-
A sua espada pode matar os Filhos? - Thais perguntou ao homem de cabelos
castanho-claros enquanto passavam pelo hall da casa.
-
Não. - Ele respondeu de forma simples. - Mas qualquer ser, mesmo que imortal,
demora a se recuperar quando tem sua cabeça cortada.
Thais
confirmou uma vez com a cabeça. Era assim que ele sobrevivera naquele lugar
infestado: cortava as cabeças. Usando um casacão de inverno, que achava não
existir no Paraíso, e que parecia um cobertor que cobria toda sua roupa, os
dois saíram da casa.
A
primeira coisa que Thais notou quando saiu foi a Harley Davidson parada de
frente ao imóvel. Estranhou. Paris estava um pouco longe da posição deles, será
que Leonard tinha ido a pé? Não, pouco provável. Mas como ele pode ter ido?
-
Ele levou minha scooter! - David
reclamou. - Sabe como é difícil encontrar uma daquelas!? Eu juro que se
encontrarmos seu amigo, eu mesmo vou cortar sua cabeça!
-
Cala a boca. - Thais mandou. - Qual é o plano?
-
E você está perguntando pra mim? Você que quer salvá-lo.
-
Ok. Meu plano é ir a Paris, achá-lo e trazê-lo de volta. Nesse ínterim, cortar
quantas cabeças sua espada permitir.
-
Deixe os planos para mim, então. - Ele subiu na moto. - Anda, suba.
Thais
subiu sem hesitar, e juntos seguiram para Paris.
-
Você precisa mesmo salvar seu amigo? - David perguntou, inseguro.
-
Sim, preciso.
-
Mas por quê?
-
Acho que você sabe. - Retrucou.
-
Você o ama.
Thais
não respondeu, mas era exatamente isso. Havia muitos mistérios nas leis de
memória e proteção do Paraíso. Apesar de estar lá há setenta anos, ainda não
entendia direito como as coisas funcionavam. Sabia que o amava; afinal o amor é
uma das partes mais importante no pós-vida. Todavia, era a primeira vez que
amava outra alma, apesar de saber que isso era possível, pois as pessoas também
se casavam no céu - talvez até mesmo com as mesmas pessoas com quem foram
casados em suas vidas na Terra, quem sabe? Também sabia que Leonard e ela não
se conheceram no mundo dos vivos. Era matematicamente impossível. Se ele
aparentava ter dezoito anos e estava morto há alguns dias apenas, significava
que morrera com dezoito.
-
Ele me salvou. - Ela contou, lembrando o dia que o conhecera. - Ele matou dois
Filhos, que com certeza fariam coisas horríveis comigo.
-
Deus não permitiria que uma alma sua sofresse assim...
-
Não? - Argumentou. - Se ele não quer que as almas sofram, por que não desceu do
Trono e veio nos ajudar? Olhe ao seu redor. Várias cidades estão dominadas,
esta nevando e frio, e estamos em Guerra. Este lugar deveria ser perfeito.
Thais
percebeu que ele ficou chocado e abalado pelas palavras dela. No Paraíso todos
adoravam a Deus e não falavam mal do Rei Supremo. E ali estava ela, dizendo que
Ele os havia abandonado. Ela queria apenas saber o porquê do aparente desdém
dEle.
-
Eu não sei dizer por que Ele não veio nos ajudar. Talvez ainda haja uma
esperança. Talvez seu amigo seja essa esperança. Se ele realmente é capaz de
matar os Filhos, então ele possui algo que nem mesmo os anjos possuem. - Ele
disse cabisbaixo enquanto passavam por sob o Arco do Triunfo.
Thais
não gostava da ideia de um Deus que, mesmo sendo a existência mais poderosa do
universo, não saía de seu Trono para salvar seu povo. Milhares de anjos já
haviam deixado de existir e o menor dano foi causado às almas, que voltavam ao
Éden após serem destruídas.
O
ponto vermelho brilhante no meio de algumas árvores quase passou despercebido
aos olhos dela devido aos devaneios.
-
Pare! - Gritou; David assustou-se e quase bateu a moto.
-
O que foi, mulher? - Disse, irritado.
-
Lá! - Ela apontou.
-
O que? Não há nada ali.
Thais
desceu e correu até o ponto vermelho.
-
Onde você está indo!? Volte aqui! É perigoso! Os Filhos podem... - Ele olhava
freneticamente para os lados a procura de olhos laranja.
-
Não está vendo o ponto vermelho?
-
Não tem nada ali.
-
Claro que tem!
Thais
ajoelhou-se sem quase parar, sujando a calça na grama com neve e lama. Ali
estava uma sacola de plástico em que dentro havia dois objetos que ela conhecia
muito bem. O sobretudo de Leonard e a espada.
Ele
deve ter percebido que a cidade estava infestada e, antes de ser levado, ele
escondeu a espada e envolveu-a com o casaco para protegê-la do frio. Týr deve
ter feito um feitiço para que Thais, e apenas ela, localiza-se os objetos.
Havia um pequeno bilhete dizendo que os feitiços que faziam Leonard lutar tão
bem também funcionariam com ela, em outras palavras, era um pedido de socorro.
Ela
fitou com tristeza o casaco, mas ao mesmo tempo a raiva em seu coração lhe deu
coragem e determinação para levantar e vesti-lo. Leonard tinha razão, usar um
sobretudo realmente lhe dava uma sensação incrível, como se você fosse capaz de
fazer qualquer coisa.
Um
peso extra no bolso do casaco chamou-lhe a atenção. Tirou de dentro dele uma
pequena bolsa de pano amarrada por uma corda. Abriu-a e tirou de lá uma maçã
faltando um sétimo. Estranhou. Por que ele tinha uma maçã?
-
De onde você tirou isso? - David perguntou se aproximando.
-
Do casaco. Estava com Leonard.
-
Você sabe o que é isso?
-
Não... - Ela disse confusa.
-
Essa é o Fruto do Conhecimento do Bem e do Mal, também chamado de Fruto
Proibido.
Thais
arregalou os olhos de surpresa. Por que ele tinha algo assim? Não fazia sentido,
mas talvez fizesse. Se ele era capaz de lembrar-se de sua vida na Terra, era
por causa daquele Fruto. Então, se ela comesse...
Parou de pensar e, antes que David pudesse
reagir, abocanhou o equivalente a um sétimo do Fruto.
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