O Vale de Lótus - Capítulo 13: O Grande Carvalho da Sabedoria

- Uma descendente de Melissa. - Ele disse andando em volta de Melody. - Finalmente a criança voltou a sua linhagem original.
- Linhagem original? - Melody perguntou.
Niank a olhou como se visse sua vida toda e o futuro também. O velho duende era sábio e Melody tinha certeza de que era exatamente isso que ele via. Ele via sua alma e por mais assustador que isso fosse... Melody não conseguia ter medo dele.
- Quando a vida de Melissa foi interrompida... A linhagem da criança também foi. Ainda não era hora de outra criança e assim ela nasceu aleatoriamente e a linhagem ficou confusa. Você é a primeira descendente de Melissa que nasceu com a marca. - Niank disse suavemente. - Mas vocês vieram aqui por outro motivo e não pela linhagem.
- Nó precisamos encontrar o grande carvalho... Acho que assim vou descobrir como salvar o Vale. - Éron disse.
- Você sabe o que aconteceu na última vez que um de vocês veio aqui?
- Felix o envenenou.
- Sim e desde então o Vale vem morrendo. - Niank olhou para a escuridão atrás dele. - Eu tento conter a contaminação, mas logo a magia do Vale morrera e ele desparecera com ela.
- Nó queremos ajudar. - Melody disse. - Queremos salvar o Vale.
- Você me parece verdadeira humana. - Ele suspirou. - Antes de decidir se vocês podem ou não seguir em frente, gostaria de conversar com você.
Niank se virou e Aaron fez sinal para que Melody o seguisse. Melody hesitou e então foi atrás do duende. Niank andou um pouco e parou em frente a uma árvore negra.
- Entre. - Disse ele, apontando para o tronco. Melody o olhou intrigada. Niank sorriu. - Acho melhor eu ir primeiro. - Ele se virou e desapareceu no interior da árvore, Melody o seguiu sem questionar.
O interior da árvore era bem maior do que imaginava, mas ainda assim era pequeno. Niank havia sentando-se em um banquinho e apontou para outro a sua frente.
- Seu amigo disse que vocês querem salvar o Vale. - Niank disse sereno. - Acho que ele tem um motivo maior para querer isso, mas por que você quer isso? - Melody o olhou por um instante, tentando formatar um resposta, por fim disse.
- Melissa morreu por isso... Ela morreria mil vezes por amor e pelo seu povo. - Melody olhou para as mãos. - Eu nunca gostei dessa divisão, das pessoas tristes e do tempo escuro. Quero salvar o Vale e todos que nele habitam... Eu quero libertar as criaturas dessa contaminação... Desse veneno.
- Você está disposta a tudo por isso?
- Farei tudo para que meu povo se liberte... Farei de tudo para destruir Felix.
Um sorriso brotou no rosto de Niank.
- Você é determinada, gosto disso. Eu permitirei que vocês cheguem ao carvalho, mas não poderei protege-los. As criaturas não ultrapassam a escuridão, mas daquele lado elas são selvagens e donas de si.
- Aaron já havia nos falado sobre isso.
- E tem mais um coisa. - Ele olhou sério para a garota. - Apenas você poderá atravessar o lago do carvalho... Seu amigo poderá ir junto, mas ficará do outro lado da margem.
- Mas por que isso?
- O carvalho se revela para uma pessoa ou criatura por vez. Enquanto vocês estiver lá, nada te atingirá.
- E Éron?
- Ele terá que se virar. - Melody o olhou desesperada. - Eu sei que isso a assusta e eu queria poder ajuda-los, mas eu sou o protetor e não posso sair de meu posto.
- Eu entendo.
- Espero que consiga encontrar as respostar que precisa, mas devo alerta-la de que tem um caminho muito mais difícil do que imagina. Você está mesmo disposta a encara-lo?
O modo como Niank falou assustou Melody, por um instante ela pensou se estaria fazendo a coisa certa. Se valeria a pena fazer tudo aquilo. Então lembrou de sua família, de Nana, de Éron e o principal: Felix. Ela precisava detê-lo ou ele iria acabar com o Vale.
- Estou disposta a tudo. - Ela respondeu.
- Você tem a minha permissão querida. Acho melhor ir logo. - Niank sorriu e no instante seguinte ela estava de volta junto de Aaron de Éron. Os dois a olhavam assombrados.
- E então? - Éron perguntou.
- Temos a permissão. - Melody contou-lhes o que Niank havia lhe falado. Então olhou para Aaron, o centauro olhava triste para a escuridão. - Muito obrigada por nos trazer aqui Aaron, eu sei o quanto deve ser doloroso para você.
- Eu precisava ajuda-los... Sinto muito por não... Por não...
- Não sinta. - Éron falou. - Você já fez muito e isso deve ter sido muito difícil para você.
O centauro os olhou e então galopou para longe, voltou alguns segundos depois com uma espada nas mãos.
- Acho que vocês vão precisar de algo para se defender. - Ele disse entregando a arma a Éron.
- Onde foi que você pegou isso?
- Muitas armas foram perdidas aqui, muitos tentaram lutar com as criaturas. Essa estava encravada em um tronco de árvore. - Ele suspirou. - Eu sabia que ela estava lá porque era minha.
- Aaron... - Melody a mão sobre a boca, entendo o que ele queria dizer.
- Eu tentei resgatar minha família, mas quando cheguei ali... Meu irmão me atacou, eu lutei com ele. Mas não consegui tira-lo de lá, então desisti e a cravei naquele lugar.
- Eu sinto muito.
- Está tudo bem agora Melody, espero que você possa salva-los. - Ele disse forçando um sorriso. - Acho que agora vocês devem ir.
Aaron se virou e Anila o seguiu olhando triste para trás. Éron ajeitou a espada na mão direita e estendeu a esquerda para Melody.
- Estamos juntos não é?
- Sim. - Ela disse segurando a mão de Éron. - Mas o que você vai fazer enquanto eu estiver no carvalho? - Éron lhe deu um sorriso torto.
- Não se preocupe comigo... Eu me viro. Só precisamos fazer com que você chegue bem ao carvalho.
Melody concordou e os dois seguiram juntos para dentro da escuridão. Eles andaram por uns dez minutos sem que nada os incomodasse. Não havia sons, não havia nada além dos passos dos dois ecoando pelo escuro. Melody estava tão nervosa que sentia que podia ouvir seu coração batendo.
Logo eles avistaram um frondoso carvalho, mas ele era negro como o carvão e tão alto que não se podia ver a copa. Ele estava no meio de uma ilhazinha cercada por um lago negro, apenas uma ponte de cordas levava em direção a ele.
- Isso está errado. - Melody sussurrou. - Não devia ser tão fácil.
- Vamos tentar no aproximar, mas fique de olho em tudo. - Melody concordou, mas antes que descem um passo, uma voz cortou o ar.
- Eu não iria tão rápido se eu fosse vocês. - Melody congelou, sentiu o coração batendo mais rápido. Ouviu cascos trotando e logo eles estavam cercados por centauros armados e de aparência assustadora. Todos tinham os olhos vermelhos e vidrados, como se tivessem sido hipnotizados. - Eu e meus irmãos esperamos por muito tempo que alguém entrasse em nosso território... Por que não ficam para comemorar conosco?
Melody virou para trás e encarou o centauro que falava. Soube que ele era o irmão de Aaron assim que o viu, era a cópia do irmão. Éron rapidamente se pós atrás dela de costas.
- Você tem algum poder que possa deter eles? - Ele perguntou.
- Eu posso atrasa-los e distrai-los, mas não vou conseguir por muito tempo.
- Assim que você perceber uma oportunidade... Corra.
- Mas e você?
- Não olhe para trás.
- Mas e você?
- Eu vou ficar bem. - Ele disse apertando-lhe a mão.
Os centauros começaram a se aproximar devagar. Melody se preparou e sentiu Éron se posicionando atrás dela. Não havia como os dois conseguirem escapar e mesmo se Melody chegasse ao carvalho, o que seria de Éron? Não havia saída, mas ainda assim ela lutaria.
Melody se concentrou no vento e conseguiu fazer com que alguns dos centauros recuassem. Éron gritou e ela ouvi ele brandindo a espada. Não podia olhar para ele, mas esperava que estive indo bem. Um centauro correu e se aproximou o bastante para agarrar-lhe o braço. Melody fez com que ervas daninhas subissem pelos seus cascos.
Ele gritou e a soltou, em questão de segundos ele estava todo coberto pelas ervas. Ela ainda ouvia Éron lutando e isso a deixava aliviada. Ele ainda estava vivo. Melody criava pequenos tufões e fazia as ervas se agarrarem aos centauros, mas quanto mais deles ficavam fora de combate, mais surgiam. Parecia não haver fim. Ela já estava cansada e sentia seus poderes se esgotando, se eles se esgotassem... Bem ela não queria pensar nisso.
Estava prestes a cair quando ouviu o grito de Éron. Ela se virou desesperada e o viu sendo contido por dois centauros, ela tentou correr até ele. Mas outro centauro a agarrou, ela gritou e tentou se soltar... Nada adiantou.
Olhou para Éron desesperada e viu nos olhos dele... Eles haviam perdido.
Houve um ruído no meio da floresta, mais deles estavam vindo. Melody não se conteve e começou a chorar, foi quando algo irrompeu do meio da mata. Um centauro negro gritando e acompanhado de um unicórnio branco.
- Aaron.
Ele brandia a espada, derrubando mais e mais centauros. Anila correu até ela e se colocou de modo protetor a sua frente..
- Anila leve Melody até a ponte. - Aaron gritou enquanto derrubava os dois centauros que haviam capturado Éron.
- Mas e vocês? - Ela gritou.
- Nós vamos ficar bem... Vá logo. - Éron gritou.
O lago não estava tão longe, mas mesmo assim Melody montou em Anila. A unicórnio era muito rápida e contornava qualquer um que se colocasse a frente delas. O lago negro deu arrepios em Melody, mas ela desceu de Anila e deu o primeiro passo na ponte. Ela parecia segura.
- É bom você correr menina. - Aaron gritou. Melody não hesitou e começou a correr.
Sentiu algo agarrando seu calcanhar e caiu na ponte. Quando olhou para trás viu uma ninfa de aparência esverdeada a segurando. Seus olhos pareciam pedir socorro. Melody olhou para o lago e mais criatura brotavam de lá. Ela chutou a ninfa e saiu correndo.
Foi agarrada mais duas ou três vezes, mas ela conseguira se soltar. A ponte era curta e quando pisou na ilha, tudo ao redor escureceu. Não conseguia ver o que acontecia atrás de si, podia ouvir Éron e Aaron lutando, até mesmo Alina relinchando. Mas não via nada.
Olhou para o carvalho e seguiu em frente.
- Eles vão ficar bem, Melody. - Disse a si mesma.
O tronco do carvalho era todo gravado como se fosse um livro a céu aberto. Ela se aproximou e as palavras brilharam. A marca de uma mão apareceu e Melody colocou a sua em cima dela. Fechou os olhos e sentiu os batimentos do carvalho.
“Isso é impossível” , ela pensou.
“Nada é impossível Melody”, uma voz masculina disse em sua mente. A voz parecia milenar.
“Isso é mesmo real?”
“Tão real, quanto você.”, a voz pareceu sorrir. “Eu te esperei por muito tempo, sabe? Eu soube que você viria antes mesmo de nascer.”
“Quem é você?”
A Voz riu em sua cabeça.

“Eu sou a vida do Vale, Melody.”

About Leandro Zapata

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