O Vale de Lótus - Capítulo 12: Niank

O centauro pensou por um instante e viu o olhar fascinado de Melody para os outros seres. Ele sorriu e então disse:
- Eu vou ajudá-los a encontrar o carvalho, mas não posso ajudá-los a enfrentar os desafios que encontrarão por ali.
Eles haviam encontrado um aliado e Melody estava feliz por isso, mas o modo como Aaron falara dos desafios a assustou. O que encontrariam por lá? Quais seriam esses desafios?
- Obrigada, Aaron. - Melody sussurrou.
- Você tem uma aura especial, humana, você atraiu todos os serres para cá. - Aaron sorriu. - Não sabe o trabalho que me deu para fazê-los ficarem longe.
- Mas um deles não obedeceu. - Éron disse, rindo.
- Anila tem, digamos... Um espírito livre, ainda é muito jovem e curiosa. Não tem como contê-la. - Aaron olhou para o lado. - E falando nela...
Melody viu ao longe o vulto prateado que parecia estar apenas pastando, mas ela percebeu que o unicórnio ia se aproximando aos pouquinhos, como se não quisesse ser notada.
- Ela pensa que me engana fazendo isso. - Aaron disse. - Às vezes eu a deixo acreditar nisso.
Depois de algum tempo, eles se acomodaram em torno da fogueira, enquanto Anila se aproximava devagar. Aaron lhes contou que depois de Felix envenenar o carvalho, as criaturas começaram a fugir para lá. A magia no Vale estava enfraquecendo e muitos deles acabaram morrendo antes de chegar ali. Aaron se tornou o protetor do local, mas o carvalho também tinha seu próprio protetor desde então.
- Nós nunca desconfiamos dos humanos, eles sempre procuravam o carvalho em momentos difíceis... Eles buscavam ajuda e sabedoria, por isso não havia um protetor para o carvalho. Sua espécie nunca desrespeitou o local. - Ele suspirou e olhou para Anila, que agora estava há alguns passos dali. - Eu vi que aquele humano era diferente e tentei impedi-lo, mas ele foi mais rápido.
Aaron colocou a mão em um ponto do abdômen, ele olhou triste para o fogo e quando tirou à mão, Melody pôde ver uma cicatriz enorme.
- Eu sinto muito por isso. - Ela disse.
- Espero que vocês dois estejam falando a verdade, e que possam salvar o Vale... É por isso que vou ajudá-los, mas terão que convencer Niank.
- Niank tem haver com os desafios dos quais falou?
- Talvez. - Aaron ponderou. - Se ele estiver de mal humor. Mas com todo o veneno que há ali, muitas criaturas se tornaram sombrias... Como mortos-vivos. E eles farão de tudo para matá-los.
- Mortos vivos? - Éron perguntou assustado.
- Logo no começo, muitas criaturas não sabiam do veneno e tomaram da água que circunda o carvalho... Ela costumava ser curativa e muitos vinham de longe para bebê-la, até mesmo os humanos. Mas depois que o carvalho adoeceu... Bem, ela começou a fazer mal. Muitas criaturas e humanos morreram ao bebê-la, outros começaram a escurecer... Suas auras escureceram e eles vagam por ali.
- Teremos de enfrentá-los para poder chegar ao carvalho, então?
- Primeiro vocês falaram com Niank, as criaturas o respeitam... Até mesmo as sombrias.
Melody sentiu um bafo quente em seu pescoço. Não havia percebido, mas Anila havia desviado Aaron e estava se deitando ao seu lado.
- Você não tem jeito mesmo. - Aaron falou, sorrindo.
Anila relinchou como se debochasse de Aaron, então se ajeitou e colocou a cabeça no colo de Melody. Ela era ligeiramente menor que um cavalo normal, como se fosse um potro um pouco crescido. Aaron havia dito que ela era muito jovem. O único chifre cintilava a luz da fogueira e os olhos dourados aos poucos foram se fechando
- Parece que Anila gostou mesmo de você.
- É, eu acho que sim. - Melody passou a mão no focinho dela. E ficou observando sua nova amiga por um tempo, até que Éron quebrou o silêncio.
- Você disse que não pode nos ajudar a enfrentar os desafios, mas os desafios são apenas as criaturas sombrias ou há mais coisas?
- Você diz “apenas”, como se isso já não fosse o bastante. - Aaron bufou. - Há fadas, unicórnios, duendes e muitas outras criaturas que ficaram sombrias, mas elas não me preocupam muito...
- Tem alguma criatura mais poderosa que essas?
- Os centauros. - Aaron disse, sombrio. - Nosso povo vivia ao redor do carvalho e fomos os primeiros atingidos pelo envenenamento... Meus irmãos... Minha família...
- Só sobrou você. - Éron deduziu e Aaron concordou.
- Eu tenho esperanças de que quando salvarem o Vale... De que eles possam voltar a ser o que eram. Eu não posso ajudá-los, pois não posso lutar contra os meus irmãos.
Aaron parecia prestes a desmoronar, Melody pensava em como seria perder tudo e ainda ver todos que ama se tornarem sombrios.
- Os centauros são fortes e guerreiros natos... São as criaturas sombrias mais fortes criadas pelo veneno, nem mesmo as outras criaturas ousam chegar perto deles. - Aaron olhou triste para a fogueira. - Eu os observo sempre e eles parecem loucos e lunáticos, parecem selvagens. Os centauros costumavam ser os conselheiros do Vale, eram sábios e amigáveis.
- Eu sinto muito, Aaron, nem imagino como isso deve ser difícil para você. - Aaron a olhou triste. - Eu vou fazer de tudo para poder salvar seus irmãos e todas as criaturas.
Um pequeno sorriso brotou no rosto do centauro e Anila relinchou em seu colo. Os problemas do Vale pareciam muito maiores e mais assustadores do que havia pensado. Ela achava que precisava só acabar com a rixa, mas aquilo era muito maior. Ela deveria ficar assustada e fugir, mas a cada coisa que descobria, a cada segredo obscuro do Vale, ela se sentia mais determinada a acabar com tudo aquilo.
- Estou contando com isso... Melody. - Aaron deu um breve sorriso e então continuou. - Mas agora vocês precisam descansar, partiremos assim que amanhecer.
Melody concordou e tentou se levantar, mas Anila estava dormindo tranquila em seu colo e parecia roncar. Aaron riu da situação.
- Anila. - Ele chamou, o unicórnio abriu um dos olhos e depois o fechou novamente. - Anila, venha aqui, agora. - Ela relinchou e o ignorou. - Anila... Melody precisa dormir. - Nada aconteceu. - Acho que certo unicórnio quer ficar de castigo.
Anila levantou relinchando, como se resmungasse para Aaron. O centauro ria enquanto ela ia a sua direção. Ela deitou-se virando o traseiro para ele e continuou relinchando e bufando.
- Adolescentes. - Aaron disse, virando os olhos.
Melody se ajeitou em seu saco de dormir enquanto Anila ainda bufava. Aaron ria e dizia coisas do tipo: “Se você não parar com isso, não vai mais brincar com a Pepita” ou “Você não vai mais caçar fadinhas”. Melody não entendia metade das coisas que ele falava, mas parecia ter efeito em Anila, que aos pouco parou de bufar e ficou quieta. Éron puxou o saco de dormir e o colocou ao lado do de Melody.
- Posso dormir aqui? - Ele perguntou.
- Por mim tudo bem. - Éron se deitou de barriga para cima com um dos braços atrás da cabeça, Com a mão livre ele puxou uma das mechas do cabelo de Melody e começou a enrolar.
- Você não parece estar com medo.
- Por que deveria?
- Qualquer um no seu lugar iria fugir, mas você parece ficar mais determinada a ir em frente a cada dificuldade que aparece.
- Você quer fugir, senhor? - Melody disse, se virando para ele, Éron fez o mesmo e os dois ficaram cara a cara.
- Eu não vou te deixar sozinha nunca. - Ele riu. - Você não vai se livrar de mim assim tão fácil. - Ele a olhou por um tempo e passou os dedos de leve em seu rosto. Depois se virou e disse. - Agora é hora de dormir, senhorita.
Melody sorriu e se ajeitou novamente. Dormiu instantaneamente. No outro dia acordou com Anila relinchando e a cutucando com o chifre.
- Ai, ai, ai... Calma, mocinha, eu já acordei. - Anila relinchou alegre e voltou para o lado de Aaron. Éron já estava acordado e havia arrumado suas coisas.
- Até que enfim acordou.
- Na verdade, fui acordada.
- Se você tivesse acordado antes, isso não seria preciso. - Éron debochou. - Agora levante e venha comer alguma coisa, antes de sairmos.
Melody sentou-se e olhou em volta, via pequenos brilhos voarem de lá para cá. Aos pés de Éron havia uma quantidade enorme de frutas e flores. Antes que pudesse perguntar, Aaron disse:
- As fadas trouxeram para nós. - Ele apontou para os brilhos.
- Isso... Isso...
- É impossível? Também achei que era, mas aí estão elas. - Éron disse, mordendo uma maçã.
Um dos pequenos brilhos se aproximou de Melody, ela estendeu a mão e ele dançou ao pousar ali. Depois se expandiu e ela pôde ver uma fadinha de asas violeta de uns 10 cm de altura. Ela girou e sorriu para Melody, depois virou um pequeno brilho e voltou com as outras. Melody comeu e ajeitou suas coisas.
- Eu adoraria tomar um banho. - Ela resmungou, olhando para as roupas. Havia se lavado em alguns dos lagos que encontraram no caminho, mas não era a mesma coisa.
- Isso seria realmente muito bom. - Éron concordou.
- Acho que podemos passar no bosque das fadas antes de seguirmos a diante. Ele fica próximo daqui e é um bom lugar para um banho.
Eles então desmontaram o acampamento e seguiram Aaron. Anila os acompanhava trotando alegre e tentando pegar as fadinhas com a boca. Ela conseguiu pegar uma delas e logo depois soltou para correr atrás dela novamente.
Alguns minutos depois, eles estavam no pequeno bosque das fadas. Era o primeiro lugar aberto que vira desde que a floresta começou a escurecer. Ele era rodeado por árvores com muitas flores, que Melody percebeu serem as casas das fadas. A grama era verdinha e havia uma pequena mina coberta por uma cortina de relva.
- Aqui estamos. - Disse Aaron, apontando para a lagoa. - O lado esquerdo para a mocinha e o lado direito para o mocinho.
Melody olhou para ele, intrigada, e ele riu.
- Não se preocupe Melody, as fadas dividiram a lagoa. Antigamente, era costume que os noivos se banhassem aqui antes dos casamentos ou quando aconteceria algo especial como o dia da profecia... Mas isso foi muito antes até mesmo de Melissa. Os humanos esqueceram esse lugar aos poucos. Agora apenas as criaturas se banham aqui. - Aaron olhou para as fadinhas que voavam pelo lugar. - Elas são ótimas com sabonetes e perfumes... O que estão esperando?
Melody e Éron seguiram cada um para um lado. As fadinhas voavam em torno de Melody e ela entrou em baixo da relva. O lugar ela lindo, uma parede de flores separava a mina e elas desciam por toda a extensão da relva. Havia uma pedra onde Melody colocou suas roupas depois de se despir. Entrou na água e relaxou no mesmo momento, a água era morna e perfumada. Ela encostou-se à parede de flores e percebeu que ela era bastante solida. Fechou os olhos e suspirou.
Depois do banho, ela se sentia renovada. As fadas eram realmente muito boas com sabonetes e perfumes, além de terem deixados suas roupas limpas e como novas. Eles se despediram do bosque e seguiram viagem. A floresta ia ficando cada vez mais fechada e escura enquanto eles caminhavam. Melody não conseguia saber que horas eram quando pararam para comer, pois não podia ver o sol, mas acreditava que já passava da hora do almoço. Depois eles continuaram caminhando.
Chegaram a um ponto da floresta em que não se podia ver nenhum ponto do céu. Melody andava com uma das mãos na crina de Anila. Ela tinha medo, mas precisava seguir em frente. Precisava deixar seus medos de lado. Éron que estava do outro lado segurou sua mão e sussurrou:
- Se isso te acalma... Eu também estou com medo.
- Como isso pode me acalmar?
- Eu também não vou desistir. - Melody entendeu o que ele queria dizer. Sentia o mesmo que ela, mas não iria desistir.
Aaron parou abruptamente. Melody olhou para o ponto em que ele olhava. No meio das árvores, um ser muito pequeno e vestido de vermelho os observava. Alina correu feliz até ele.
- Olá, minha pequena. - Ele disse, acariciando a crina de Alina. - Você cresceu desde a última vez que te vi.
Melody o olhou com mais atenção. Parecia um duende das gravuras dos livros infantis. Tinha as orelhas pontudas e os cabelos compridos e muito grisalhos. Era muito velho e tinha uma voz doce e alegre. Tinha o tamanho de uma criança de uns 4 ou 5 anos.
- Vocês levaram sorte, parece que ele está de bom humor. - Niank parecia não notar a presença deles e brincava com Anila. Aaron deu alguns passos a frente e Niank o encarou.
- Meu velho amigo Aaron. - Ele disse, vindo em direção ao centauro. - Faz tempo que não vem me visitar.
- Sinto muito por isso, Niank, mas hoje vim por um assunto especial. - Aaron se afastou e apontou para Éron e Melody. - Eles querem permissão para...
- Ir ao grande carvalho... Sim, sim, eu já sabia que eles viriam.
Niank se aproximou e os olhou mais atentamente. Seus olhos negros estudavam-os com curiosidade, depois ele ficou sério.
- Uma descendente de Melissa. - Ele disse, andando em volta de Melody. - Finalmente a criança voltou a sua linhagem original.
- Linhagem original? - Melody perguntou.

Niank a olhou como se visse sua vida toda e o futuro também. O velho duende era sábio e Melody tinha certeza de que era exatamente isso o que ele via. Ele via sua alma e por mais assustador que isso fosse... Melody não conseguia ter medo dele.

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