Elena
Treagus irritou-se com toda aquela perseguição. Perdera totalmente a paciência
com o anjo e o homem encapuzado, que até agora ela não conhecia a identidade.
Era a última vez que eles atrapalhariam seus planos de trazer Leonard de volta
para Terra; para ela.
Os
dois inimigos e Anúbis se encaravam mortalmente, prontos para atacar no menor
movimento do outro. Tudo, então, tomou um tom de lilás e ela disse:
-
Dusünì incendia dereva.
Duas
gaiolas, que pareciam serem feitas de metal em brasa - como se acabassem de
sair de um forno -, brotaram do chão. O encapuzado foi preso de imediato, porém
o anjo esquivou-se e avançou em direção a ela com sua espada, que não estava
ali no segundo anterior, em punho.
No
entanto, antes de atingi-la, quatro mãos de ossos agarram os braços e as pernas
dele, que, antes que pudesse reagir, o jogaram dentro da gaiola de ferro e
fogo. Ele gritou de dor quando se chocou com o ferro em brasa.
-
Vamos, Elena. - Anúbis chamou. - Isso irá segurá-los por um tempo.
-
Não. - Retrucou a garota. - Não vamos a lugar algum antes de eles explicarem a
razão dessa perseguição idiota.
-
Vamos perder tempo...
-
Leonard já está morto mesmo. Não vai fazer diferença o tempo que levaremos para
ressuscitá-lo. - Ela soou fria sem intenção; Anúbis estranhou. - Agora -
Virou-se para os inimigos. -, é a vez de vocês falarem. Por que estão nos
perseguindo?
-
Estamos sob ordem do Conselho. - O encapuzado falou.
-
Já lhe expliquei. - Nathanael, o anjo, interveio. - Estamos tentando mandar o
deus de volta ao lugar de onde veio. A Terra não é mais lugar para nenhum
deles.
-
E por quê?
-
É era dos deuses a muito acabou.
-
E seu interesse em mim? - Anúbis, se fosse capaz de sentir, poderia até dizer
que estava com medo da frieza da garota.
-
Não é óbvio? Seu poder repentino. De onde veio? E agora, aparentemente, você
aprendeu novas palavras para usar magia. Além disso, suas marcas são parecidas
com as do homem que in...
Ele
conteve-se.
-
Continue.
-
Terei que contar a história desde o início.
-
Não se preocupe, tempo é o que temos de sobra. Desembucha.
-
O Paraíso e os anjos estão em guerra. - Ela não demonstrou reação em seus olhos
lilases. - Uma guerra iniciada por um homem chamado Sephiroth e combatida pelos
chamados Filhos do Abismo. Sephiroth de alguma forma chegou ao Paraíso sem ser
percebido...
-
Ele estava vivo? - Elena interrompeu-o.
-
Acredito que sim...
-
Então é possível viajar ao Paraíso sem morrer. Como?
-
Através de um portal criado com a magia celestial. Porém, uma viagem dessa
destruiria a alma humana. A energia é pura demais para isso.
-
E como ele o fez?
-
Não sei, mas sei que ele usou a magia celestial e se sobreviveu, ele deve ser
imortal.
Isso
a deixou pensativa. Será mesmo que a imortalidade era possível? Se sim,
gostaria de tê-la. Não morrer; ser jovem para sem... Expulsou o pensamento. O
que ela estava pensando? Esse pensamento não era dela. Nunca pensara, é claro,
especificamente nisso, pois nunca acreditara que ser imortal era possível. E,
ainda, pensou daquela forma. Querer algo assim não era do perfil dela.
Trocou
olhares com o deus. Talvez precisassem encontrar aquele homem.
-
E o que o Conselho quer com Leonard Ross?
Isso
pareceu captar uma atenção especial do encapuzado, que olhou imediatamente para
o anjo.
-
Sim, Nathanael, o que o Conselho quer com ele? - Sua voz soou estranhamente
familiar.
-
Infelizmente, não posso responder essa pergunta. Não tenho tal informação.
-
Você está mentindo. - Elena falou bruscamente.
-
Eu sou um anjo do Senhor! Eu não minto!
-
Sim, ou, no mínimo, está escondendo algo. Diga. - Anúbis apenas observava e
ouvia o desenrolar da conversa.
Mesmo
conhecendo ela há uma semana, o deus estranhava as ações e palavras dela
naquele momento. Como ela era capaz de dizer se o anjo escondia ou não algo?
Nem mesmo os feitiços mais poderosos do Egito eram capazes de revelar isso.
Porém ela, apenas por olhá-lo, sabia. Alguma coisa estava errada.
-
Eu tenho uma leve ideia do que seja.
-
Então, por que não falou ainda? - Ela retrucou.
-
Acredito que Leonard tenha descoberto alguma forma de matar os Filhos do Abismo
de uma vez por todas. Algo que nem mesmo os anjos são capazes de fazer.
-
Então me explique, Caído, como meu filho pode fazer algo que nem mesmo os anjos
podem?
O
encapuzado tirou o capuz, revelando ser alguém que a garota conhecia muito bem;
alguém que uma semana atrás a considerava parte de sua família; alguém de quem
ela nem desconfiaria. Aquele era Jonathan Ross, pai de Leonard e ex-sogro de
Elena.
Os
olhos da garota estavam do tamanho de laranjas; estupefata, as palavras fugiram
de sua boca e de sua mente. Nunca imaginara que ele seria seu perseguidor e que
ele teria poderes fabulosos como os que tinha.
-
Eu não sei dizer.
-
Elena. - Ele se dirigiu a garota. - Onde você está tentado chegar?
-
Eu preciso chegar ao Vale Aosta, onde o dragão Abakur está.
-
E para que? - Ele estava curioso; ela imaginou se ele não estava cogitando
mudar de lado.
-
Eu preciso que ele traduza este livro. - Ela tirou o livro de uma bolsa feita
de ossos.
-
Onde você conseguiu isso? - Nathanael disse com urgência.
-
Não te importa, Caído. - Jonathan repreendeu-o; ele se virou para a garota e
disse: - Prossiga.
-
Então vou descobrir uma forma de trazer Leonard Ross de volta a vida.
Jonathan
ficou pensativo por um momento.
- E então - ela disse friamente -, quer
juntar-se a nós?
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