos pelo pequeno bosque - que também poderia ser uma praça - até chegar a
uma estrada onde deixamos a moto “camuflada” com galhos e folhas. A moto estava
praticamente sem combustível. Andaria dois ou três quilômetros. Estávamos
condenados, ainda mais pela súbita mudança de clima que nos atingiu.
Vindo
do norte e do nada, um vento gélido soprou de repente. No mesmo instante todo
meu corpo tremeu, assim como Thais. Ela soltou um espirro.
-
Droga. - Ela disse.
-
O que foi? - Perguntei.
-
O frio repentino. Sempre fico gripada quando isso acontece.
-
E as pessoas ficam doentes no Paraíso?
-
Normalmente, não.
-
São os Filhos. - Týr interveio. - O poder deles é tão grande que está afetando
diretamente ao Paraíso. O clima aqui é sempre bom, ou seja, não muito frio ou
calor. Esse tipo de vento que bateu agora normalmente não ocorre aqui. Assim
como as doenças. O poder deles está afetando as almas aqui.
Então
algo me ocorreu. Se Thais nunca ficou doente no Paraíso, e ela não tem como
lembrar-se de sua antiga vida, como ela sabia que um vento como aquele iria
deixá-la doente?
Eu
repeti a pergunta para ela.
Thais
não disse uma palavra, pois não sabia o que responder. Ela simplesmente sabia
que ela era assim.
-
Thais. - Perguntei olhando-a nos olhos. - Você se lembra de sua vida na Terra?
Para
minha surpresa, ela contou-me uma história. Ela não soube afirmar com certeza
se aquela era uma visão de sua morte ou não. Outra coisa me chamou a atenção:
ela teve essa visão no mesmo dia que entrei no Paraíso. Eu a afetei do mesmo jeito que os Filhos afetaram o Paraíso.
Quando
ela terminou de contar a história, as bochechas deles estavam muito vermelhas e
seus olhos lacrimejavam. De repente, ela caiu. Consegui segurar seu corpo antes
que batesse no chão, por pouco. Perguntei a Týr se ela podia curá-la de
imediato, mas a fada me respondeu que ela não tinha um corpo propriamente dito,
e que qualquer doença que estivesse a afetá-la era uma doença da alma, em
outras palavras, Týr não podia curá-la.
Usando
magia, nós equilibramos a desacordada na moto e guiamo-la para Paris. Talvez
aquele não fosse o melhor plano, mas não tínhamos escolha, lá com certeza
encontraríamos um anjo que soubesse como curá-la. Aqui, neste lugar
semi-habitado, seria complicado encontrar um ser alado.
Esse
foi o pior erro que cometi desde que cheguei ao Paraíso.
Encontrei
uma casa cujo aquecedor funcionava - não sei dizer por que no Paraíso há
aquecedores - nos subúrbios de Paris, próximo e longe o bastante do centro.
Nesse ponto já havia nevado alguns centímetros. Eu só não passei mais frio por
que a febre de Thais me esquentou no caminho. Também encontrei um pequeno e
abandonado posto de combustível na estrada. Entrei na casa carregando Thais e
fui direto à sala de máquinas, onde liguei o aquecedor elétrico. Týr usou magia
para nos esconder dos Filhos. Cheguei num quarto onde havia uma cama de casal king size com tantos travesseiros que me
irritou tirá-los de cima da cama. Deitei Thais. Eu não fazia a mínima ideia de
como tratá-la.
Týr
disse para deixá-la com roupas leves - o que ela já estava usando. Encontrei
toalhas de algodão no banheiro, molhei com água fria e coloquei sobre sua
testa. Eu não sabia o que fazer. Aquilo não iria adiantar. Eu não tinha outra
escolha se não deixá-la sozinha e procurar por um anjo na cidade. Faltavam
cerca de duas horas para o meio dia. Era o tempo que eu tinha para voltar com
ajuda. Depois tinha que voltar para casa para alimentá-la.
Encontrei
alguns casacos de pele num dos quartos da casa - que eram três no total.
Vesti-os e sai. Týr usou uma magia poderosa para esconder a casa, o que gastou
boa parte de sua energia. Eu decidi também não ir de moto, pois ela fazia muito
barulho e chamaria atenção. Encontrei uma scooter
que estava com a chave na ignição. O motor mal fez barulho ao ser ligado. Perfeito. Fui em direção a Paris, a
cidade do amor.
O
que eu não sabia era que aquela casa já tinha um dono.
E
que Paris era a cidade mais infestada de Filhos do Abismo do mundo.
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