O Vale de Lótus - Capítulo 09: A Colina

Ela sentiu que mãos tentavam alcançá-los, mas já era tarde. O vento passava por eles zunindo e a cada segundo eles se aproximavam ainda mais do chão. Sua mente lhe encorajava, os pensamentos se misturavam.
Isso precisa funcionar... Eu preciso salvar a nós dois... Eu preciso salvar o Vale... Eu preciso salvá-lo.
Ela fechou os olhos e deixou que a escuridão a consumisse enquanto sentia os braços de Éron ao seu redor. Concentrou-se em pensar em um lugar seguro. Não sabia onde, mas desejava apenas um lugar seguro.
O silêncio reinou por um tempo, mas logo foi quebrado pelo canto de pássaros. Parecia haver algo solido aos seus pés. Melody abriu os olhos. A claridade a cegou a princípio e então, tudo entrou em foco, estavam em uma clareira. Ela olhava por cima dos ombros de Éron, que ainda a segurava firme. Ela via as árvores dançando com o vento e um aroma de flores tomou todo o lugar.
Éron suspirou.
- Estamos mortos? - Ele sussurrou, com a respiração acelerada.
- Acho que ainda não. - Melody respondeu, rindo.
- Esse lugar é lindo. Onde estamos?
- Eu não sei, só pedi um lugar seguro.
- Eu ainda não acredito que você possa fazer isso. - Ele disse, puxando-a ainda mais perto. - Isso é real mesmo? - Melody se acomodou ao abraço de Éron. - Tenho medo de te soltar e tudo acabar. - Ele se afastou e a olhou nos olhos.
- Acho que já acabou... Estamos vivos. - Ela começou a olhar ao redor e, aos poucos, Éron foi soltando-a.
Eles não estavam em uma clareira como Melody pensara anteriormente, eles estavam aos pés de uma colina. No topo dela, era visível uma grande pedra que brilhava a luz do sol.
- Eu já estive aqui. - Melody sussurrou.
- Então você conhece este lugar?
- Não exatamente... Eu estive aqui em um sonho. - Ela pensou por um instante, intrigada. - Mas eu estive no topo dessa colina, e só vi aquela pedra uma vez. - Ela disse, apontando para cima.
- Então, vamos subir para dar uma olhada. - Ele disse, animado. Melody começou andar a caminho da colina e ele a seguiu.
Eles não trocaram uma só palavra enquanto subiam. As folhas das árvores farfalhavam ao redor deles e o aroma de flores ficava cada vez mais intenso. A pedra ficava exatamente no meio da colina e tinha a aparência de uma lápide. Flores de todos os tipos nasciam ao redor dela e algo que Melody sonhara voltou a sua mente. Uma árvore que tinha a aparência torcida ficava logo atrás da pedra.
- Isso parece um...
- Túmulo? - Melody completou. Éron se aproximou da pedra e encontrou uma descrição nela.
- Melissa Farley. - Ele olhou para Melody e completou. - Acho que esse é o túmulo dela.
Melody se aproximou e observou a lápide por um instante. Depois seguiu para a árvore que ficava atrás dela.
- Melody, o que está fazendo?
- Eu estive aqui no meu sonho... Nessa árvore. - Ela chegou até o local e começou a procurar algo no tronco. Em poucos instantes, achou o que procurava, então deu um gritinho que assustou Éron.
- O que aconteceu?
- Era real... Meu sonho era real. - Ela olhava animada para um Éron confuso. - Na verdade, era uma lembrança de Melissa. Olhe. - Ela disse, apontando para um pedaço no tronco.
Ele se aproximou e observou o local para o qual Melody havia apontado. Primeiro, ele não conseguiu entender muito bem, parecia algum defeito no troco, mas depois de algum tempo, ele entendeu perfeitamente o que deixara Melody tão feliz. Havia um coração gravado no tronco com as letras M e A, estavam quase apagadas pelo tempo e ele soube na hora do que se tratava.
- Melissa e Aurion. - Melody sussurrou.
- Foi com isso que você sonhou? - Ele perguntou aparentemente intrigado. - Isso te deixou tão feliz? O que tem de tão especial? - Melody o encarou com uma expressão indignada e bufou.
- Para você pode não ser nada, mas para mim, significa muita coisa. - Ela disse, apontando o dedo para o peito dele. Em seguida, se virou e cruzou os braços. - Você não entenderia.
- Tente me explicar então. - Ela suspirou e sentou-se no chão.
- É só que... Agora eu sei que nós sempre tivemos uma ligação. Eu sei que não eram apenas sonhos, eram lembranças. - Éron sentou-se ao lado dela e em silêncio. - Eu estive aqui quando Aurion a beijou pela primeira vez e estive aqui quando ele a pediu em casamento, eu estive aqui quando ele escreveu isso na árvore e... Eu estive aqui quando ele a enterrou.
- Você viu tudo isso? Mas aqui parece ser tão distante do castelo, por que eles...
- Por que viriam até aqui? - Ela indagou, o interrompendo. - Naquela época não aprovavam o relacionamento de alguém da família dos líderes com outras pessoas, ou melhor, com pessoas comuns. Aurion trabalhava no castelo, ele crescera junto de Melissa e os dois se tornaram grandes amigos. Ele tinha o dom com as plantas e conforme foram crescendo, ele ficava melhor. - Ela parou por um instante para respirar, então continuou. - Melissa passava mais tempo nos jardins com ele do que estudando os outros dons, a magia dele encantava-a. Ele amava tudo que tocava e tudo o que fazia... Bem aos poucos os dois foram se apaixonando.
- Eles vinham para cá para ficarem juntos?
- Era o único lugar em que podiam ser eles mesmos... Um lugar só deles. Os dois o encontraram quando eram crianças, quando acabaram se perdendo na floresta e subiram na colina para que pudessem encontrar o caminho. Depois disso, esse se tornou o lugar secreto deles.
- Os pais dela não aceitavam? - Éron recostou-se à árvore e puxou Melody para que ela se apoiasse nele. Ela encostou a cabeça em seu ombro e ele começou a enrolar as pontas do cabelo dela com uma das mãos e com a outra segurou uma das mãos dela.
- Os pais dela o adoravam, mas os líderes dos dois clãs não aceitavam. Eles achavam que ela teria de se casar com alguém que tivesse dons raros ou com algum dos primos dela.
- Com um primo?
- Antigamente isso não fazia diferença... Mas ela se casou com Aurion. Os pais dela apoiaram e fizeram um grande casamento no castelo. Eles tiveram uma filha. - Ela suspirou. - Quando vi Aurion a enterrando, tinha a menina nos braços... Ela não devia ter nem um ano.
Os dois ficaram quietos por um instante, Éron beijou os cabelos de Melody que havia começado a chorar.
- Não deve ter sido fácil para você, quero dizer, ver todas essas coisas.
- Eu acho que isso foi bom para mim, me sinto mais próxima dela agora que sei que não eram apenas sonhos... Mas eu não quero mais falar sobre isso, pelo menos por enquanto. - Éron concordou com ela.
- Você não acha que é melhor darmos um jeito de avisar seus pais? Logo eles irão estranhar o fato de você esteja demorando tanto.
- Essas coisas da profecia podem demorar meses, e meus pais sabem disso... Mas vou dar um jeito de avisá-los, antes que Felix invente algo por lá.
- E como vai fazer isso?
- Tenho meus meios. - Melody respondeu, rindo. O assunto lembrou Éron de uma pergunta que queria fazer a algum tempo.
- Melody, eu posso lhe perguntar uma coisa? - Ela se ajeitou e limpou as lágrimas, depois olhou para ele, encorajando-o. - Por que seus pais a esconderam? Você mesma se protegeu e não contou quem era. Depois de tudo que passamos... Eu sei que algo deve ter acontecido para vocês terem de fazer isso.
- Você demorou a me perguntar isso. - Ela disse, se encolhendo nos braços dele. - No dia em que nasci, alguém invadiu o Clã para levar a criança de Lótus, entraram em todas as casas e queriam levar todos os bebês nascidos naquele dia... Meu pai e os homens do clã conseguiram detê-los antes que o casarão fosse invadido. Eu nasci pouco tempo depois.
- Foi por isso que a esconderam... Estavam apenas te protegendo. - Mil coisas estavam passando pela cabeça de Éron e ele lutava para espantar a que mais lhe doía.
- Não acho que tenha sido seu pai... Se for isso que está pensando. - Melody parecia ter lido seus pensamentos. - Acho que foram os capangas do Felix.
- Isso faz todo o sentindo... Ele não conseguiu o que queria e então aproveitou para jogar um Clã contra o outro. Ele sabia que meu pai acreditaria nele, meu pai sempre confiou cegamente nele... Minha mãe odiava isso.
- Ele nos fez acreditar que os seus queriam me sequestrar, e os fez acreditar que os meus estavam me escondendo porque queríamos o poder do Vale para nós.
- Até certo ponto, isso é verdade. - Éron disse, rindo. O que fez Melody enfiar o cotovelo em seu abdômen.
- Isso é sério, Éron. Será que você pode parar de gracinha?
- Tudo bem. Desculpe-me, senhora. - Ele continuava rindo.
- Você é um idiota, sabia?
- Um idiota, mas você gosta.
- Quem foi que te disse isso? - Ela respondeu sínica.
- Você me disse na hora em que me beijou.
- Acho que você está enganado, foi você que me beijou.
- Quer que eu te prove? - Éron virou o rosto de Melody pra ele e se aproximou um pouco mais, ela já estava ficando ofegante e ele ria sarcástico da situação dela. Mas no último minuto ela virou o rosto, irritada.
- Vamos voltar ao assunto? Felix é a causa da rixa... Ele é a causa da separação do Vale. Quem sabe esteja até envolvido com o sumiço da sua mãe.
- Mas por que ele faria isso?
Uma voz vinda de trás da árvore respondeu.
- Porque ele me queria. - Éron e Melody se viraram assustados e se depararam com a imagem de Melissa.
Ela estava usava um vestido branco e um diadema de flores douradas na cabeça, parecia mais velha e sua imagem tremeluzia e brilhava com se ela fosse um fantasma ou um anjo. Contudo, Melissa parecia triste.
- Olá, Melody. - Ela disse, forçando um sorriso.
- Melissa... Você... Como?
- Eu precisava te ver e lhe contar tudo... Você já conhece a melhor parte da minha história e eu venho evitando lhe contar o resto, mas acho que essa hora chegou.
- Você quer dizer...
- Sim querida.
- Isso é... É mesmo real? - Éron estava branco e parecia paralisado.
- Você acha que sou real, Éron? - Ele apenas concordou com a cabeça. Melissa sorriu e continuou. - Que bom, pois preciso de sua ajuda.
- O que eu posso fazer?
- No momento, quero apenas que acompanhe Melody... Ela vai precisar de você quando eu lhe mostrar tudo. Quero que venha conosco.
- Para onde vamos? - Melody perguntou confusa. Não entendia o que Melissa queria dizer.
- Para o dia da minha morte. - Melissa se virou e no lugar onde estava à pedra, havia um portal que brilhava e oscilava com imagens do castelo.

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