O
centauro pensou por um instante e viu o olhar fascinado de Melody para os
outros seres. Ele sorriu e então disse:
-
Eu vou ajudá-los a encontrar o carvalho, mas não posso ajudá-los a enfrentar os
desafios que encontrarão por ali.
Eles
haviam encontrado um aliado e Melody estava feliz por isso, mas o modo como
Aaron falara dos desafios a assustou. O que encontrariam por lá? Quais seriam
esses desafios?
-
Obrigada, Aaron. - Melody sussurrou.
-
Você tem uma aura especial, humana, você atraiu todos os serres para cá. -
Aaron sorriu. - Não sabe o trabalho que me deu para fazê-los ficarem longe.
-
Mas um deles não obedeceu. - Éron disse, rindo.
-
Anila tem, digamos... Um espírito livre, ainda é muito jovem e curiosa. Não tem
como contê-la. - Aaron olhou para o lado. - E falando nela...
Melody
viu ao longe o vulto prateado que parecia estar apenas pastando, mas ela
percebeu que o unicórnio ia se aproximando aos pouquinhos, como se não quisesse
ser notada.
-
Ela pensa que me engana fazendo isso. - Aaron disse. - Às vezes eu a deixo
acreditar nisso.
Depois
de algum tempo, eles se acomodaram em torno da fogueira, enquanto Anila se
aproximava devagar. Aaron lhes contou que depois de Felix envenenar o carvalho,
as criaturas começaram a fugir para lá. A magia no Vale estava enfraquecendo e
muitos deles acabaram morrendo antes de chegar ali. Aaron se tornou o protetor
do local, mas o carvalho também tinha seu próprio protetor desde então.
-
Nós nunca desconfiamos dos humanos, eles sempre procuravam o carvalho em
momentos difíceis... Eles buscavam ajuda e sabedoria, por isso não havia um
protetor para o carvalho. Sua espécie nunca desrespeitou o local. - Ele
suspirou e olhou para Anila, que agora estava há alguns passos dali. - Eu vi
que aquele humano era diferente e tentei impedi-lo, mas ele foi mais rápido.
Aaron
colocou a mão em um ponto do abdômen, ele olhou triste para o fogo e quando
tirou à mão, Melody pôde ver uma cicatriz enorme.
-
Eu sinto muito por isso. - Ela disse.
-
Espero que vocês dois estejam falando a verdade, e que possam salvar o Vale...
É por isso que vou ajudá-los, mas terão que convencer Niank.
-
Niank tem haver com os desafios dos quais falou?
-
Talvez. - Aaron ponderou. - Se ele estiver de mal humor. Mas com todo o veneno
que há ali, muitas criaturas se tornaram sombrias... Como mortos-vivos. E eles
farão de tudo para matá-los.
-
Mortos vivos? - Éron perguntou assustado.
-
Logo no começo, muitas criaturas não sabiam do veneno e tomaram da água que
circunda o carvalho... Ela costumava ser curativa e muitos vinham de longe para
bebê-la, até mesmo os humanos. Mas depois que o carvalho adoeceu... Bem, ela
começou a fazer mal. Muitas criaturas e humanos morreram ao bebê-la, outros
começaram a escurecer... Suas auras escureceram e eles vagam por ali.
-
Teremos de enfrentá-los para poder chegar ao carvalho, então?
-
Primeiro vocês falaram com Niank, as criaturas o respeitam... Até mesmo as
sombrias.
Melody
sentiu um bafo quente em seu pescoço. Não havia percebido, mas Anila havia
desviado Aaron e estava se deitando ao seu lado.
-
Você não tem jeito mesmo. - Aaron falou, sorrindo.
Anila
relinchou como se debochasse de Aaron, então se ajeitou e colocou a cabeça no
colo de Melody. Ela era ligeiramente menor que um cavalo normal, como se fosse
um potro um pouco crescido. Aaron havia dito que ela era muito jovem. O único
chifre cintilava a luz da fogueira e os olhos dourados aos poucos foram se
fechando
-
Parece que Anila gostou mesmo de você.
-
É, eu acho que sim. - Melody passou a mão no focinho dela. E ficou observando
sua nova amiga por um tempo, até que Éron quebrou o silêncio.
-
Você disse que não pode nos ajudar a enfrentar os desafios, mas os desafios são
apenas as criaturas sombrias ou há mais coisas?
-
Você diz “apenas”, como se isso já não fosse o bastante. - Aaron bufou. - Há
fadas, unicórnios, duendes e muitas outras criaturas que ficaram sombrias, mas
elas não me preocupam muito...
-
Tem alguma criatura mais poderosa que essas?
-
Os centauros. - Aaron disse, sombrio. - Nosso povo vivia ao redor do carvalho e
fomos os primeiros atingidos pelo envenenamento... Meus irmãos... Minha
família...
-
Só sobrou você. - Éron deduziu e Aaron concordou.
-
Eu tenho esperanças de que quando salvarem o Vale... De que eles possam voltar
a ser o que eram. Eu não posso ajudá-los, pois não posso lutar contra os meus
irmãos.
Aaron
parecia prestes a desmoronar, Melody pensava em como seria perder tudo e ainda
ver todos que ama se tornarem sombrios.
-
Os centauros são fortes e guerreiros natos... São as criaturas sombrias mais
fortes criadas pelo veneno, nem mesmo as outras criaturas ousam chegar perto
deles. - Aaron olhou triste para a fogueira. - Eu os observo sempre e eles
parecem loucos e lunáticos, parecem selvagens. Os centauros costumavam ser os
conselheiros do Vale, eram sábios e amigáveis.
-
Eu sinto muito, Aaron, nem imagino como isso deve ser difícil para você. -
Aaron a olhou triste. - Eu vou fazer de tudo para poder salvar seus irmãos e
todas as criaturas.
Um
pequeno sorriso brotou no rosto do centauro e Anila relinchou em seu colo. Os
problemas do Vale pareciam muito maiores e mais assustadores do que havia
pensado. Ela achava que precisava só acabar com a rixa, mas aquilo era muito
maior. Ela deveria ficar assustada e fugir, mas a cada coisa que descobria, a
cada segredo obscuro do Vale, ela se sentia mais determinada a acabar com tudo
aquilo.
-
Estou contando com isso... Melody. - Aaron deu um breve sorriso e então
continuou. - Mas agora vocês precisam descansar, partiremos assim que
amanhecer.
Melody
concordou e tentou se levantar, mas Anila estava dormindo tranquila em seu colo
e parecia roncar. Aaron riu da situação.
-
Anila. - Ele chamou, o unicórnio abriu um dos olhos e depois o fechou
novamente. - Anila, venha aqui, agora. - Ela relinchou e o ignorou. - Anila...
Melody precisa dormir. - Nada aconteceu. - Acho que certo unicórnio quer ficar de
castigo.
Anila
levantou relinchando, como se resmungasse para Aaron. O centauro ria enquanto
ela ia a sua direção. Ela deitou-se virando o traseiro para ele e continuou
relinchando e bufando.
-
Adolescentes. - Aaron disse, virando os olhos.
Melody
se ajeitou em seu saco de dormir enquanto Anila ainda bufava. Aaron ria e dizia
coisas do tipo: “Se você não parar com isso, não vai mais brincar com a Pepita”
ou “Você não vai mais caçar fadinhas”. Melody não entendia metade das coisas
que ele falava, mas parecia ter efeito em Anila, que aos pouco parou de bufar e
ficou quieta. Éron puxou o saco de dormir e o colocou ao lado do de Melody.
-
Posso dormir aqui? - Ele perguntou.
-
Por mim tudo bem. - Éron se deitou de barriga para cima com um dos braços atrás
da cabeça, Com a mão livre ele puxou uma das mechas do cabelo de Melody e
começou a enrolar.
-
Você não parece estar com medo.
-
Por que deveria?
-
Qualquer um no seu lugar iria fugir, mas você parece ficar mais determinada a
ir em frente a cada dificuldade que aparece.
-
Você quer fugir, senhor? - Melody disse, se virando para ele, Éron fez o mesmo
e os dois ficaram cara a cara.
-
Eu não vou te deixar sozinha nunca. - Ele riu. - Você não vai se livrar de mim
assim tão fácil. - Ele a olhou por um tempo e passou os dedos de leve em seu
rosto. Depois se virou e disse. - Agora é hora de dormir, senhorita.
Melody
sorriu e se ajeitou novamente. Dormiu instantaneamente. No outro dia acordou
com Anila relinchando e a cutucando com o chifre.
-
Ai, ai, ai... Calma, mocinha, eu já acordei. - Anila relinchou alegre e voltou
para o lado de Aaron. Éron já estava acordado e havia arrumado suas coisas.
-
Até que enfim acordou.
-
Na verdade, fui acordada.
-
Se você tivesse acordado antes, isso não seria preciso. - Éron debochou. -
Agora levante e venha comer alguma coisa, antes de sairmos.
Melody
sentou-se e olhou em volta, via pequenos brilhos voarem de lá para cá. Aos pés
de Éron havia uma quantidade enorme de frutas e flores. Antes que pudesse
perguntar, Aaron disse:
-
As fadas trouxeram para nós. - Ele apontou para os brilhos.
-
Isso... Isso...
-
É impossível? Também achei que era, mas aí estão elas. - Éron disse, mordendo
uma maçã.
Um
dos pequenos brilhos se aproximou de Melody, ela estendeu a mão e ele dançou ao
pousar ali. Depois se expandiu e ela pôde ver uma fadinha de asas violeta de
uns 10 cm de altura. Ela girou e sorriu para Melody, depois virou um pequeno
brilho e voltou com as outras. Melody comeu e ajeitou suas coisas.
-
Eu adoraria tomar um banho. - Ela resmungou, olhando para as roupas. Havia se
lavado em alguns dos lagos que encontraram no caminho, mas não era a mesma
coisa.
-
Isso seria realmente muito bom. - Éron concordou.
-
Acho que podemos passar no bosque das fadas antes de seguirmos a diante. Ele
fica próximo daqui e é um bom lugar para um banho.
Eles
então desmontaram o acampamento e seguiram Aaron. Anila os acompanhava trotando
alegre e tentando pegar as fadinhas com a boca. Ela conseguiu pegar uma delas e
logo depois soltou para correr atrás dela novamente.
Alguns
minutos depois, eles estavam no pequeno bosque das fadas. Era o primeiro lugar
aberto que vira desde que a floresta começou a escurecer. Ele era rodeado por
árvores com muitas flores, que Melody percebeu serem as casas das fadas. A
grama era verdinha e havia uma pequena mina coberta por uma cortina de relva.
-
Aqui estamos. - Disse Aaron, apontando para a lagoa. - O lado esquerdo para a
mocinha e o lado direito para o mocinho.
Melody
olhou para ele, intrigada, e ele riu.
-
Não se preocupe Melody, as fadas dividiram a lagoa. Antigamente, era costume
que os noivos se banhassem aqui antes dos casamentos ou quando aconteceria algo
especial como o dia da profecia... Mas isso foi muito antes até mesmo de
Melissa. Os humanos esqueceram esse lugar aos poucos. Agora apenas as criaturas
se banham aqui. - Aaron olhou para as fadinhas que voavam pelo lugar. - Elas são
ótimas com sabonetes e perfumes... O que estão esperando?
Melody
e Éron seguiram cada um para um lado. As fadinhas voavam em torno de Melody e
ela entrou em baixo da relva. O lugar ela lindo, uma parede de flores separava
a mina e elas desciam por toda a extensão da relva. Havia uma pedra onde Melody
colocou suas roupas depois de se despir. Entrou na água e relaxou no mesmo
momento, a água era morna e perfumada. Ela encostou-se à parede de flores e
percebeu que ela era bastante solida. Fechou os olhos e suspirou.
Depois
do banho, ela se sentia renovada. As fadas eram realmente muito boas com
sabonetes e perfumes, além de terem deixados suas roupas limpas e como novas.
Eles se despediram do bosque e seguiram viagem. A floresta ia ficando cada vez
mais fechada e escura enquanto eles caminhavam. Melody não conseguia saber que
horas eram quando pararam para comer, pois não podia ver o sol, mas acreditava
que já passava da hora do almoço. Depois eles continuaram caminhando.
Chegaram
a um ponto da floresta em que não se podia ver nenhum ponto do céu. Melody
andava com uma das mãos na crina de Anila. Ela tinha medo, mas precisava seguir
em frente. Precisava deixar seus medos de lado. Éron que estava do outro lado
segurou sua mão e sussurrou:
-
Se isso te acalma... Eu também estou com medo.
-
Como isso pode me acalmar?
-
Eu também não vou desistir. - Melody entendeu o que ele queria dizer. Sentia o
mesmo que ela, mas não iria desistir.
Aaron
parou abruptamente. Melody olhou para o ponto em que ele olhava. No meio das
árvores, um ser muito pequeno e vestido de vermelho os observava. Alina correu
feliz até ele.
-
Olá, minha pequena. - Ele disse, acariciando a crina de Alina. - Você cresceu
desde a última vez que te vi.
Melody
o olhou com mais atenção. Parecia um duende das gravuras dos livros infantis.
Tinha as orelhas pontudas e os cabelos compridos e muito grisalhos. Era muito
velho e tinha uma voz doce e alegre. Tinha o tamanho de uma criança de uns 4 ou
5 anos.
-
Vocês levaram sorte, parece que ele está de bom humor. - Niank parecia não
notar a presença deles e brincava com Anila. Aaron deu alguns passos a frente e
Niank o encarou.
-
Meu velho amigo Aaron. - Ele disse, vindo em direção ao centauro. - Faz tempo
que não vem me visitar.
-
Sinto muito por isso, Niank, mas hoje vim por um assunto especial. - Aaron se
afastou e apontou para Éron e Melody. - Eles querem permissão para...
-
Ir ao grande carvalho... Sim, sim, eu já sabia que eles viriam.
Niank
se aproximou e os olhou mais atentamente. Seus olhos negros estudavam-os com
curiosidade, depois ele ficou sério.
-
Uma descendente de Melissa. - Ele disse, andando em volta de Melody. -
Finalmente a criança voltou a sua linhagem original.
-
Linhagem original? - Melody perguntou.
Niank
a olhou como se visse sua vida toda e o futuro também. O velho duende era sábio
e Melody tinha certeza de que era exatamente isso o que ele via. Ele via sua
alma e por mais assustador que isso fosse... Melody não conseguia ter medo dele.
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