O Vale de Lótus - Capítulo 06: A Fuga

- Você poderia abrir o meu vestido? - Éron ficou paralisado.
- Melody o que exatamente isso quer dizer?
- Quer dizer que você tem que abrir o meu vestido, você sabe fazer isso? - Ela virou o rosto e olhou séria para ele. - E nem pense em se aproveitar. - Ainda com medo ele se aproximou, puxou o zíper que se abriu até o final da coluna dela, deixando a mostra sua pele macia e rosada; ele observava a garota, mas logo outra coisa lhe chamou a atenção: um brilho um pouco a baixo da cintura, ele olhou mais atentamente e viu que ali havia o desenho de uma flor de Lótus dourada e perfeita, ele arquejou. Melody se virou ainda segurando os cabelos e o olhou nos olhos. - Eu sou a criança de Lótus, Éron.
Éron se afastou. Ele olhava-a assustado, levando uma de suas mãos a boca. Melody amedrontou-se. Será que fez a escolha errada ao contar seu segredo? Aos poucos a expressão de Éron mudou; passou as mãos pelos cabelos e arquejou.
- Eu preciso fazer uma coisa agora... E-eu já volto. - Dizendo isso ele se virou e saiu do quarto.
Melody ficou parada, olhando a porta se fechar. Mil coisas passaram pela sua cabeça, que girava e latejava, até que ela não suportou e desabou na cama com as lágrimas caindo.
- Como é que eu posso ser tão estupida? Como pude confiar nele de novo? - Ela acabou adormecendo ainda com lágrimas nos olhos. Acordou quando alguém a chacoalhava.
- Melody acorde... Acorde temos que sair daqui. - A voz parecia ansiosa, ela abriu os olhos e esperou que a vista se ajustasse, sentia os olhos inchados, mas depois de algum tempo ela pode ver Éron sentado ao seu lado na cama, ele a observou por um instante e voltou a falar. - Você estava chorando? - Melody sentou-se e levantou o vestido que estava caindo.
- E-eu pensei... Pensei que...
- Que eu ia te entregar?
- É... Quando você saiu daquele jeito, eu...
- Depois falamos sobre isso, agora eu preciso te tirar daqui o mais rápido possível. - Ele estava nervoso e olhava a todo tempo para a porta.
- O que está acontecendo?
- Um dos capangas do Felix ouviu nossa conversa... Eu fui um tolo por não ter posto ninguém para cuidar da porta, eu saí daquele jeito porque escutei alguém correndo nas escadas. - Ele suspirou. - Ele já deve estar chegando no barco agora, eu preciso te tirar daqui sem que ninguém te veja. - Melody levantou da cama e começou a andar de um lado para o outro. - Vovó e Felipe vão ajudar. Nana conhece esse lugar como a palma da mão e disse que a casa é cheia de passagens, mas eu preciso que você colabore.
- O que quer que eu faça? Eu já estou presa aqui, não tenho outra solução mesmo.
- Primeiro você precisa se trocar, não dá para fugir daqui com esse vestido e depois vai ter que confiar em mim.
Melody bufou, mas concordou. Foi ao banheiro, trocou de roupa e prendeu o cabelo, enquanto estava lá ouviu Felipe e Nana chegarem.
- Estou pronta. - Ela falou enquanto saia do banheiro. Felipe já não estava mais ali, então concluiu que ele deveria estar cuidando da porta.
- Que bom, querida. - Nana disse sorridente sentada ao lado do neto. - Trouxe algumas coisas para vocês levarem e guardei alguns livros e mapas que talvez possam ajudar.
- Obrigada Nana, mas como vamos sair daqui?
- Pelo banheiro. - Nana respondeu dando uma risadinha sinistra. Éron a olhou intrigado.
- Como assim pelo banheiro?
- Há muitas coisas sobre essa casa que você não sabe, criança. Meu pai a projetou para que pudéssemos fugir a qualquer momento que precisássemos. Seu bisavô era um homem muito cuidadoso e presava pela segurança de todos. - Ela se levantou e foi em direção ao banheiro. - Há mais de 20 passagens secretas e uma delas é aqui nesse banheiro.
- Vocês colocaram-me em um quarto com passagem secreta? - Melody perguntou incrédula.
- Ninguém mais sabe sobre ela, nem mesmo o pai de Éron. Esse era um segredo meu e de minha irmã... Só nosso. - Nana ficou em silencio por um momento e Melody a viu lutando contra às lágrimas. Antes que pudesse falar, Felipe apareceu na porta.
- É melhor vocês irem logo. Escuto capangas de Felix no final das escadas. - Ele parecia nervoso e desesperado. - Estão cuidando para que não passemos por lá com ela. - Dizendo isso ele sumiu novamente, enquanto Éron olhava assustado para a avó.
- Vocês vão ficar bem? - Ele perguntou.
- Mas é claro que vamos, eles não são loucos o bastante para encostar um dedo em nós. - Ela passou a mão carinhosamente pelo rosto de Éron. - Vocês têm uma missão maior agora e temos que proteger Melody de qualquer coisa, agora venham, não temos muito tempo.
Nana entrou no banheiro e foi direto para a banheira, passou a mão por traz dela e ouviu-se um click e então a banheira começou a se mover. Ele foi se afastando até que surgiu um buraco grande o bastante para uma pessoa. Melody se aproximou para ver uma escada que descia pela parede dentro da escuridão.
- Onde é que isso vai dar? - Ela perguntou intrigada.
- Esta passagem termina atrás do pinheiro do jardim. Quando saírem, corram para a floresta, pois os capangas do Felix estão rondando. - Ela resmungou alguma coisa e voltou a falar alto. - Não acredito que André deixou as coisas chegarem a esse ponto... Mas agora vocês precisam ir. - Nana passou a mão pelo rosto de Melody e completou: - Cuide desse cabeça-dura para mim. - Éron resmungou enquanto fuçava a mochila atrás de uma lanterna; quando a encontrou, ele deu um beijo na testa de Nana e desceu; Melody correu para alcançá-lo.
Enquanto descia viu a banheira voltando a posição habitual e então tudo ficou escuro. Ela olhou para baixo e viu a pequena luz da lanterna de Éron, não sabia como ele estava conseguindo se segurar na escada e segurar a lanterna, mas resolveu não perguntar. Por um tempo a única coisa que se ouvia era a respiração dos dois, eles desceram devagar até que ouviram um baque surdo.
- Melody, o último degrau fica um pouco longe do chão, tome cuidado na hora de pular. - Éron apontava a lanterna para ela, o lugar parecia não ter muito espaço também.
Melody continuou calmamente e quando não conseguiu encontrar mais nenhum degrau olhou para Éron, devia ter pelo menos uns três metros do último degrau para o chão. Ela respirou fundo e continuou, foi apoiando os pés na parede até estar segurando o último degrau, soltou-se dele e quase caiu em cima de Éron.
- Tudo bem? - Ele perguntou segurando seus ombros.
- Estou ótima. - Melody disse se afastando dele. - Para onde vamos?
- Acho que esse é o único túnel. - Éron apontava para o lado oposto da escada. - Vamos?
Os dois seguiram pelo túnel estreito e escuro sem dizer nada novamente, chegaram ao final, onde uma escada bem menor que a outra subia pela parede e chegava ao que parecia um alçapão.
- Eu vou subir primeiro para ver se o caminho está limpo. - Éron colocou a lanterna na boca e começou a subir, ergueu um pouco o alçapão e observou por um instante. - Tem alguns capangas do Felix por aqui, mas estão longe, acho que conseguiremos sair sem ser vistos. Mas talvez eles nos vejam quando corrermos para a floresta.
- Temos que ser rápidos. - Éron concordou com a cabeça e começou a se esgueirar pelo alçapão sem abri-lo por inteiro, Melody começou a subir e imitou os passos dele. Ao sair viu Éron agachado atrás do pinheiro e foi para o lado dele.
- Você vai na frente... Quando eu avisar, você corre o mais rápido que puder em direção a floresta. - Melody estava muito nervosa, mas concordou. Éron observou a casa por um instante e então deu o sinal.
Melody se levantou e correu o mais rápido que suas pernas permitiam; ouviu a movimentação atrás dela, mas não olhou para trás. Quando estava perto da floresta ela ouviu um grito de Éron, se virou e o viu lutando para se soltar de dois homens que o seguravam, eles tentavam tampar sua boca para que ninguém o escutasse. Naquele momento, ela sentiu uma raiva imensa crescendo dentro de si e correu em direção a eles; Éron a olhou desesperado enquanto um dos homens ia em sua direção. Ele a agarrou pelos braços e a segurou de costas para ele, ela então pisou no seu pé e afundou o cotovelo o máximo que conseguiu no abdômen dele. O homem urrou e a soltou, no mesmo instante Éron se soltava, ele correu em direção a ela e a puxou.
- Éron eu posso atrasá-lo e nos dar tempo. - Ela parou enquanto ele puxava-a desesperadamente.
- Você está louca? - Melody o encarou por um instante e então fechou os olhos, uma luz verde começou brilhar na palma de sua mão, ela abriu os olhos e começou a movimentá-las. No começo nada aconteceu, mas então os homens começaram a gritar, ervas daninhas estavam se enroscando nas pernas deles; os homens tentavam desesperadamente se soltar, quando estavam bem presos ela olhou para Éron e sorriu.
- Isso vai nos dar algum tempo. - Os dois correram em direção a floresta e assim que entraram nela ouviram mais pessoas chegando, não demoraria muito para que fossem atrás deles. Melody começou a criar armadilhas com ervas daninhas, galhos de arvores e cipós.
Eles continuavam correndo, e por isso Melody sentia as pernas ardendo como se pegassem fogo. Podia ouvir homens perseguindo-os e os gritos de raiva quando alguém caia em uma de suas armadilhas. Ela sentia o ritmo diminuindo; seus batimentos cardíacos pareciam querer estourar seus tímpanos. Melody sentia eles se aproximando cada vez mais. Ela ouviu o som do rio “não pode ser, ele deveria estar a quilômetros daqui”, mas o som ficava cada vez mais forte, até que eles chegaram a margem.
- Isso não deveria estar aqui. - Éron falou meio ofegante.
- Acho que tem alguma razão para isso. - Melody olhou para ele que não entendeu a princípio.
- Não, não, não, não... Você está maluca? Esqueceu o que acontece com quem tenta cruzar ele? - Ele estava apavorado, mas Melody estava decidida.
- Eu prefiro morrer afogada nele do que nas mãos daqueles caras... Éron, não se pode passar nele com intenções errada. - Melody olhou para o rio e respirou fundo. - O Vale sempre ajudará aqueles que tiverem bom coração e que precisarem dele.

Dizendo isso ela pulou, ouviu o grito de Éron, que pulou em seguida. Então, tudo começou a rodar e ela não conseguia mais respirar, sentia a água puxando-a para baixo e cada vez menos conseguia subir para a superfície. Em algum momento Éron agarrou-a, os dois lutavam contra a correnteza e tentavam se manter acima da água, já estavam exaustos e não tinham mais forças para lutar, eles afundaram uma última vez, Melody se agarrou ao amuleto da família e sentiu o objeto esquentar em sua mão. Em seguida ela apagou.

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