O Vale de Lótus - Capítulo 07: Dons e Segredos

- Eu prefiro morrer afogada nele do que nas mãos daqueles caras! Éron, não se pode passar nele com intenções erradas. - Melody olhou para o rio e respirou fundo. - O Vale sempre ajudará aqueles que tiverem bom coração e precisarem dele. - Dizendo isso ela pulou, ouviu o grito de Éron e o ouviu pulando atrás dela.
Então tudo começou a rodar e ela não conseguia mais respirar; sentia a água puxando-a para baixo, impedindo-a cada vez mais subir à superfície. Em algum momento Éron se agarrou a ela, os dois lutavam contra a correnteza e tentavam se manter acima da água; já estavam exaustos e não tinham mais forças para lutar, eles afundaram uma última vez. Melody agarrou o amuleto da família. Sentiu-o esquentar em sua mão; no momento seguinte, ela apagou.
- Melody, Melody... Por favor, reage. - Melody ouvia o que a voz lhe pedia, mas não conseguia fazer isso. Sentia-se entorpecida ou em uma espécie de transe; sentia a grama sob si e uma luz fraca brilhava por suas pálpebras... Estaria morta? Mas como poderia? Sentia seu corpo sendo chacoalhado e seus pulmões pareciam queimar, mas por que ela não reagia? Por que não fazia o que a voz lhe pedia? A voz ainda lhe chamava, aos poucos a queimação em seus pulmões estava ficando insuportável, sentiu a água tentando sair e tossiu convulsivamente. Deitou-se novamente de costas para o chão ainda ofegante. - Melody. - A voz parecia alegre.
- Nós dois morremos? - Ela perguntou meio zonza; Éron riu e ajudou-a a sentar.
- É claro que não sua bobinha, estamos bem vivos. - Ele parecia aliviado ao ver que ela estava viva. - Mas depois conversamos sobre isso, agora precisamos sair daqui. Pelo menos sair da margem do rio. - Éron a ajudou a se levantar; jogou sua mochila nos ombros, depois pegou a de Melody; então completou: - Aqui é um lugar fácil para nos acharem e ainda não sei onde estamos.
Os dois seguiram mata a dentro; ouviram gritos, mas depois de algum tempo tudo ficou quieto. Eles pararam em uma clareira e montaram acampamento.
- Aqueles gritos... Você acha que eram...
- Eles? Eu tenho certeza que eram, mas pareciam distantes. Acho que estão do outro lado do rio. - Melody olhou Éron com uma expressão assustada.
- Você acha que estamos nos limites do clã do Sul?
- Acho que seu colar nos trouxe aqui. - Éron disse apontando para o amuleto.
- Como assim?
- De algum modo você estava mesmo certa, o Vale nos salvou. Em partes.
- Como assim “em partes”? - Melody estava ficando muito confusa com o rumo da conversa.
- Eu não sei te explicar. - Éron a olhou e parecia ainda mais confuso que ela. - Em algum momento esse seu colar começou a brilhar e alguma coisa nos envolveu... Uma luz ou algo assim, mas eu desmaiei e só me lembro de ter acordado aqui e de você desmaiada ao meu lado. - Melody apertou o amuleto em sua mão.
- Isso é estranho.
- Muito estranho, mas eu tenho uma notícia mais urgente para te dar. - Éron disse puxando os mapas de dentro da mochila. - Acho que não foi uma boa ideia pular no rio.
- Ai não. - Melody correu até ele e começou a vasculhar sua mochila, enquanto Éron tirava as coisas de dentro da dele. Tudo estava encharcado, exceto pela comida que Nana colocara em sacos plásticos e ainda assim alguns dos sacos pareciam não ter aguentado. Eles começaram a ajeitar tudo no chão, mas estava escuro demais e as lanternas já não funcionavam. Melody estava ficando desesperada, pois tudo o que tinha para poder seguir com a missão parecia perdido. Lágrimas escoriam enquanto ela tentava enxergar a situação das coisas. - Eu tinha que inventar de pular naquele rio. - Ela resmungou tirando uma calça de dentro da mochila.
- Melody o que foi isso? - Éron perguntou assustado.
- Isso o que? Você ouviu alguma coisa? - Melody pergunto se aproximando mais de Éron.
- Não, mas sua mão pareceu brilhar por um momento... Você estava tirando algo da mochila e ela brilhou. - Melody olhou para as mãos e pegou a calça que havia tirado da mochila, ela estava seca como se tivesse acabado de ser tirada do armário.
- Meus dons voltaram. - Ela sussurrou. - Meus dons voltaram Éron, eles voltaram. - Ela gritava.
- Do que você está falando?
- A calça está seca, acho que eu a sequei sem querer.
- Você pode secar coisas? - Éron estava ficando muito confuso.
- Não é que eu seque. Eu posso retirar a água das coisas. - Melody estava animada e começou a pegar cada coisa das mochilas e secá-las, Éron não falou nada e continuou parado onde estava. Quando terminou, ela pegou uma lanterna e tentou acendê-la, para sua surpresa ela funcionou perfeitamente, virou a para Éron e então falou.
- Você vai ficar muito tempo parado com essa cara de bobo? - Ele pensou por um momento e então respondeu:
- Eu vou buscar alguns gravetos para acender uma fogueira, a outra lanterna está funcionando? - Melody pegou a outra lanterna e testou, essa também funcionou perfeitamente. Jogou-a para Éron que se virou e sumiu.
Quando ele voltou, Melody já havia arrumado tudo nas mochilas e estava sentada em um tronco. Éron arrumou os gravetos no centro do acampamento, enquanto ela observava. Assim que ele terminou, sentou-se no chão para acendê-la. Melody se então aproximou-se.
- Deixe que eu faço isso.
- Pode deixar Melody, eu posso fazer isso.
- Mas do meu jeito é mais rápido. - Ela retrucou se aproximando dos gravetos. Ela esfregou os dedos da mão direita, uma pequena chama nasceu entre eles. Ela assoprou-a em direção aos gravetos que incendiaram-se rapidamente. - Viu, é muito mais rápido. - Éron a encarava ainda sentado no mesmo lugar. - Se você não sair daí vai acabar se queimando.
- Você é inacreditável sabia. - Ele disse se afastando.
- Essa eu realmente não entendi. - Melody disse sentando-se de frente para Éron, apenas a fogueira os separavam.
- Quando eu penso que não existe mais nada para descobrir... Você vem e me diz que tem dons. - Éron riu e balançou a cabeça.
- Para alguém que tem uma avó curandeira você parece não acreditar muito na magia do Vale.
- Eu acredito, mas ninguém tem os dons dos elementos... Temos o dom da cura, o dom das plantas, dos animais, das artes, da música, das profecias, e muitos outros que não acho que sejam dons, mas ninguém tem os dons dos elementos.
- Eu nasci com todos os dons Éron. - Melody suspirou. - Devia prestar atenção nas histórias de Nana, a criança de Lótus nasce com todos os dons, ela já nasce sendo a pessoa mais mágica do Vale. Você não sabe como é difícil carregar isso, todos esperam que você seja perfeita. - Melody abraçou os joelhos e encarou as chamas. - Que você nunca erre, que você sempre saiba tudo. Para uma criança isso é horrível, você não pode brincar direito, pois tem que estudar, tem que aprender a controlar tudo. - As chamas começaram a dançar; no momento seguinte, uma imagem apareceu no fogo; era garotinha correndo entre as árvores. - Eu fugia pra floresta sempre que podia. - Melody riu com as lembranças. - Meus pais diziam que não sabiam onde eu estava, mas eu sei que eles sabiam... Eles só queriam que eu tivesse meu momento de criança. - Éron estava vidrado com as imagens, que dançavam, tremulavam e trocavam de cor para então tornarem-se outra imagem. Ele viu a vida de Melody ali, viu ela crescendo e aprendendo a controlar seus poderes em meio a floresta e então as chamas voltaram ao normal. - Eu gostava de aprender sozinha, quando estava com todo mundo perto eu me estressava e me descontrolava.
- Você não tinha uma tutora ou coisa assim?
- No começo eu tinha várias, todos queriam me ensinar algo e isso me confundia muito, eu só fui ter uma descente quando tinha uns 8 ou 9 anos... A Rosie foi meu anjo.
- Se você tem todos esses dons, por que é que não tentou usa-los para fugir? - Melody o olhou triste.
- É isso que o estava chateando? Eu tentei usá-los, mas nada funcionava... No momento em que eles apareceram eu fiquei apavorada e depois que me prenderam foi como se meus poderes se esvaíssem. - Melody observou as chamas por um tempo e então se levantou. - Temos que dar uma olhada nos mapas. - Ela levou as duas mochilas até Éron e sentou-se ao lado dele, que percebeu que a conversa estava acabada ali.
- Nana não queria que eu trouxesse tantos mapas, insistiu que esse livro já teria tudo, mas está todo em branco. - Éron jogou o livro para ela. - Eu disse isso mil vezes para ela, mas ela é mais teimosa do que mula empacada.
- Pensei que ela tivesse colocado os mapas na bolsa. - Melody o olhou intrigada e voltou sua atenção ao livro em branco.
- Ela colocou porque eu insisti. - Éron riu. - Também tem mais um livro com contos, versos e histórias sobre o Vale que ela insistiu em mandar.
- Eu não entendo por que a Nana mandaria um livro sem nada. - Ela começou a vasculhar o livro todo, mas parecia que Éron estava certo, não havia nada ali a não ser por uma pequena inscrição na contra capa. Melody procurou a lanterna pois a luz da fogueira não era suficiente para que permitisse a leitura. acendeu-a, fazendo com que as pequenas letras douradas brilhassem. - Éron, veja isso.
- Melissa Farley. - Ele leu baixo. - Você conhece ela?
- Não faço a mínima ideia de quem seja. - Ela aproximou o livro de si e sussurrou. - Melissa Farley, quem é você? - No momento em que falava, seu amuleto tocou o livro que brilhou com uma luz intensa; no momento seguinte as páginas do livro estavam preenchidas. Haviam mapas, ilustrações, poemas e contos.
- Foi por isso que Nana disse que não precisávamos dos mapas. - Ele disse analisando as páginas. - O livro por si só já é um mapa.
- Agora só precisamos descobrir onde estamos. - Com essas palavras as folhas do livro começaram a se virar como se um vento as houvesse soprado e pararam em um mapa com um pequeno pontinho vermelho. Melody arfou. - Acho que essa é a nossa localização e pelo jeito estamos mesmo nos limites do Clã do Sul. - O mapa era dividido por uma pequena linha que deveria ser o rio; o ponto em que estavam era apenas denominado com a palavra “Sul”.
- Mas estamos bem longe dele, ele nem aparece no mapa. - Éron começou a guardar novamente as coisas na mochila. - Acho melhor nós dormirmos agora, amanhã veremos por onde começar.
Os dois ajeitaram seus sacos de dormir próximos a fogueira. O céu estava limpo e parecia que não ia chover. Eles adormeceram quase que imediatamente.
Quando Melody acordou o sol ainda estava nascendo. Éron já havia desarrumado seu acampamento e estava sentado folheando o livro.
- Achou alguma coisa Éron?
- Apareceu uma gravura perto de onde estamos, parece um castelo... Você já ouviu falar em algum castelo por aqui?
- Nenhum. - Melody respondeu enrolando o saco de dormir.
- É como se tivéssemos mudado de lugar enquanto dormíamos.
- Ou ele apareceu enquanto dormíamos... Acho que poderíamos começar por aí... É muito longe?
- Parece estar bem perto, mas primeiro vamos comer alguma coisa. - Disse ele apontando algumas frutas a sua frente.
- Onde você conseguiu isso?
- Tem algumas arvores frutíferas aqui perto. - Ele respondeu sorrindo.
Depois de comerem, os dois resolveram seguir a margem do rio, pois parecia ser o modo mais rápido de chegar ao castelo. Eles caminharam em silêncio, Melody se distraia olhando as árvores e os pequenos animais, que os observavam de volta. Nunca estivera naquela parte da floresta, mas sentia com se conhecesse cada pedrinha daquele lugar. Meia hora se passou até que algo chamou sua atenção.
Eles estavam parados aos pés de um enorme castelo que havia sido totalmente coberto por trepadeiras, flores e musgo. Uma escadaria enorme, parcialmente destruída, subia até a entrada principal, uma porta de mármore que parecia ser a única coisa intacta naquele lugar. As torres haviam sido totalmente cobertas por espinhos de roseiras; havia pétalas de flores caídas pelo chão, que pareciam exalar um perfume maravilhoso. Esquilos e pássaros passeavam de um lado para o outro, e a luz do sol que batia no telhado, que refletia em mil partículas coloridas. Contudo, o que mais chamava a atenção era o fato do castelo estar dividido ao meio pelo rio. Um pedaço para o clã do sul e outro para o clã do norte.
- Como é que isso ainda continua em pé? - Éron disse encantado.
Melody se aproximou do castelo ao poucos; era como se ele a estivesse chamando. Éron pediu para que ela não chegasse mais perto, mas ela ignorou; estava em transe e assim que pisou no primeiro degrau da escadaria a imagem a sua volta mudou. Ela estava agora em frente ao castelo em seus dias de glória, o mármore polido refletia a luz do sol nas árvores e as flores que se espalhavam ao redor dele; pessoas riam e conversam passeando por ali. No lugar em que o rio dividia o castelo havia uma linda fonte onde uma jovem de cabelos encaracolados estava sentada.
Melody não entendia por que, mas sentia que a conhecia. Se aproximou dela; quando estava perto o suficiente pôde ver o medalhão pendurado em seu pescoço, não era um medalhão qualquer era aquele que havia ganhado de sua mãe. Enquanto tentava organizar tudo em sua cabeça para ter certeza de que aquele era o mesmo que estava em seu pescoço, garota se se virou. Melody arfou; seu rosto... Aquela garota era idêntica a Melody, a única coisa que as diferenciava eram os cabelos encaracolados e negros. A garota parecia encará-la.
- Quem é você? - Melody perguntou assustada e para a sua surpresa a garota sorriu e respondeu.
- Sou Melissa, Melissa Farley. - Tudo ficou preto e então ela estava novamente nas ruínas, Éron segurava seus ombros assustado.
- Você está bem?
- Estou... Acho que estou. - Ela respondeu olhando as ruínas enquanto perguntas rodavam em sua cabeça.

Quem era Melissa Farley? Por que ela usava o seu medalhão? E por que era tão parecida com ela? Por que sentia ter uma estranha ligação com aquela garota?

About Leandro Zapata

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