Eles não sabem sobre nós

       Hoje ela faz 16 anos e, como a maioria das adolescentes de boa família, finalmente tem permissão dos pais para namorar, ou melhor, oficializar o nosso. Estamos juntos desde os 14 anos. Minha mãe não se importa com a idade, para ela o amor é o que importa. Contando, é claro, que mantivéssemos a classificação etária de quatorze anos, sem coisas para maiores. Não é uma tarefa difícil como dizem por ai, basta ter convicção e a certeza, como nós temos, de que devamos fazer no momento certo - ela e eu decidimos que deixar isso pra depois do casamento. De qualquer forma, hoje será o dia que irei pedir permissão aos pais da Aline. Nem estou nervoso - sendo irônico aqui. Aline e eu somos um casal perfeito, ao melhor estilo de filme americano, mas nem isso me consola.
       Às onze da manhã eu começo a me arrumar para o almoço. Visto-me com mesma roupa de sempre: camisa xadrez - fechada até o ultimo botão, não quero que o pai pense que sou descarado -, calças jeans e all star. Tento arrumar meu cabelo de forma que fique o mais comportado possível. O nervosismo faz minhas mãos suarem. Não tenho motivos para ficar nervoso, afinal os pais de Aline me conhecem desde os meus 10 anos, entretanto tenho a sensação de que algo vai dar errado.
       O relógio dá meio dia e me preparo para sair de casa, pego as chaves, o bilhete único e o vale refeição – nunca se sabe quando eu posso precisar dele, não é mesmo? – e então saio de casa. Resolvo ir caminhando até a casa dela, pois não são nem 15 minutos de caminhada. Na metade do caminho percebo que fiz uma péssima escolha, afinal já estava suando mais que um porco.
       Chego na casa dela, mas, antes de tocar a campainha, faço um check up na minha aparência. Está tudo nos conformes; no melhor que posso fazer. Toco a campainha. Depois de alguns minutos, ouço barulhos vindo de dentro da casa e a Dona Marina, minha futura sogra - talvez -, atende. Ela começa a falar muitas coisas ao mesmo tempo, como de costume. Sou guiado até a sala de estar. Dona Mariana me informa que o almoço estará pronto em alguns minutos, e que Aline tinha saído com o pai dela, mas já voltava.
       Cerca de trinta minutos depois, assim que ouço o barulho do carro, meu estômago embrulha. Centenas de possibilidades daquilo dar errado atacam minha mente. Penso em correr para o banheiro dar uma rápida olhada em mim mesmo para ver se tudo está bem, mas desisto, pois a porta da frente se abre. Vejo-a entrando, perfeita como sempre, e logo atrás vem seu pai com uma shotgun em mãos, quando pisco a arma some. Já estava começando a ver coisas?
       - E aí senhor Kauã. - O Senhor me cumprimenta, assim que me vê.
       - Bom dia, Senhor Flávio. - Não sei de onde tiro voz para responder.
       Aline, percebendo a pequena tensão do momento, diz: - Então, vamos almoçar?
       Nos dirigimos para cozinha e nos sentamos à mesa. O pai dela, Senhor Flávio, faz uma piada sobre o fato de a mesa ser chamada “de jantar” sendo que eles apenas almoçavam nela. Forço uma risada, pois a piada foi muito ruim. Dona Marina dispõe a comida sobre a mesa. Antes de começarmos a comer, juntamos as mãos e Flávio faz uma oração - a família de Aline é um tanto religiosa.
       Eu nunca comi uma refeição tão rápido quanto eu comi neste dia, o que foi uma pena, pois queria ter saboreado mais. Espero todos terminarem o almoço para fazer o pedido, mas assim que acontece, Dona Mariana serve o bolo de aniversário. Sou obrigado a esperar todo o momento de parabéns, amor, carinho e beijos distribuídos a Aline pela família, durante os quais, em alguns momentos, Aline e eu trocávamos alguns olhares do tipo “vai logo menino”, “você vai fazer o pedido ou eu tenho que fazer?”.
       Até que então, chega o momento perfeito. Está todo mundo descansando, de barriga cheia e felizes com a data especial. Então eu desato o discurso:
       - Senhor Flávio - ele me olha como se já soubesse o que eu iria falar -, Dona Marina - ela me lança um olhar realizado -, vocês talvez já devam suspeitar do que irei falar agora, mas acho que tenho que pedir da mesma forma. - Aline me olhou como se dissesse “você está fazendo do jeito certo”. - Já faz algum tempo, quero dizer, faz muito tempo, que eu gosto da sua filha, mas não é um gostar de amizade, e sim um gostar de amar. - Sinto meu rosto esquentar, sabia que estava corando. - Eu amo a sua filha mais que tudo no mundo. E vim aqui hoje, na casa dos senhores, para saber se eu tenho a permissão para namorá-la.
       Ninguém disse nada. Houve um silêncio sepulcral. Aline fitava o pai, enquanto ele me encarava - provavelmente decidindo a forma mais dolorosa de me matar. E depois de um tempo que pareceu eterno, o pais diz:
       - Você promete fazê-la sempre feliz?
       - Senhor Flávio, com todo respeito, eu não acredito que alguém possa estar sempre feliz, tipo, o tempo inteiro. Haverá momentos difíceis em que a tristeza e a magoa são inevitáveis. O que posso prometer é que sempre farei o meu melhor para vê-la sorrir.
       O pai sorriu, a resposta deve tê-lo surpreendido. Ele afirmou: - Eu permito seu namoro com ela, meu jovem.
       Tive que praticamente grudar o traseiro na cadeira para não pular de alegria, mas as lágrimas de alivio e alegria correram soltas pelo meu rosto.
       Infelizmente, naquele dia, não pude passar o resto da tarde com minha namorada, pois tinha que acompanhar minha mãe em uma consulta médica. Eu estava saindo, e os pais de Aline nos deixaram sozinho por um momento. Ela pula em meus braços dizendo:
       - Conseguiu. - Ela parecia que iria chorar. - Você enfrentou a fera. E ganhou.
       - Realmente. Ganhei uma princesa todinha pra mim.
       Ela sorriu, abobalhada.
       - Te vejo amanhã?
       - Sim. - Eu respondi suavemente. - Amanhã.
       Nenhum beijo de qualquer romance que você já leu foi melhor do que aquele que ela me deu.

About Murilo Santana

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