O Vale de Lótus - Capítulo 11: O Centauro

Melody olhou para Éron e soube que ele também pensava a mesma coisa.
- Agora sou eu quem ele quer.
- Foi por isso que ele ficou daquele jeito quando te viu... De algum modo, ele soube quem você era... Além de você ser a cópia de Melissa.
A cabeça de Melody girava, não queria pensar no que aconteceria se caísse nas mãos de Felix. Ele havia destruído Melissa e faria de tudo para destruí-la também. Mas algo a intrigava: como é que ele havia sobrevivido à queda? E como estava vivendo há tanto tempo?
Ela ficou um tempo olhando para o túmulo e pensando no quanto Felix havia tirado de Melissa; ela nem pôde ver Sophia crescer. Uma raiva começava a crescer dentro dela, ela não iria deixar Felix vencer outra vez. As lágrimas voltaram a cair, Éron colocou a mão em seu ombro e disse.
- Acho melhor nós irmos Melody. Temos uma caminhada longa. - Melody o olhou por cima dos ombros e ele sorriu. Ela limpou as lágrimas e respondeu.
- Acho melhor verificarmos os mapas primeiro, mocinho. - Ela disse forçando o riso, Éron sentou-se ao seu lado e ela se virou para ficar de frente com ele.
Puxou a mochila e começou a revirá-la. Éron a observava em silêncio. Assim que ela encontrou o livro que Nana havia lhe dado, voltou à atenção para ele.
- Precisamos encontrar o carvalho, mas Nana disse que ele fica na parte mais escura do Vale... Eu nunca ouvi falar disso. - Ela esperou uma resposta de Éron, mas ele continuava a encará-la silenciosamente. - Até quando você vai ficar me olhando com essa cara de bobo?
- Como é que você consegue? - Ele perguntou fascinado.
- Consigo o que?
- Consegue se recompor tão rápido assim? Agora apouco você parecia prestes a morrer junto de Melissa e agora já está determina e concentrada... Como você consegue?
- Eu não sei. - Ela respondeu olhando para a lápide. - Eu simplesmente preciso ficar bem. Melissa me mostrou aquilo porque era o que eu precisava ver. - Ela suspirou. - Por mais que isso tenha me matado por dentro, eu precisava ver. Eu realmente senti que iria morrer com ela, eu senti o que ela sentiu, Éron. Mas eu preciso continuar daqui e continuar por ela. - Ela respirou fundo e puxou os fios de cabelo que havia caído na frente de seu rosto. - Agora, será que poderíamos continuar?
- É claro, é claro. - Ele respondeu se concentrando.
Melody pegou o livro e o abriu, tocou o medalhão nele e murmurou.
- Precisamos encontrar o carvalho.
O livro começou a brilhar e então suas páginas começará a virar sozinhas. Quando chegou ao meio, ele parou e gravuras começaram a surgir. O lado leste do mapa começou a ficar negro e uma pequena bolinha vermelha mostrava onde eles estavam. Melody passou o livro para as mãos de Éron que o analisou em silêncio.
- Serão pelo menos três dias de caminhada e só precisamos seguir o rio.
- Vamos começar agora. - Melody disse.
- Antes precisamos comer alguma coisa.
Os dois comeram alguns sanduíches que estavam na mochila e descansaram por um tempo. Depois, juntaram tudo e se ajeitaram para continuar a missão. Antes de sair, Melody se ajoelhou em frente ao túmulo e fez uma coroa de rosas surgir ali.
- Eu vou conseguir... Por nós duas e principalmente por você.
Eles desceram a colina e começaram a seguir em direção ao leste. Quando a noite começou a cair, eles prepararam acampamento. Partiram assim que o sol nasceu. Os outros dois dias se seguiram assim, mas na metade do terceiro dia a floresta começou a ficar mais fechada e escura. Quase não se ouvia o canto dos pássaros e eram poucos os animais pelo caminho.
Éron analisou o mapa e viu que eles estavam se aproximando. Quanto mais a leste iam, mais a floresta se fechava em torno deles. Quando a noite caiu, eles montaram acampamento mais uma vez.
- Acho melhor nós revezarmos dessa vez. - Melody disse tirando da bolsa algumas frutas que havia colhido no caminho. - Esse lugar me dá arrepios.
- Mas não há nada aqui, não vimos nenhum bicho.
- É exatamente isso que me assusta. - Melody disse o encarando séria. - Não há ruídos de pisadas ou qualquer tipo de som. - Éron pensou por um momento e então disse:
- Eu fico de vigia agora, durma um pouco. Eu te acordo para trocarmos de lugar.
Melody se ajeitou e demorou uma pouco para pegar no sono. Aquele lugar a assustava, mas aos poucos o sono venceu. Não teve sonhos e acordou no meio da madrugada para trocar de lugar com Éron, que caiu no sono imediatamente. Melody encostou-se a uma árvore e ficou girando o anel que ganhara de um lado para o outro. Era engraçado como ela havia se esquecido dele desde o aniversário. Nem ao menos reparara que pequenas gravuras haviam surgido nele. Estava tão distraída que levou um susto ao ouvir um ruído muito próximo. Olhou para os lados e viu ao longe um brilho prateado.
Levantou-se e ficou olhando o vulto se aproximar. Cutucou Éron para que ele acordasse, mas ele nem se mexeu. O vulto prateado continuava chegando mais perto. Ela cutucou Éron mais uma vez e com mais força. Ele resmungou e acordou.
- O que foi?
- Levanta agora e fala baixo. - Éron levantou assustado e se pós ao lado de Melody.
- O que é aquilo? - Ele perguntou.
- Eu não sei, mas está se aproximando.
O vulto prateado começou a tomar a formar de um cavalo branco que parecia brilhar sob a luz da lua. Mas havia algo de diferente nele, Melody suspirou.
- Diz para mim que eu não estou vendo coisas. - Ela perguntou.
- Não, acho que não está vendo coisas.
- Isso é impossível, eles devem estar extintos há anos.
- Esse aí não parece fazer parte desse número.
A criatura se aproximou e começou a pastar ali perto. Era tão belo que Melody sentia vontade de acariciá-lo. O pelo branco refletia a luz da lua e seu único chifre brilhava como mil pedras preciosas. Aquele unicórnio era com certeza a coisa mais linda que já vira.
Ela começou a se aproximar calmamente; estava a uns dez centímetros quando um barulho fez com que a criatura fugisse. Algo grande vinha trotando naquela direção. Melody correu para perto de Éron.
Um vulto escuro saiu em meio às árvores, a fogueira o iluminou quando estava próximo.
- O que vocês fazem por aqui? - Ele perguntou. - Esse não é um território muito comum aos humanos. - O homem era moreno e tinha um longo cabelo preto preso em um rabo, Melody não conseguia enxergá-lo direito, mas parecia estar sério. O que mais a assustava era a parte de baixo. Do tórax para cima era um homem e para baixo era um garanhão negro e lustroso.
- Você é um centauro. - Foi a única coisa que ela conseguiu pronunciar. A criatura pareceu rir.
- Eu sou Aaron, menina. E sim, sou centauro. Mas você ainda não me respondeu: o que fazem aqui?
- Estamos em busca do grande carvalho.
- O que vocês querem com ele? - Aaron perguntou se aproximando.
- Precisamos de respostas, de ajuda para salvar o Vale.
- O último de vocês que esteve aqui o envenenou, como posso saber que não farão o mesmo?
- Alguém esteve aqui antes da gente? - Éron perguntou.
- Há muitos anos atrás um homem chegou aqui. Era poderoso e queria encontrar o carvalho. Eu sou o protetor desse lugar e não consegui contê-lo. - Aaron olhou para o lado. - Ele envenenou o carvalho e desapareceu. Desde então a floresta vem escurecendo e as criaturas mágicas têm se refugiado aqui.
- Deve ter sido Felix. - Melody sussurrou.
- Você o conhecia, humana?
- Como ele era? - Éron perguntou.
- Tinha o cheiro de morte e um sorriso perverso. Usava uma capa manchada de sangue e as roupas estavam aos farrapos.
- Só pode ser ele. - Melody afirmou. - Queremos derrotá-lo e salvar o Vale. Por isso precisamos chegar ao carvalho.
- Você parece verdadeira humana... Tem uma aura que não vejo há muito tempo.
- Acho que isso se deve ao fato de ela ser a criança de Lótus. - Éron disse.
- Não é isso. Eu soube quem ela era antes mesmo de chegar aqui. - Aaron parecia pensar em algo. - Agora me lembro, ela vinha aqui sempre. Ela cuidava do carvalho e de todas as criaturas. Você tem a mesma aura dela. - Ele pareceu ficar triste com as lembranças.
Melody tinha certeza quem era a pessoa de quem ele falava; e Aaron concordou.
- Eu senti o cheiro dela naquele homem... Eu soube que ela havia morrido e desde então as criaturas tem fugido cada vez mais para cá.
- Mas aqui está tão escuro e parece abandonado. - Éron sussurrou.
- Mas é seguro. Onde vocês vivem, exite muito da presença dele.
O medo que Melody sentira no início, aos poucos ia sumindo. Imaginou como era para Aaron ver a floresta morrer daquele jeito. O centauro carregava uma tristeza tão grande que Melody não pôde deixar de se sentir solidária. Aos poucos, outras criaturas começaram a se aproximar. Viu um bando de unicórnios ao longe e lobos passaram uivando por perto. Viu cervos correndo e uma coruja branca pousou ali perto. Aquele começava a ser mais um motivo pelo qual lutar pelo Vale.
- Vocês não irão fazer mal ao carvalho, não é? - Aaron perguntou, mas seu tom fazia parecer que ele sabia a resposta.
- Eu nunca faria isso. - Melody respondeu.
O centauro pensou por um instante e viu o olhar fascinado de Melody para os outros seres. Ele sorriu e então disse
- Eu vou ajudá-los a encontrar o carvalho, mas não posso ajudá-los a enfrentar os desafios que encontrarão por ali.

Eles haviam encontrado um aliado e Melody estava feliz por isso, mas o modo como Aaron falara dos desafios a assustou. O que encontrariam por lá? Quais seriam esses desafios?

About Leandro Zapata

This is a short description in the author block about the author. You edit it by entering text in the "Biographical Info" field in the user admin panel.
    Blogger Comment
    Facebook Comment

0 comentários :

Postar um comentário