Harry
não olhava para trás, não tinha coragem. Tudo o que conseguia fazer era correr
e correr. A criatura estava próxima. Podia sentir ela se aproximando cada vez
mais. Iriam morrer. Os três nunca mais sairiam daquela biblioteca.
Com
as varinhas em mãos, os três dobraram uma esquina e, ofegantes, trocaram
olhares de pavor.
-
O que nós vamos fazer? - Rony perguntou, tão medroso quanto sempre.
-
Eu vou distraí-lo. - Lilá disse.
-
E como você pretende fazer isso? - Harry duvidou.
Ela
entregou a varinha para Harry e disse: - Assim.
Então
ela iniciou a transformação. Seu rosto alongou, formando um focinho. Ela foi
ficando mais alta e os braços mais fortes. Segundos depois, um imenso lobo
andando nas patas traseiras e com feições humanas estava diante deles. Foi
então que Harry lembrou que durante a guerra contra Voldemort em Hogwarts, Lilá
fora atacada por Fenrir Grayback; por pouco a jovem não morreu, graças a
Hermione que a salvara no último minuto. Contudo, não a impediu de se
transformar em lobisomem. Outra coisa ocorreu a Harry: eles não estavam na lua
cheia, mas ainda assim ela conseguiu se transformar e como não estava atacando
os dois, devia estar consciente disso. Será que na lua cheia ela conseguia não
se transforar? Com todos os avanços mágicos, era bem capaz que conseguisse.
Pensou em Remo e como ele seria feliz sabendo que se transformaria a seu
prazer. Sentiu saudade do amigo.
Lilá
correu pelo corredor em direção ao monstro. Saltou com a boca escancarada,
pronta para atacar o pescoço da criatura. Lilá era quase tão grande quanto ele.
Uma
batalha feroz iniciou-se. Mordidas, arranhões e cortes profundos. A criatura e
a lobisomem em um combate animalesco e sangrento. Lilá, apesar do tamanho,
tinha uma desvantagem terrível. Ela conseguia defender-se dos braços longos, o
problema eram os braços menores que rasgavam sua barriga a cada oportunidade.
Harry tinha que ajudar... Não podia simplesmente fugir.
Ele
e Rony iam dar um jeito naqueles braços.
-
Temos que ajudá-la! - Rony disse determinado; em todos os anos de convivência
com o amigo, Harry nunca o vira falar que precisavam enfrentar um monstro
gigante e desconhecido para salvar alguém; nem mesmo Hermione.
-
Eu sei. Tenho um plano! - O Auror respondeu. - Siga-me.
Harry
foi por um corredor paralelo. Seu plano era chegar às costas da criatura; no
final daquele corredor, dobraram a esquerda, de volta ao corredor onde Lilá
gladiava ferozmente a criatura. Como calculara, estavam nas costas brancas do
monstro. O herói entregou a varinha de Lilá para Rony.
-
Use o feitiço Sectumsempra para
cortar e distrai-lo. Cuidado para não acertar a Lilá.
-
E você?
-
Vou destruir aqueles bracinhos.
Harry
voltou para o corredor paralelo. Pelos seus cálculos, assim que Rony iniciasse
o ataque à criatura olharia para ele, dando as costas para Harry. Vamos, Rony, agora, pensou. Como se ouvisse o pensamento do amigo, Harry ouviu
a voz dele:
-
Sectumsempra!
Rony
bradava as duas varinhas balançando-as no ar para fazer o feitiço. Harry
desatou a correr na direção dos monstros. A criatura soltou um urro de dor,
socou Lilá com força, lançando-a em direção a Harry, que com um salto para o
lado, desviou. O monstro virou para Rony, que fez uma careta de medo,
provavelmente arrependido do que acabara de fazer.
No
entanto, antes que a criatura corresse em direção ao amigo, Harry escorregou
por entre as pernas pálidas dele, apontou sua varinha para o bracinho direito
dele e disse:
-
Petrificus Totalus!
O
bracinho ficou tão duro quanto gelo.
Com
movimentos habilidosos de alguém que treinou anos para Auror, ele levantou e
girou, ficando de frente para o monstro.
-
Reducto!
O
braço desfez-se em centenas de pedaços. Um urro ainda mais alto ensurdeceu
Harry, que encarou Rony e mandou que corresse pelo corredor paralelo da
esquerda, enquanto ele corria pelo da direita. No instante que saíram do campo
de visão do monstro, Lilá já estava com os dentes cravados em seu pescoço.
Enquanto
corria, ele sentiu o chão molhado. Sangue do monstro. Tomou cuidado para não
escorregar. Chegando à esquina no final do corredor, puderam ver Lilá ainda nas
costas dele, arranhando-o e mordendo-o. A criatura, então, deu uma cotovelada
no estômago dela, agarrou-a pela cabeça e lançou-a em direção a Torre dos
Livros Ilegíveis. Pela primeira vez Harry pensou na possibilidade da criatura
ser dotada de inteligência, ou então, que estivesse sendo controlada por
alguém.
Ele
trocou olhares com Rony, que estava tão desesperado como sempre. Harry ainda se
perguntava como o amigo havia sobrevivido todos aqueles anos como Auror ou até
mesmo durante a guerra. Felizmente, ele já tinha um plano.
-
Dê-me a varinha dela. - O Potter pediu e Rony entregou. - Preciso que use o Petrificus Totalus no outro bracinho
dele. - Acrescentou enquanto corriam na direção dele.
-
Como?
-
Escorregue pelo chão, entre as pernas dele enquanto eu o distraio. Agora!
Rony
fez como ele mandou. O monstro virou-se para os dois e viu Rony indo a sua
direção, provavelmente já imaginando o plano. Quando Rony estava ao alcance do
braço grande dele, Harry, quando viu que ele levava o braço em direção ao
amigo, gritou:
-
Sectumsempra! - Um rugido indicou que
o feitiço fora perfeitamente eficaz; a pata dele sangrava.
O
bracinho esquerdo dele estava petrificado. Era a vez de Harry.
O
herói correu o mais rápido que suas pernas permitiram. As duas varinhas em
mãos. Então escorregou por entre as patas dele, todavia, como imaginou, ele
agarrou-o com uma das patas e prendeu-o ao chão. Ele mirou a varinha da
esquerda no bracinho e a da direita em uma estante próxima e disse:
-
Reducto!
O
bracinho explodiu em centenas de pedaços e toneladas de livros caíram sobre os
dois. O plano dele funcionou exatamente como queria.
Enquanto
os livros caiam em volta dele, Harry pensou na esposa Gina, de quem tanto
sentia saudade. Quem será que havia de levá-la? Por quê? Será que ela era
importante de alguma forma? E Lilian... Será que sua menininha estava bem? Ele
tinha que salvá-las. Mas não se morresse ali. Como imaginou, Rony iria
ajudá-lo. Ouviu-o gritar:
-
Carpe Retractum!
Uma
corda de luz saiu da ponta da varinha de Rony, prendeu Harry pelas axilas e
arrastou para fora dos livros caindo.
-
Valeu. - Disse ao amigo enquanto levantava.
Ele
sorriu em resposta.
-
Está morto? - Lilá disse se aproximando deles na forma humana.
Quando
o herói tornou os olhos a ela, viu que estava nua, todavia ela não parecia se
importar, como se ficasse nua na frente dos outros com bastante frequência.
Harry desviou os olhos, sabia que Gina não ia gostar nem um pouco que ele
ficasse olhando para outras mulheres nuas. Notou que Rony não tirava os olhos
dela, ou melhor, dos seios dela. Antes que ele perdesse a cabeça, Harry
conjurou uma túnica lilás que a cobriu totalmente.
-
Obrigada. - Ela respondeu.
Um
barulho vindo dos livros chamou a atenção dos três mais do que a nudez dela.
-
Ele ainda está vivo. - Rony, que estava vermelho como um pimentão, disse o
óbvio.
-
Nós destruímos os dois braços extras dele. - O Potter informou. - Ele não tem
mais essa vantagem sobre você.
-
Mas o que é aquilo? - Rony indagou.
-
É um Wendigo peludo. - Lilá explicou. - São criaturas que viveram nas florestas
geladas dos Estados Unidos e do Canadá. Eles são parentes do Wendigo quente,
que moraram próximos à linha do Equador, na América Central e do Sul.
-
Um Wendigo? Achei que estavam extintos! - Harry respondeu incrédulo.
-
E estão. - Ela retrucou.
-
Acho que não! - Harry replicou.
Rony
apontou para a pilha de livros, que estava aos poucos sendo deslocado para os
lados. Lilá tirou a túnica e virou lobisomem, mas não antes de Rony dar uma boa
checada no corpo dela. Harry teria uma conversa bem longa com o amigo mais
tarde.
O
Wendigo estava finalmente livre dos livros. O corpo dele estava machucado e ele
sangrava muito pelos tocos dos bracinhos e pelos cortes dos Sectumsempra de Harry e de Rony; não
podia ter certeza, mas pela posição do braço dele, ele estava com o braço
esquerdo deslocado. Lilá, então, atacou sem dó.
A
criatura estava fraca demais para revidar e simplesmente deixou que Lilá
mordesse seu pescoço. Devido ao movimento da corrida e do salto, ela acabou
quebrando o pescoço do Wendigo. Um baque surdo indicou que ele caíra sem vida
sobre os livros.
Lilá
voltou até eles e, quando estava próxima, voltou à forma humana. Harry deu um
soco em Rony, que virou a cara imediatamente, para que ele não visse a garota
nua novamente. Harry simplesmente desviou o olhar em respeito à esposa
desaparecida.
-
Vamos indo. - Ela falou enquanto colocava a túnica. - Temos que contar o que
aconteceu aqui ao Ministro Kingsley.
-
Não acha melhor primeiro curarmos suas feridas? - Rony perguntou.
-
Não se preocupe, Uon-Uon, já tive
machucados piores.
Os
três, cansados, suados e, no caso de Lilá, sangrando e vestindo apenas uma
túnica lilás, foram em direção à saída da Casa do Conhecimento e, sem serem
interrompidos, foram direto à sala do Ministro da Magia.
Os
três, Harry, Rony e Lilá, entraram na sala do Ministro Shacklebolt sem bater e
com Luna, sua secretária, atrás. Shacklebolt fora escolhido Ministro depois da
guerra contra Voldemort. Desde então, há dezenove anos, ele vem exercendo muito
bem o cargo. Ele levantou os olhos, e olhou para os três bruxos diante de si e
disse imediatamente:
-
Mande chamar Hilda e Baltazar. Preciso deles aqui imediatamente.
-
Sim, senhor. - Ela respondeu de prontidão.
-
Então, senhores, querem-me dizer o que aconteceu.
-
Muitas coisas, Ministro, mas a mais recente foi essa. - Harry jogou o livro da
Triskelium sobre a mesa.
-
O Wendigo peludo. - Shacklebolt disse; ele já sabia. - Quem abriu o livro?
Rony
levantou envergonhadamente uma das mãos.
-
Imaginei. Esse livro está muito bem protegido há séculos. Ninguém sabe sobre
ele a não ser os Ministros e as bibliotecárias da Casa do Conhecimento.
-
Há uma forma de abri-lo? - Harry perguntou.
-
Não sei. - Ele respondeu simplesmente.
Luna
entrou novamente na sala, interrompendo a conversa. Baltazar e Hilda, uma
mulher corpulenta, de cabelos curtos e tingidos de vinho - por alguma razão, a
mulher lembrava o seu falecido tio Dursley de peruca -, logo atrás dela.
-
Eu acho que você deve conhecê-los, não? - Shacklebolt perguntou.
-
Sim. - Harry respondeu. - É difícil não conhecer os dois. Afinal, os dois
descendem dos quatro, não?
-
Certo, conte-me o que aconteceu. - O Ministro disse por fim.
Harry
então relatou os acontecimentos desde a morte daquele garoto trouxa até a razão
que os levou até a Casa do Conhecimento. Narrou a luta contra o Wendigo e como
Lilá se machucara. Obviamente, ele sabia que ela era uma Lobisomem.
-
Não sabemos quem matou o garoto, ou quem esvaziou Azkaban. Nossas únicas pistas
são Lucius e esse livro. - Shacklebolt resumiu a situação deles.
-
Exato.
-
Hilda, como está Lucius?
-
Se recuperando. Anos naquela prisão são destrutíveis demais. Não importa o
bruxo, é certo que você enlouquecerá ali. - A mulher respondeu.
-
Quanto tempo levará para que ele fique são? - Harry perguntou.
-
Algumas horas.
-
Você conseguiu combater os efeitos de dezenove anos de prisão em algumas horas?
- O Auror estava estupefato.
-
Eu sou Hilda Hufflepuff, descendente de Helga Hufflepuff. Então sim, eu possuo
sim poder para fazer isso. - Ela sentiu-se insultada pela pergunta do rapaz. -
Minha família praticamente inventou a herbologia.
-
Desculpe-me. - Ele disse.
-
Com sua permissão, Ministro, voltarei ao meu trabalho.
-
Sim. Assim que ele voltar aos sentidos, mande-me chamar e a Harry.
-
Sim, senhor. - E saiu.
-
Baltazar. - Shacklebolt virou-se para o homem de cabelos cinza. - Preciso que
reúna alguns Aurores e dê um jeito no corpo do Wendigo na Casa do Conhecimento.
Não se esqueça de retirar a maior quantidade de sangue dele que conseguir.
-
E para que? - Baltazar perguntou.
-
É um elemento mágico raríssimo. E sinto que precisaremos dele mais tarde.
Harry
preferiu não questionar o Ministro; ele conhecia a lenda de que o sangue de
Wendigo poderia prolongar o efeito de qualquer poção, podendo deixar seu efeito
vitalício. Exatamente por isso que eles foram caçados até a extinção. Se você
colocar o sangue em uma poção de rejuvenescimento, você poderia até tornar-se
imortal.
-
Senhor Potter, volte para sua casa e descanse...
Harry
não o deixou terminar:
-
Não! - Vociferou. - Minha esposa está desaparecida e você quer que eu vá para
casa dormir? Eu preciso encontrá-la!
-
Mas como você mesmo disse, não temos pistas.
-
Temos Lucius! - O Auror retrucou.
-
Ele não estará bem para responder suas perguntas por algumas horas.
-
Estarei em minha sala, me preparando! - Deu as costas para o Ministro; Rony
seguiu-o.
Esse
rapaz... Se ele não fosse o herói de nosso mundo, com certeza eu o mataria aqui
mesmo, o Ministro Shacklebolt pensou.
Harry
entrou bufando em sua sala. Se fosse a esposa do ministro que fosse sequestrada
ele iria sentir na pele. Assim que Rony passou, bateu a porta. Sua sala era um
ambiente oval. Havia uma janela de frente para porta, em que cortinas vinho com
detalhes dourados impediam a luz direta do sol. As paredes tinham prateleiras
que sustentavam diversos livros, nada muito raro, apenas livros sobre magia; a
maioria deles eram os que Harry usou em seus anos em Hogwarts. Havia uma porta à
esquerda; um pequeno banheiro para os dias em que ele precisava trabalhar até
mais tarde. Dentro dele, havia um pequeno armário com roupas para qualquer
emergência.
-
Vou tomar banho. Fique a vontade, Rony.
Harry
entrou pela porta.
Sozinho,
Rony olhou os livros que estavam ali. Não era muito fã de leitura, mas desde
que começara sua carreira como Auror, ler era cada vez mais importante. A
quantidade de informações que os antepassados passavam para as próximas
gerações era impressionante. Mesmo nascendo em uma família de bruxos, as coisas
que eles eram capazes de fazer ainda tiravam o folego dele.
Harry
encontrou Rony fitando um livro em sua prateleira. Era o livro de poções do
Príncipe Mestiço. Estava diferente de quando, anos atrás, ele encontrou o livro
pela primeira vez. Ele tinha as bordas chamuscadas.
-
Quando foi que você recuperou isso?
-
Logo após nossa batalha contra Voldemort. Eu voltei a Sala Precisa, e uma das
poucas coisas que sobreviveram ao fogo foi esse livro.
Algo
passou na mente de Harry: ele não parecia estar preocupado com Hermione. Havia
algo de errado com ele. O jeito que ele falara com Lilá, as iniciativas que
tomou e o ar despreocupado em relação à esposa e irmã desparecidas. Aquele não
era o Ronald que Harry conhecia há anos.
-
Rony, você se lembra de como foi que nos conhecemos?
-
É claro. Foi no Expresso Hogwarts. Eu estava em uma cabina e você entrou e
comprou todos aqueles doces para mim. - Respondeu sem hesitar. - Mas, por que a
pergunta?
-
Nada. - Apesar de ser útil perguntar coisas que só os dois lembrariam, ainda
não era uma estratégia infalível.
De
repente, Ted entrou com tudo na sala. Tinha um olhar furioso, como se quisesse
socar Harry até suas seus ossos da mão quebrarem. Seu cabelo estava vermelho
como fogo, um indício de que realmente estava muito, muito irritado mesmo.
-
Rony - Ele se virou ao velho amigo. -, será que nos pode dar licença. Acho que
vamos ter uma longa conversa aqui.
-
Mas é claro! - O Weasley levantou e saiu da sala sem dizer mais nada.
-
Sente-se, Ted.
-
O que você fez com o Espelho?
-
Desculpe que espelho?
-
Você sabe muito bem de que espelho eu estou falando, padrinho! Você o comprou.
-
Ah sim. Esse espelho.
Harry
observava o afilhado e, por alguma razão, sempre via Remo e Ninphadora Tonks
atrás dele, como se o protegendo. Era como se Ted os tivesse invocado usando a
Pedra de Ressurreição. Harry respirou fundo e, apesar de tudo que estava
acontecendo, precisava ter aquela conversa com o afilhado, afinal o Auror
conhecia os poderes do Espelho de Ojesed; já fora tentado por ele e sabia os
motivos de Ted querê-lo. Foi exatamente esse o motivo que fez com que Harry
adquirisse-o. Livrar seu afilhado do sofrimento que ele poderia causar.
-
Ted, sente-se. - O Potter soou o mais compreensivo possível. - Vamos conversar
sobre o Espelho.
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