- Você está bem?
- Estou... Acho que estou. - Ela respondeu olhando as ruínas enquanto perguntas rodavam em sua cabeça.
- Acho melhor você se sentar um pouco... Você ficou meio pálida. - Éron a conduziu a uma árvore próxima, em que se sentaram encostados.
Melody lhe contou sobre a visão que teve. Olhou ao redor e encontrou a fonte em que Melissa havia aparecido. Ela estava completamente coberta pela vegetação. Uma única roseira crescia no junto às ervas daninhas e subia pelo chafariz, com rosas amarelas que espalhavam o perfume pelo lugar.
- Você acha que essa Melissa tem algo a ver com você? - Éron disse quebrando o silêncio.
- Ela é uma Farley... E tinha o meu medalhão. - Ela respondeu, agarrando-se ao medalhão e encostando a cabeça na árvore. - Não sei se sigo a mesma linhagem que ela, mas de alguma forma ela tem algo conectado a mim. É como se eu já a conhecesse. Como se ela sempre estivesse por perto... Eu sei que parece loucura, mas eu sinto-a. Eu sempre a senti, mas nunca entendi o que era... Agora eu sei. - Ela riu e balançou a cabeça. - É como se a aura dela emanasse de tudo... Isso é loucura não é?
- É loucura, sim. - Éron respondeu sorrindo. - Mas o que não é loucura nesse lugar? Veja só esse castelo. Um rio cortou o Vale no meio cortou-o junto e olhe pare ele. - Disse apontando para as ruínas. - Isso deveria ter desmoronado assim que o Vale se dividiu.
Melody entendia a linha de pensamentos dele e ele estava certo. Tudo no Vale parecia loucura. Ali estava ela, a fonte de toda magia e toda vida do Vale, dizendo que algo parecia loucura. Ela mesma era a prova de toda loucura; um pequeno ser que nasce com todo esse fardo. Ela estava pensando em todas essas coisas e acabou esquecendo-se de completamente da presença de Éron, até que ele deu um longo suspiro e continuou.
- Você não está ficando louca... Se for isto que está te preocupando.
- Na verdade estava pensando em outras coisas. - Disse rindo. - Acabei viajando um pouco.
- Quer tentar entrar no castelo? - Éron disse entusiasmado. - Ou acha que vai ter outro...
- Quero sim. - Ela respondeu antes que ele terminasse a pergunta.
Os dois seguiram mais uma vez em direção as ruínas, mas quando chegaram ao inicio da escadaria Melody recuou um pouco. Éron já estava um pouco mais a frente e a encorajou sorrindo; ele estendendo a mão, ela a segurou e subiu no primeiro degrau.
- Nada de transe até agora. Assim poderemos continuar. - Ele disse rindo. Eles subiram até o que parecia ser a entrada com grandes portas de carvalho, ou melhor, porta. O rio havia dividido o castelo exatamente pela metade, então uma das portas ficava do lado em que estavam e a outra do outro lado. O chão parecia estável, mas não se aproximaram para comprovar. Resolveram encontrar outro lugar por onde entrar.
Ainda na parte da frente havia uma janela aberta que não tinha mais vidros e que era a mais baixa entre todas. Éron entrou na frente e ajudou Melody. O lugar estava todo bagunçado e revirado, como deveria estar depois do tremor que o dividiu. Contudo, não havia poeira em nada, nem rachaduras, destroços e muito menos teias de arranha. Fora a bagunça, poderia se dizer que havia gente por ali ainda.
- Isso aqui está abandonado há quanto tempo? - Éron perguntou a si mesmo.
- Exatamente 100 anos. - Ele a olhou intrigado. - Não me pergunte como... Eu apenas sei.
Os dois andaram entre os moveis bagunçados e vasculharam cada detalhezinho. O primeiro cômodo parecia ter sido uma grande sala de jantar com uma mesa enorme no centro, os talheres e louças ainda estavam espalhados pelo chão. O próximo era o salão de baile com um único e solitário lustre que estava espatifado no chão. Havia também outras portas que levavam a cozinha e a outras áreas em que móveis haviam caído, tampando a passagem. Entretanto, o que chamava Melody era a escadaria que levava ao segundo andar. Ela havia começado a subir os degraus quando Éron a puxou.
- Você ficou maluca? - Ele parecia furioso. - Isso pode desmoronar a qualquer momento.
- Isso deveria ter desmoronado há 18 anos e não desmoronou até agora. - Ela respondeu puxando o braço que Éron estava segurando, depois continuou subindo com ele bufando atrás dela. - Se você está com tanto medo, por que é que está vindo atrás de mim?
- Se te acontecer alguma coisa pelo menos eu estarei perto.
- Awn. Que lindinho, ele se preocupa comigo. - Melody ironizou enquanto Éron resmungava algo que ela não entendeu.
O andar de cima era um grande corredor com um carpete bege, as paredes eram brancas e com pequenos desenhos de flores douradas. Do lado esquerdo o corredor seguia até o buraco onde o castelo se dividira e do lado direito levava até uma escada em espiral que subia para uma das torres. Melody não se interessou pelas outras portas ou pelos lugares que elas poderiam levar. Apenas seguiu pelo corredor até a escadaria.
Éron tentou fazê-la parar, mas ela ignorou-o. Sabia que aquilo não iria desmoronar de uma hora para outra. O cômodo no final da escada era todo em clores claras e tons pastel. Havia apenas uma cama com dossel com detalhes dourados e em frente a ela havia uma penteadeira inteira dourada. Melody passou a mão pela caixinha de música em cima da penteadeira e ouviu Éron suspirar.
- Ela é idêntica a você. - Melody se virou e viu algo que não reparara de inicio. Na parede ao lado da cama havia um retrato em tamanho real de Melissa. Seus cabelos estavam presos em uma cascata de cachos descia pelo penteado, ela usava um vestido de baile inteiro azul e sorria serenamente. O medalhão pousava sob o decote do vestido. - Vocês parecem a mesma pessoa.
- A única diferença é que os cabelos dela eram cacheados. - Melody começou a reparar em cada detalhe e então algo chamou sua atenção. No pulso esquerdo de Melissa brilhava uma flor dourada... Não apenas uma flor, mas a flor de Lótus. - Meu Deus... Ela era uma criança de Lótus.
Éron olhou mais atentamente o retrato e então começou a olhar ao redor. Depois de algum tempo ele sussurrou.
- Ela deve ter sido a primeira criança.
- Por que você acha isso?
- Pense bem Melody... O castelo fica bem no meio dos dois clãs e a primeira criança nasceu...
- Da união dos dois clãs... É claro! O Vale se dividiu no ponto e que havíamos nos unido. - Melody concluiu surpresa.
- Mas é estranho que ninguém conte sobre isso, não há história nenhuma sobre esse castelo... É como se parte da história tivesse sido rompida e esquecida ou apagada.
- Ou apenas ignorada. - Éron concordou com a cabeça.
- Algo aconteceu aqui. - Ele disse pensativo. - Algo realmente sério... Precisamos descobrir o que foi; talvez seja a chave para acabar com tudo isso. - Ele olhou para Melody que parecia distante. - Melody?
Ela começou a se aproximar do retrato, o medalhão de Melissa parecia brilhar. Quando chegou mais perto, seu próprio medalhão começará a brilhar. Como se fossem um imã e um chamasse pelo outro, eles se atraíam. Quando ela tocou o retrato uma luz muito forte iluminou o quarto. Tão forte que a cegou por instantes.
A luz foi diminuindo aos poucos. E quando ela conseguiu ver novamente, Melissa estava sentada na cama e Éron havia sumido.
- Olá, Melody. - Ela sorriu e indicou para que Melody se aproximasse. Estava exatamente como no retrato, mas parecia resplandecer a luz do sol que entrava pela janela. - Não tenha medo querida, precisamos ser rápidas... Os capangas de Felix estão chegando ao castelo e encontrarão vocês a qualquer momento.
- Como... Como sabe disso?
- Eu sou a alma deste lugar e tenho cuidado de você desde que nasceu... Digamos que preciso estar sempre em alerta. - Ela pensou por um instante e voltou a falar. - Acho que me distraí um pouco... Sinto muito por terem te capturado, mas acho que isso foi necessário para que começasse sua missão. - Melody concordou, olhou para o retrato por um instante e então se lembrou da flor de Lótus.
- Melissa... Você foi mesmo a primeira criança?
- Fui sim. - Ela disse em um suspiro.
- Mas o que aconteceu aqui? Por que esse lugar foi esquecido? - Melody teve a impressão de ver dor nos olhos de Melissa.
- Esse é um assunto para mais tarde... Darei um jeito de te contar tudo. - Ela olhou pela janela pensativa. - Nesse momento o que mais importa é você saber que Felix é muito mais perigoso do que se imagina e vai fazer de tudo para te pegar... Por favor, prometa que vai tomar cuidado.
- E-eu prometo, mas você fala como se o conhecesse.
- E eu o conheço. - Algo brilhou nos olhos dela, mas dessa vez não era dor... Era raiva. - Mas isso não vem ao caso. Precisamos ser rápidas, eu lhe prometo que vou te contar tudo, mas agora me escute... Para encontrar o grande carvalho vocês precisaram ir a parte mais escura e sombria da floresta, os mapas lhe indicaram o local. Mas é preciso tomar cuidado, há coisas naquele lugar que nem mesmo a magia do Vale contém. Criaturas tão antigas quanto o próprio tempo. - Ela falou aquilo de modo sombrio. - Esteja preparada.
- Mas que coisas?
- Não tenho tempo para mais explicações. - Ela disse nervosa. - Eles estão entrando no castelo agora... Vocês precisam fugir, use seus poderes.
Dizendo isso, a imagem dela embaçou e tudo perdeu o foco. Quando voltou ao normal, mais uma vez ela estava ao lado de Éron.
- Melissa? - Ele perguntou e Melody percebeu que ele a segurava. Devia ter entrado em transe novamente.
- Sim.
- O que ela... - Melody o interrompeu.
- Não temos tempo agora, os capangas de Felix estão aqui. É só questão de tempo para que nos encontrem.
- Temos que sair então. - Ele disse seguindo para a porta.
- Não há tempo, eles estão aqui... No castelo. - Ouviam-se vozes vindas do primeiro andar.
- Melody, como é que vamos sair daqui?
Ela pensou no que Melissa havia dito, para que usasse seus poderes. Nunca havia tentado algo assim, algo tão poderoso. Mas uma ideia maluca lhe passou a cabeça. Talvez Melissa a estivesse ajudando.
- Eu tenho uma ideia, mas não sei se vai funcionar. - Ela disse seguindo para a janela.
- Você ficou louca? - Éron falou percebendo o plano dela.
- É o único jeito... Não posso te garantir que funcione, mas precisamos tentar. - Ela subiu na janela e se equilibrou, não havia muito espaço, mas era suficiente para que conseguisse ficar em pé. Segurou-se na lateral e olhou para Éron. - Você confia em mim? - Ela disse estendendo a mão.
- Nós vamos nos jogar daí? - As vozes estavam se aproximando, Éron olhou para a porta e então subiu junto a Melody. - Eu confio, mas o que eu preciso fazer? - Melody ficou vermelha.
- Você precisa... Precisa me abraçar. - Com um dos braços ele a agarrou pela cintura e com o outro segurou na parte de cima da janela para que não caíssem antes do tempo. - Eu peço desculpas se isso falhar. - Ela sussurrou.
- Se isso falhar você sabe que... - Melody concordou com a cabeça e parecia aflita. - Eu só preciso jogar a nós dois? - Mais uma vez ela concordou, ouviram portas batendo. Em questão de minutos os homens estariam ali. - Então talvez esse seja a última chance que eu tenha.
- Última chance de quê? - Ouviam passos nas escadas, Melody olhou nervosa para a porta. - Eles estão chegando, vamos logo.
Éron apertou o abraço um pouquinho mais. Ele se inclinou em direção a ela e a beijou, no começo Melody tentou protestar. O coração estava disparado e a cada instante os homens se aproximavam mais. Mil coisas lhe passavam a cabeça, mas Éron era tão gentil e ao mesmo tempo parecia apressado. Como se fosse uma despedida. Esse pensamento a fez estremecer. Contudo, o gesto a deixou mais calma e ela se entregou ao beijo, passou os braços ao redor do pescoço dele e entrelaçou os dedos em seu cabelo. Aquilo parecia estar durando um século, mas nada mais parecia existir. A porta do quarto escancarou-se e os homens entraram.
- Eles estão ali. - Um deles gritou, parecia ser Mauricio. Éron a agarrou ainda mais, depositou um beijo em sua testa ela e nesse momento ela soube que era hora. Ela abraçou-o mais forte e com um único movimento eles se jogaram.
Ela sentiu mãos tentado alcançá-los, mas já era tarde. O vento passava por eles zunindo e a cada segundo eles se aproximavam ainda mais do chão. A única coisa que lhe vinha a mente era: “Isso precisa funcionar... Eu preciso salvar a nós dois... Eu preciso salvar o Vale... Eu preciso salvar a Éron!”
Ela fechou os olhos e deixou que a escuridão consumisse-os enquanto sentia os braços de Éron ao seu redor.
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