Quando o relógio bate meia-noite e a véspera de meu aniversário termina, completo duas décadas de vida. Esse aniversário passará em branco, e mesmo que aconteça, nunca será tão animado quanto o do ano passado, que foi um ano memorável para a pacata cidade de Brocópolis - que é um péssimo nome para uma cidade, mas sabe como são essas cidades pequenas do interior.
Morar em uma cidade pequena é bom, mas nunca foi o suficiente para mim. Para mim, viver em Brocópolis era o mesmo que ser uma tilápia de três quilos em um aquário de um peixinho dourado. Como todos me diziam: “você é um garoto grande demais para uma cidade pequena.” Apenas esperei que completasse meus 19 anos para sair de minha casa em Brocópolis e vir pra cidade grande. Os planos formados desde que eu tinha 15 anos, quando comecei a trabalhar na vendinha do seu Zé. Iria juntar o pouco que recebia para poder pagar alguns meses de aluguel, tempo que levaria para arrumar um emprego na cidade; iria de carona até a capital. A nova vida, então, começaria. O que poderia dar errado? Tudo. Mas, graças a Deus, tudo deu certo.
Atualmente, vivo sozinho em um apartamento que aluguei próximo do meu local de trabalho e da minha faculdade. Minha vida é a de um jovem-adulto normal, menos a parte das baladas, que não fazem muito meu tipo.
Hoje é meu primeiro aniversário sem eles; sem as pessoas com quem convivi durante 19 longos e maravilhosos anos. Numa tentativa de segurar as lágrimas, recorro a uma caixa de sapatos em que guardo as lembranças de Brocópolis; peguei uma rosa há muito tempo morta que Aninha, uma amiga, me deu na despedida – em suas próprias palavras “isso é pra você não se esquecer de que homens também podem demonstrar emoções.” O segundo objeto que retiro da caixa é uma foto em que Juca, meu melhor amigo, e eu estamos; percebo que nós mudamos muito. Imagino que, se ele estivesse aqui, estaria falando dos nossos “causos” e ficaria perguntando “Você se lembra disso?”; foram tantas aventuras. No meio da minha viagem nostálgica, a campainha toca. Quem seria à uma hora dessas da manhã?
Ao abrir a porta e ver quem está do outro lado, quase que dou um pulo de surpresa. Aninha, Juca e meus pais estão com um bolo na mão. Minha mãe está prestes a chorar; ela soluça algo do tipo “a gente não podia deixar passar em branco”.
Eles pareceram não estranhar as mudanças em mim, apesar de que Aninha e minha mãe olharam-me meio torto, mas, ainda, nenhum deles falou nada. Qual é, eu pintei o cabelo e coloquei alargador; esperava, no mínimo, uma bronca. Entretanto, parte de mim acredita que é melhor assim.
Passamos o dia conversando; sim, Juca resolveu recontar cada história nossa de infância, sempre me perguntando se lembrava de certo detalhe ou pessoa.
Ao fim daquela tarde de sábado, eles se preparam para voltar a Brocópolis. Aninha pede para falar comigo em particular. Seguimos para cozinha.
- Di, você não pode continuar tão longe! – Ela diz.
- Por que não? Aqui é o meu lugar, é aqui que eu pertenço.
- Seus pais não estão bem. Eles sentem muito, muito sua falta. Juca e eu tentamos melhorar um pouco para eles, mas não somos você!
- Ana, eu sei que é difícil. Nós três conversamos bastante sobre isso, e eles concordaram. - Soltei um suspiro. - Eu não aguentava mais aquela cidade. Brocópolis não é o meu lugar.
- Quando foi que se tornou tão egoísta, Diego? A vida não gira em torno de você. - Ela parecia prestes a irromper em lágrimas. - Você precisa saber que seus pais não vão viver para sempre. Você deveria aproveitar mais o tempo que ainda resta com eles. - Ana sabia o que estava falando; ambos pais dela estavam mortos, e ela vivia com uma tia.
- A questão não é essa. A questão é que eu não me sinto bem naquela cidade. Além do mais, se eu voltar não vai ser a mesma coisa, eu estou fazendo faculdade, tenho meu emprego. Aqui. Não posso abandonar tudo e voltar para aquela vidinha de Brocópolis. A vida que tenho aqui, é a que quero pra mim. - Foi a minha vez de segurar o choro. Você acha que eu não sinto falta? Sim, eu sinto. De você, do Juca, dos meus pais, de todos! Mas não posso voltar. Entende?
- Entendo Di, não aceito, mas entendo. Só não diga que não avisei.
- Você precisa ir. A viagem é longa.
- Adeus Di. Até... - Ela hesitou. - Um dia.
- Até. - Foi o que consegui responder.
Mais uma vez, ela se foi. Mais uma vez, deixei tudo para trás. Não entendo o que mais me impede de voltar: o medo de me sentir deslocado ou o medo de tudo ter mudado. Sei, apenas, que não posso voltar; não agora que encontrei meu lugar. Não tenho outra escolha se não ser seguir a minha nova vida.
Quando falamos “irei me mudar”, não significa que mudamos apenas nosso endereço, mas, sim, que mudamos a nós mesmos. Nossas vidas serão diferentes, nossas rotinas não serão mais as mesmas. Precisamos aceitar as consequências de nossa escolha de mudanças, pois elas vêm. Querendo ou não.
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