- Você poderia abrir o meu vestido? - Éron ficou
paralisado.
- Melody o que exatamente isso quer dizer?
- Quer dizer que você tem que abrir o meu vestido,
você sabe fazer isso? - Ela virou o rosto e olhou séria para ele. - E nem pense
em se aproveitar. - Ainda com medo ele se aproximou, puxou o zíper que se abriu
até o final da coluna dela, deixando a mostra sua pele macia e rosada; ele
observava a garota, mas logo outra coisa lhe chamou a atenção: um brilho um
pouco a baixo da cintura, ele olhou mais atentamente e viu que ali havia o
desenho de uma flor de Lótus dourada e perfeita, ele arquejou. Melody se virou
ainda segurando os cabelos e o olhou nos olhos. - Eu sou a criança de Lótus,
Éron.
Éron se
afastou. Ele olhava-a assustado, levando uma de suas mãos a boca. Melody amedrontou-se.
Será que fez a escolha errada ao contar seu segredo? Aos poucos a expressão de
Éron mudou; passou as mãos pelos cabelos e arquejou.
- Eu
preciso fazer uma coisa agora... E-eu já volto. - Dizendo isso ele se virou e
saiu do quarto.
Melody
ficou parada, olhando a porta se fechar. Mil coisas passaram pela sua cabeça,
que girava e latejava, até que ela não suportou e desabou na cama com as
lágrimas caindo.
- Como é
que eu posso ser tão estupida? Como pude confiar nele de novo? - Ela acabou
adormecendo ainda com lágrimas nos olhos. Acordou quando alguém a chacoalhava.
- Melody
acorde... Acorde temos que sair daqui. - A voz parecia ansiosa, ela abriu os
olhos e esperou que a vista se ajustasse, sentia os olhos inchados, mas depois
de algum tempo ela pode ver Éron sentado ao seu lado na cama, ele a observou
por um instante e voltou a falar. - Você estava chorando? - Melody sentou-se e levantou
o vestido que estava caindo.
- E-eu
pensei... Pensei que...
- Que eu
ia te entregar?
- É...
Quando você saiu daquele jeito, eu...
- Depois
falamos sobre isso, agora eu preciso te tirar daqui o mais rápido possível. -
Ele estava nervoso e olhava a todo tempo para a porta.
- O que
está acontecendo?
- Um dos
capangas do Felix ouviu nossa conversa... Eu fui um tolo por não ter posto
ninguém para cuidar da porta, eu saí daquele jeito porque escutei alguém
correndo nas escadas. - Ele suspirou. - Ele já deve estar chegando no barco
agora, eu preciso te tirar daqui sem que ninguém te veja. - Melody levantou da
cama e começou a andar de um lado para o outro. - Vovó e Felipe vão ajudar.
Nana conhece esse lugar como a palma da mão e disse que a casa é cheia de
passagens, mas eu preciso que você colabore.
- O que
quer que eu faça? Eu já estou presa aqui, não tenho outra solução mesmo.
- Primeiro
você precisa se trocar, não dá para fugir daqui com esse vestido e depois vai
ter que confiar em mim.
Melody
bufou, mas concordou. Foi ao banheiro, trocou de roupa e prendeu o cabelo, enquanto
estava lá ouviu Felipe e Nana chegarem.
- Estou
pronta. - Ela falou enquanto saia do banheiro. Felipe já não estava mais ali,
então concluiu que ele deveria estar cuidando da porta.
- Que bom,
querida. - Nana disse sorridente sentada ao lado do neto. - Trouxe algumas
coisas para vocês levarem e guardei alguns livros e mapas que talvez possam
ajudar.
- Obrigada
Nana, mas como vamos sair daqui?
- Pelo
banheiro. - Nana respondeu dando uma risadinha sinistra. Éron a olhou
intrigado.
- Como
assim pelo banheiro?
- Há
muitas coisas sobre essa casa que você não sabe, criança. Meu pai a projetou
para que pudéssemos fugir a qualquer momento que precisássemos. Seu bisavô era
um homem muito cuidadoso e presava pela segurança de todos. - Ela se levantou e
foi em direção ao banheiro. - Há mais de 20 passagens secretas e uma delas é
aqui nesse banheiro.
- Vocês
colocaram-me em um quarto com passagem secreta? - Melody perguntou incrédula.
- Ninguém
mais sabe sobre ela, nem mesmo o pai de Éron. Esse era um segredo meu e de
minha irmã... Só nosso. - Nana ficou em silencio por um momento e Melody a viu
lutando contra às lágrimas. Antes que pudesse falar, Felipe apareceu na porta.
- É melhor
vocês irem logo. Escuto capangas de Felix no final das escadas. - Ele parecia
nervoso e desesperado. - Estão cuidando para que não passemos por lá com ela. -
Dizendo isso ele sumiu novamente, enquanto Éron olhava assustado para a avó.
- Vocês
vão ficar bem? - Ele perguntou.
- Mas é
claro que vamos, eles não são loucos o bastante para encostar um dedo em nós. -
Ela passou a mão carinhosamente pelo rosto de Éron. - Vocês têm uma missão
maior agora e temos que proteger Melody de qualquer coisa, agora venham, não
temos muito tempo.
Nana
entrou no banheiro e foi direto para a banheira, passou a mão por traz dela e
ouviu-se um click e então a banheira começou a se mover. Ele foi se afastando
até que surgiu um buraco grande o bastante para uma pessoa. Melody se aproximou
para ver uma escada que descia pela parede dentro da escuridão.
- Onde é
que isso vai dar? - Ela perguntou intrigada.
- Esta
passagem termina atrás do pinheiro do jardim. Quando saírem, corram para a
floresta, pois os capangas do Felix estão rondando. - Ela resmungou alguma
coisa e voltou a falar alto. - Não acredito que André deixou as coisas chegarem
a esse ponto... Mas agora vocês precisam ir. - Nana passou a mão pelo rosto de
Melody e completou: - Cuide desse cabeça-dura para mim. - Éron resmungou
enquanto fuçava a mochila atrás de uma lanterna; quando a encontrou, ele deu um
beijo na testa de Nana e desceu; Melody correu para alcançá-lo.
Enquanto
descia viu a banheira voltando a posição habitual e então tudo ficou escuro.
Ela olhou para baixo e viu a pequena luz da lanterna de Éron, não sabia como
ele estava conseguindo se segurar na escada e segurar a lanterna, mas resolveu
não perguntar. Por um tempo a única coisa que se ouvia era a respiração dos
dois, eles desceram devagar até que ouviram um baque surdo.
- Melody,
o último degrau fica um pouco longe do chão, tome cuidado na hora de pular. -
Éron apontava a lanterna para ela, o lugar parecia não ter muito espaço também.
Melody
continuou calmamente e quando não conseguiu encontrar mais nenhum degrau olhou
para Éron, devia ter pelo menos uns três metros do último degrau para o chão.
Ela respirou fundo e continuou, foi apoiando os pés na parede até estar
segurando o último degrau, soltou-se dele e quase caiu em cima de Éron.
- Tudo bem?
- Ele perguntou segurando seus ombros.
- Estou ótima.
- Melody disse se afastando dele. - Para onde vamos?
- Acho que
esse é o único túnel. - Éron apontava para o lado oposto da escada. - Vamos?
Os dois
seguiram pelo túnel estreito e escuro sem dizer nada novamente, chegaram ao
final, onde uma escada bem menor que a outra subia pela parede e chegava ao que
parecia um alçapão.
- Eu vou
subir primeiro para ver se o caminho está limpo. - Éron colocou a lanterna na
boca e começou a subir, ergueu um pouco o alçapão e observou por um instante. -
Tem alguns capangas do Felix por aqui, mas estão longe, acho que conseguiremos
sair sem ser vistos. Mas talvez eles nos vejam quando corrermos para a
floresta.
- Temos
que ser rápidos. - Éron concordou com a cabeça e começou a se esgueirar pelo
alçapão sem abri-lo por inteiro, Melody começou a subir e imitou os passos
dele. Ao sair viu Éron agachado atrás do pinheiro e foi para o lado dele.
- Você vai
na frente... Quando eu avisar, você corre o mais rápido que puder em direção a
floresta. - Melody estava muito nervosa, mas concordou. Éron observou a casa
por um instante e então deu o sinal.
Melody se
levantou e correu o mais rápido que suas pernas permitiam; ouviu a movimentação
atrás dela, mas não olhou para trás. Quando estava perto da floresta ela ouviu
um grito de Éron, se virou e o viu lutando para se soltar de dois homens que o
seguravam, eles tentavam tampar sua boca para que ninguém o escutasse. Naquele
momento, ela sentiu uma raiva imensa crescendo dentro de si e correu em direção
a eles; Éron a olhou desesperado enquanto um dos homens ia em sua direção. Ele
a agarrou pelos braços e a segurou de costas para ele, ela então pisou no seu
pé e afundou o cotovelo o máximo que conseguiu no abdômen dele. O homem urrou e
a soltou, no mesmo instante Éron se soltava, ele correu em direção a ela e a
puxou.
- Éron eu
posso atrasá-lo e nos dar tempo. - Ela parou enquanto ele puxava-a
desesperadamente.
- Você
está louca? - Melody o encarou por um instante e então fechou os olhos, uma luz
verde começou brilhar na palma de sua mão, ela abriu os olhos e começou a
movimentá-las. No começo nada aconteceu, mas então os homens começaram a
gritar, ervas daninhas estavam se enroscando nas pernas deles; os homens tentavam
desesperadamente se soltar, quando estavam bem presos ela olhou para Éron e
sorriu.
- Isso vai
nos dar algum tempo. - Os dois correram em direção a floresta e assim que
entraram nela ouviram mais pessoas chegando, não demoraria muito para que
fossem atrás deles. Melody começou a criar armadilhas com ervas daninhas,
galhos de arvores e cipós.
Eles
continuavam correndo, e por isso Melody sentia as pernas ardendo como se pegassem
fogo. Podia ouvir homens perseguindo-os e os gritos de raiva quando alguém caia
em uma de suas armadilhas. Ela sentia o ritmo diminuindo; seus batimentos cardíacos
pareciam querer estourar seus tímpanos. Melody sentia eles se aproximando cada
vez mais. Ela ouviu o som do rio “não
pode ser, ele deveria estar a quilômetros daqui”, mas o som ficava cada vez
mais forte, até que eles chegaram a margem.
- Isso não
deveria estar aqui. - Éron falou meio ofegante.
- Acho que
tem alguma razão para isso. - Melody olhou para ele que não entendeu a princípio.
- Não,
não, não, não... Você está maluca? Esqueceu o que acontece com quem tenta
cruzar ele? - Ele estava apavorado, mas Melody estava decidida.
- Eu
prefiro morrer afogada nele do que nas mãos daqueles caras... Éron, não se pode
passar nele com intenções errada. - Melody olhou para o rio e respirou fundo. -
O Vale sempre ajudará aqueles que tiverem bom coração e que precisarem dele.
Dizendo
isso ela pulou, ouviu o grito de Éron, que pulou em seguida. Então, tudo
começou a rodar e ela não conseguia mais respirar, sentia a água puxando-a para
baixo e cada vez menos conseguia subir para a superfície. Em algum momento Éron
agarrou-a, os dois lutavam contra a correnteza e tentavam se manter acima da
água, já estavam exaustos e não tinham mais forças para lutar, eles afundaram
uma última vez, Melody se agarrou ao amuleto da família e sentiu o objeto
esquentar em sua mão. Em seguida ela apagou.
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