O tronco do carvalho era todo
gravado, como se fosse um livro a céu aberto. Ela se aproximou e as palavras
brilharam. A marca de uma mão brilhou e Melody colocou a sua sobre ela. Fechou
os olhos e sentiu os batimentos do carvalho.
“Isso é impossível”, ela pensou.
“Nada é impossível, Melody”, uma
voz masculina disse em sua mente. A voz parecia milenar.
“Isso é mesmo real?”
“Tão real, quanto você.”, a voz pareceu
sorrir. “Eu te esperei por muito tempo, sabe? Eu soube que você viria antes
mesmo de nascer.”
“Quem é você?”
A Voz riu em sua cabeça.
“Eu sou a vida do Vale, Melody”.
“A vida do Vale?”
“Acho que você não tem muito
tempo para explicações, mocinha.”
Melody suspirou. Havia tanto o
que gostaria de perguntar. Tinha tantas dúvidas que nem sabia por qual começar.
“Eu preciso salvar o Vale”
“Você precisa... Hum... Você
precisa ou quer salvá-lo?”
“Eu... Eu quero salvá-lo... Mais
do que tudo.”
“Você é realmente uma garota
corajosa. Sabe Melody, eu venho te observando desde que nasceu.”
Imagens invadiram a mente de
Melody, ela se viu ainda bebê nos braços dos pais e foi crescendo aos poucos.
Ela viu toda a sua vida em apenas alguns segundos.
“Toda a história e todos os
segredos do Vale estão em mim, como marcações em minha casca... Mas há algum
tempo venho adoecendo, eu e o Vale estamos morrendo.”
“Eu quero ajudar.”
“Eu sei disso, minha querida,
esperei por muito tempo que você chegasse até mim. Está pronta?”
“Sim, eu estou.” Melody pensou,
sem hesitar.
“Espero que aceite os riscos.”
Mais uma vez, a mente de Melody
foi invadida por imagens, mas agora ela se via junto de Éron. Eles caminhavam
pela mata, lado a lado. Viu-se no Clã do Sul, rodeada pelas pessoas que amava.
Conversava com Ana a luz da fogueira. Depois disso, tudo escureceu.
Ouviu Éron gritando e pessoas
chorando. Aquilo a agoniava. Viu Éron a carregando no colo. Então ela mergulhou
num lago. Via a luz na superfície, mas a água a arrastava para baixo. Assim que
tocou o fundo, uma luz muito forte a cegou.
Melody voltou a si, ofegante,
encostou a cabeça no tronco da árvore e tentou colocar tudo o que vira em
ordem.
“Você entende o que é preciso,
minha menina?” A voz soou em sua cabeça.
“Sim. Eu entendo”.
“Está disposta a tudo?”
“Estou.”
“Eu não esperaria outra resposta
vinda de você. Agora que já sabe o que fazer, será preciso ir até o seu Clã. Lá,
encontrará respostas sobre o lago.” A voz riu. “Acredito que você possa encontrá-lo
mais fácil do que imagina. Agora, acredito que deva seguir o seu caminho.”
“Sim, eu preciso segui-lo.”
“Precisar e querer são coisas
muito diferentes, minha querida. Para nos salvar, é preciso querer. É preciso
desejar com todo seu coração.”
“E eu desejo... Eu quero salvar o
Vale.”
“Isso me alegra. Antes de ir,
quero dar lhe minha benção.”
“Sua benção?”
“Não sou mais tão forte quanto
antes, mas acredito que ainda posso fazer isso.” Ele suspirou. “Irei ajudá-los
a sair daqui bem. Darei um jeito de afastar as criaturas.”
“Obrigada” Melody murmurou.
“Espero que logo, eu possa lhe
dizer obrigado. Agora vá!”
Melody abriu os olhos e o
carvalho parecia apenas uma árvore qualquer, apenas muito grande.
- Eu vou salvá-lo. Prometo.
Ela se virou e correu em direção
aos amigos que pareciam em apuros. Tentava se soltar de uma das criaturas do
lago quando o carvalho começou a brilhar. O brilho era tão intenso que fez as
criaturas fugirem. Melody olhou por um instante para aquilo e então voltou a
correr. Ajudou Éron a se levantar e foi em direção a Aaron.
- Precisamos sair daqui, rápido. -
Ela gritou. - Ele não vai conseguir contê-los por muito tempo.
- Venham, subam. - Aaron disse ao
se aproximarem. Ele os jogou em suas costas e começou a galopar o mais rápido
que podia. Anila o acompanhava.
Eles conseguiram chegar ao bosque
das fadas antes que a luz finalmente se apagasse. Melody se agarrara a Aaron e
Éron se agarrava ela. Quando ele finalmente parou, eles desceram e Éron desabou
no chão.
- O que foi aquilo? - Ele
perguntou.
- O Vale nos deu uma forcinha.
- Ele não poderia ter feito isso
um pouco antes? - Ele resmungou.
- Éron!
- O que foi? Só perguntei...
Desculpa.
Melody ignorou Éron e foi até
Aaron, que olhava triste para o lugar de onde vieram.
- Eu nem sei dizer o quão
corajoso você foi e nem sei como te agradecer... Muito, muito obrigada. - Ela disse.
- Eu fiz o que deveria fazer. Não
poderia deixá-los morrer.
- Eu vou fazer de tudo para
salvá-los. Eu te prometo. - Aaron pareceu sorrir.
- Eu acredito em você.
Melody e Éron decidiram descansar
por ali. Aaron pediu que as fadas lhes providenciassem comida para a viagem.
Anila corria e tentava pegá-las a todo o momento. Melody lhes contou o que vira
e que deveriam ir para o Clã do Sul, mas deixou de lado a última parte. Depois
de estarem descansados, eles resolveram seguir o caminho. Aaron os levou até
onde podia.
- Obrigada, Aaron. Mais uma vez. -
Melody disse, beijando a bochecha do centauro antes de descer.
- Eu que te agradeço... Você me
trouxe uma esperança que eu não tinha há anos. - Aaron sorriu e olhou para
Éron. - Cuide bem dela.
- Vou cuidar.
- Eu lhes desejo sorte, amigos. -
Dizendo isso, ele se virou junto com Anila e voltou para a floresta.
Éron estendeu a mão para Melody e
eles caminharam por um tempo assim. Então ele a puxou para seus braços e disse:
- Quando tudo isso acabar, eu. Eu
quero ficar com você.
- Éron, eu...
- Eu não me importo com o que
tivermos que passar. - Ele sussurrou. - Eu vou fazer o que puder para
protegê-la. Só quero ter a certeza de que você vai ficar comigo no final de
tudo isso.
- Você não acha que está muito
cedo para decidir isso? Você nem me conhece direito.
- Eu te conheço o suficiente. Eu
vi tudo o que você viu e senti toda a sua agonia. Nós dois quase morremos
juntos. - Ele suspirou. - Não me diga que é errado já te querer tanto quanto eu
te quero. Não me diga para não sentir o que eu já sinto.
- Éron...
- Só me diga que você também quer
ficar comigo. - Ele sorriu. - Mesmo que isso pareça loucura. Eu quero ficar com
você e quero te conhecer a cada dia mais.
Ele segurou o rosto dela com as
duas mãos e a fez olhá-lo nos olhos.
- Não negue o que eu vejo em seu
olhar.
- Eu nunca neguei isso. - Melody
disse sorrindo, e então o beijou. O tempo pareceu parar e não havia mais
problemas, podia ser loucura, mas se sentia segura nos braços dele. Esqueceu-se
de seu destino e de tudo. Pelo menos uma vez na vida. Ela se sentia completa e
aproveitaria isso pelo tempo que lhe restava.
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