- Eu prefiro morrer afogada nele do que nas mãos
daqueles caras! Éron, não se pode passar nele com intenções erradas. - Melody
olhou para o rio e respirou fundo. - O Vale sempre ajudará aqueles que tiverem
bom coração e precisarem dele. - Dizendo isso ela pulou, ouviu o grito de Éron
e o ouviu pulando atrás dela.
Então tudo começou a rodar e ela não conseguia mais
respirar; sentia a água puxando-a para baixo, impedindo-a cada vez mais subir à
superfície. Em algum momento Éron se agarrou a ela, os dois lutavam contra a
correnteza e tentavam se manter acima da água; já estavam exaustos e não tinham
mais forças para lutar, eles afundaram uma última vez. Melody agarrou o amuleto
da família. Sentiu-o esquentar em sua mão; no momento seguinte, ela apagou.
- Melody, Melody... Por favor, reage. - Melody ouvia o
que a voz lhe pedia, mas não conseguia fazer isso. Sentia-se entorpecida ou em
uma espécie de transe; sentia a grama sob si e uma luz fraca brilhava por suas
pálpebras... Estaria morta? Mas como poderia? Sentia seu corpo sendo
chacoalhado e seus pulmões pareciam queimar, mas por que ela não reagia? Por
que não fazia o que a voz lhe pedia? A voz ainda lhe chamava, aos poucos a queimação
em seus pulmões estava ficando insuportável, sentiu a água tentando sair e
tossiu convulsivamente. Deitou-se novamente de costas para o chão ainda
ofegante. - Melody. - A voz parecia alegre.
- Nós dois morremos? - Ela perguntou meio zonza; Éron
riu e ajudou-a a sentar.
- É claro que não sua bobinha, estamos bem vivos. -
Ele parecia aliviado ao ver que ela estava viva. - Mas depois conversamos sobre
isso, agora precisamos sair daqui. Pelo menos sair da margem do rio. - Éron a
ajudou a se levantar; jogou sua mochila nos ombros, depois pegou a de Melody; então
completou: - Aqui é um lugar fácil para nos acharem e ainda não sei onde
estamos.
Os dois seguiram mata a dentro; ouviram gritos, mas
depois de algum tempo tudo ficou quieto. Eles pararam em uma clareira e montaram
acampamento.
- Aqueles gritos... Você acha que eram...
- Eles? Eu tenho certeza que eram, mas pareciam
distantes. Acho que estão do outro lado do rio. - Melody olhou Éron com uma
expressão assustada.
- Você acha que estamos nos limites do clã do Sul?
- Acho que seu colar nos trouxe aqui. - Éron disse
apontando para o amuleto.
- Como assim?
- De algum modo você estava mesmo certa, o Vale nos
salvou. Em partes.
- Como assim “em partes”? - Melody estava ficando
muito confusa com o rumo da conversa.
- Eu não sei te explicar. - Éron a olhou e parecia
ainda mais confuso que ela. - Em algum momento esse seu colar começou a brilhar
e alguma coisa nos envolveu... Uma luz ou algo assim, mas eu desmaiei e só me
lembro de ter acordado aqui e de você desmaiada ao meu lado. - Melody apertou o
amuleto em sua mão.
- Isso é estranho.
- Muito estranho, mas eu tenho uma notícia mais
urgente para te dar. - Éron disse puxando os mapas de dentro da mochila. - Acho
que não foi uma boa ideia pular no rio.
- Ai não. - Melody correu até ele e começou a
vasculhar sua mochila, enquanto Éron tirava as coisas de dentro da dele. Tudo
estava encharcado, exceto pela comida que Nana colocara em sacos plásticos e
ainda assim alguns dos sacos pareciam não ter aguentado. Eles começaram a
ajeitar tudo no chão, mas estava escuro demais e as lanternas já não
funcionavam. Melody estava ficando desesperada, pois tudo o que tinha para
poder seguir com a missão parecia perdido. Lágrimas escoriam enquanto ela
tentava enxergar a situação das coisas. - Eu tinha que inventar de pular
naquele rio. - Ela resmungou tirando uma calça de dentro da mochila.
- Melody o que foi isso? - Éron perguntou assustado.
- Isso o que? Você ouviu alguma coisa? - Melody
pergunto se aproximando mais de Éron.
- Não, mas sua mão pareceu brilhar por um momento...
Você estava tirando algo da mochila e ela brilhou. - Melody olhou para as mãos
e pegou a calça que havia tirado da mochila, ela estava seca como se tivesse acabado
de ser tirada do armário.
- Meus dons voltaram. - Ela sussurrou. - Meus dons
voltaram Éron, eles voltaram. - Ela gritava.
- Do que você está falando?
- A calça está seca, acho que eu a sequei sem querer.
- Você pode secar coisas? - Éron estava ficando muito
confuso.
- Não é que eu seque. Eu posso retirar a água das
coisas. - Melody estava animada e começou a pegar cada coisa das mochilas e
secá-las, Éron não falou nada e continuou parado onde estava. Quando terminou,
ela pegou uma lanterna e tentou acendê-la, para sua surpresa ela funcionou
perfeitamente, virou a para Éron e então falou.
- Você vai ficar muito tempo parado com essa cara de
bobo? - Ele pensou por um momento e então respondeu:
- Eu vou buscar alguns gravetos para acender uma
fogueira, a outra lanterna está funcionando? - Melody pegou a outra lanterna e
testou, essa também funcionou perfeitamente. Jogou-a para Éron que se virou e
sumiu.
Quando ele voltou, Melody já havia arrumado tudo nas
mochilas e estava sentada em um tronco. Éron arrumou os gravetos no centro do
acampamento, enquanto ela observava. Assim que ele terminou, sentou-se no chão
para acendê-la. Melody se então aproximou-se.
- Deixe que eu faço isso.
- Pode deixar Melody, eu posso fazer isso.
- Mas do meu jeito é mais rápido. - Ela retrucou se
aproximando dos gravetos. Ela esfregou os dedos da mão direita, uma pequena chama
nasceu entre eles. Ela assoprou-a em direção aos gravetos que incendiaram-se
rapidamente. - Viu, é muito mais rápido. - Éron a encarava ainda sentado no
mesmo lugar. - Se você não sair daí vai acabar se queimando.
- Você é inacreditável sabia. - Ele disse se
afastando.
- Essa eu realmente não entendi. - Melody disse
sentando-se de frente para Éron, apenas a fogueira os separavam.
- Quando eu penso que não existe mais nada para
descobrir... Você vem e me diz que tem dons. - Éron riu e balançou a cabeça.
- Para alguém que tem uma avó curandeira você parece
não acreditar muito na magia do Vale.
- Eu acredito, mas ninguém tem os dons dos
elementos... Temos o dom da cura, o dom das plantas, dos animais, das artes, da
música, das profecias, e muitos outros que não acho que sejam dons, mas ninguém
tem os dons dos elementos.
- Eu nasci com todos os dons Éron. - Melody suspirou. -
Devia prestar atenção nas histórias de Nana, a criança de Lótus nasce com todos
os dons, ela já nasce sendo a pessoa mais mágica do Vale. Você não sabe como é
difícil carregar isso, todos esperam que você seja perfeita. - Melody abraçou
os joelhos e encarou as chamas. - Que você nunca erre, que você sempre saiba
tudo. Para uma criança isso é horrível, você não pode brincar direito, pois tem
que estudar, tem que aprender a controlar tudo. - As chamas começaram a dançar;
no momento seguinte, uma imagem apareceu no fogo; era garotinha correndo entre
as árvores. - Eu fugia pra floresta sempre que podia. -
Melody riu com as lembranças. - Meus pais diziam que não sabiam onde eu estava,
mas eu sei que eles sabiam... Eles só queriam que eu tivesse meu momento de
criança. - Éron estava vidrado com as imagens, que dançavam, tremulavam e trocavam
de cor para então tornarem-se outra imagem. Ele viu a vida de Melody ali, viu
ela crescendo e aprendendo a controlar seus poderes em meio a floresta e então
as chamas voltaram ao normal. - Eu gostava de aprender sozinha, quando estava
com todo mundo perto eu me estressava e me descontrolava.
- Você não tinha uma tutora ou coisa assim?
- No começo eu tinha várias, todos queriam me ensinar
algo e isso me confundia muito, eu só fui ter uma descente quando tinha uns 8
ou 9 anos... A Rosie foi meu anjo.
- Se você tem todos esses dons, por que é que não
tentou usa-los para fugir? - Melody o olhou triste.
- É isso que o estava chateando? Eu tentei usá-los,
mas nada funcionava... No momento em que eles apareceram eu fiquei apavorada e
depois que me prenderam foi como se meus poderes se esvaíssem. - Melody
observou as chamas por um tempo e então se levantou. - Temos que dar uma olhada
nos mapas. - Ela levou as duas mochilas até Éron e sentou-se ao lado dele, que
percebeu que a conversa estava acabada ali.
- Nana não queria que eu trouxesse tantos mapas,
insistiu que esse livro já teria tudo, mas está todo em branco. - Éron jogou o
livro para ela. - Eu disse isso mil vezes para ela, mas ela é mais teimosa do
que mula empacada.
- Pensei que ela tivesse colocado os mapas na bolsa. -
Melody o olhou intrigada e voltou sua atenção ao livro em branco.
- Ela colocou porque eu insisti. - Éron riu. - Também
tem mais um livro com contos, versos e histórias sobre o Vale que ela insistiu
em mandar.
- Eu não entendo por que a Nana mandaria um livro sem
nada. - Ela começou a vasculhar o livro todo, mas parecia que Éron estava
certo, não havia nada ali a não ser por uma pequena inscrição na contra capa.
Melody procurou a lanterna pois a luz da fogueira não era suficiente para que permitisse
a leitura. acendeu-a, fazendo com que as pequenas letras douradas brilhassem. -
Éron, veja isso.
- Melissa Farley. - Ele leu baixo. - Você conhece ela?
- Não faço a mínima ideia de quem seja. - Ela
aproximou o livro de si e sussurrou. - Melissa Farley, quem é você? - No
momento em que falava, seu amuleto tocou o livro que brilhou com uma luz
intensa; no momento seguinte as páginas do livro estavam preenchidas. Haviam
mapas, ilustrações, poemas e contos.
- Foi por isso que Nana disse que não precisávamos dos
mapas. - Ele disse analisando as páginas. - O livro por si só já é um mapa.
- Agora só precisamos descobrir onde estamos. - Com
essas palavras as folhas do livro começaram a se virar como se um vento as
houvesse soprado e pararam em um mapa com um pequeno pontinho vermelho. Melody
arfou. - Acho que essa é a nossa localização e pelo jeito estamos mesmo nos
limites do Clã do Sul. - O mapa era dividido por uma pequena linha que deveria
ser o rio; o ponto em que estavam era apenas denominado com a palavra “Sul”.
- Mas estamos bem longe dele, ele nem aparece no mapa.
- Éron começou a guardar novamente as coisas na mochila. - Acho melhor nós
dormirmos agora, amanhã veremos por onde começar.
Os dois ajeitaram seus sacos de dormir próximos a
fogueira. O céu estava limpo e parecia que não ia chover. Eles adormeceram
quase que imediatamente.
Quando Melody acordou o sol ainda estava nascendo. Éron
já havia desarrumado seu acampamento e estava sentado folheando o livro.
- Achou alguma coisa Éron?
- Apareceu uma gravura perto de onde estamos, parece
um castelo... Você já ouviu falar em algum castelo por aqui?
- Nenhum. - Melody respondeu enrolando o saco de dormir.
- É como se tivéssemos mudado de lugar enquanto
dormíamos.
- Ou ele apareceu enquanto dormíamos... Acho que
poderíamos começar por aí... É muito longe?
- Parece estar bem perto, mas primeiro vamos comer
alguma coisa. - Disse ele apontando algumas frutas a sua frente.
- Onde você conseguiu isso?
- Tem algumas arvores frutíferas aqui perto. - Ele
respondeu sorrindo.
Depois de comerem, os dois resolveram seguir a margem
do rio, pois parecia ser o modo mais rápido de chegar ao castelo. Eles
caminharam em silêncio, Melody se distraia olhando as árvores e os pequenos
animais, que os observavam de volta. Nunca estivera naquela parte da floresta,
mas sentia com se conhecesse cada pedrinha daquele lugar. Meia hora se passou
até que algo chamou sua atenção.
Eles estavam parados aos pés de um enorme castelo que
havia sido totalmente coberto por trepadeiras, flores e musgo. Uma escadaria
enorme, parcialmente destruída, subia até a entrada principal, uma porta de
mármore que parecia ser a única coisa intacta naquele lugar. As torres haviam
sido totalmente cobertas por espinhos de roseiras; havia pétalas de flores caídas
pelo chão, que pareciam exalar um perfume maravilhoso. Esquilos e pássaros passeavam
de um lado para o outro, e a luz do sol que batia no telhado, que refletia em
mil partículas coloridas. Contudo, o que mais chamava a atenção era o fato do
castelo estar dividido ao meio pelo rio. Um pedaço para o clã do sul e outro
para o clã do norte.
- Como é que isso ainda continua em pé? - Éron disse
encantado.
Melody se aproximou do castelo ao poucos; era como se
ele a estivesse chamando. Éron pediu para que ela não chegasse mais perto, mas
ela ignorou; estava em transe e assim que pisou no primeiro degrau da escadaria
a imagem a sua volta mudou. Ela estava agora em frente ao castelo em seus dias
de glória, o mármore polido refletia a luz do sol nas árvores e as flores que
se espalhavam ao redor dele; pessoas riam e conversam passeando por ali. No
lugar em que o rio dividia o castelo havia uma linda fonte onde uma jovem de
cabelos encaracolados estava sentada.
Melody não entendia por que, mas sentia que a
conhecia. Se aproximou dela; quando estava perto o suficiente pôde ver o
medalhão pendurado em seu pescoço, não era um medalhão qualquer era aquele que
havia ganhado de sua mãe. Enquanto tentava organizar tudo em sua cabeça para
ter certeza de que aquele era o mesmo que estava em seu pescoço, garota se se
virou. Melody arfou; seu rosto... Aquela garota era idêntica a Melody, a única
coisa que as diferenciava eram os cabelos encaracolados e negros. A garota
parecia encará-la.
- Quem é você? - Melody perguntou assustada e para a
sua surpresa a garota sorriu e respondeu.
- Sou Melissa, Melissa Farley. - Tudo ficou preto e
então ela estava novamente nas ruínas, Éron segurava seus ombros assustado.
- Você está bem?
- Estou... Acho que estou. - Ela respondeu olhando as
ruínas enquanto perguntas rodavam em sua cabeça.
Quem era Melissa Farley? Por que ela usava o seu
medalhão? E por que era tão parecida com ela? Por que sentia ter uma estranha
ligação com aquela garota?
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