Melanie
esperava para ver quem sairia do portal. Havia doze pessoas na organização
chamada Espadas do Alvorecer. Para Melanie, todos eram desconhecidos, mas sabia
que existiam desde séculos antes trabalhando sabe-se lá em que. Ela sabia
apenas que eles não tinham uma boa intenção.
Quem
saiu era obviamente uma mulher, apesar do casacão de inverno cinza. Ela usava
uma máscara redonda e lisa, que cobria todo seu rosto, deixando apenas um
buraco para o olho castanho-escuro esquerdo. A máscara, de um tom leve de
lilás, tinha vários escritos que ela reconheceu sendo chinês. Melanie não
considerava aquelas marcas algo esperto, pois eram uma indicação óbvia dos
poderes deles e, consequentemente, uma pista para a fraqueza deles.
Melanie
estava diante da Espada de Chi You, o deus da guerra chinês.
Num
salto, a desconhecida avançou rápido, atacando fisicamente Melanie, que se
defendeu habilmente. Trocando socos e chutes, as duas usavam e abusavam da
magia, cada uma a seu estilo. A Artista ruiva conseguiu se desvencilhar da
mascarada e recuou alguns metros, o bastante para invocar seu martelo de
batalha e Arma, Riesenheim. Contudo,
antes que conseguisse atacar, a inimiga já estava em cima dela com uma espada
típica chinesa - lâmina reta de fio duplo, a proteção dourada e com várias
grafias chinesas e o punho de madeira com o fim dourado, em que um enfeite
vermelho de pano prendia-se indo de um lado para outro conforme ela atacava.
Kung fu,
Melanie pensou. Era óbvio que a garota lutava kung fu e que sua magia dependia
principalmente daqueles movimentos. Um chute da garota na face de Melanie
afastou-as. Ela posicionou a espada diante de si, na vertical e disse palavras
em chinês que, obviamente, Melanie não entendeu. Símbolos brilharam em dourado na
lâmina. A garota iniciou movimentos ritmados, como em um ritual, e Melanie
deduziu que se ela terminasse, seria o fim. Então, atacou.
O
martelo parou a um metro da garota em um escudo invisível. Então ela parou sua
dança e olhou direto nos olhos de Melanie, que imaginou naquele momento o
sorriso de sua inimiga. Com uma agilidade incrível, a espada veio em direção ao
estômago da Artista, que se defendeu por pouco do ataque com Riesenheim.
Os
olhos de Melanie arregalaram ao notar que Riesenheim
ficara mais pesado.
-
O que você...? - Ela não terminou.
-
Chi You é o criador das armas de metal, isso significa que posso alterar a
composição deles a meu favor, até mesmo aumentar o peso deles. Um feitiço que
requer um pouco de tempo, como você mesmo notou, mas bem útil. - A garota
respondeu com uma voz de desdém, como se não quisesse explicar.
Tendo
um pouco de dificuldade, Melanie atacou. A mulher se defendeu. No momento que o
martelo foi bloqueado pela espada, ele ficou mais pesado. Melanie, então,
entendeu como o feitiço funcionava: primeiro as palavras; aquelas que ela disse
alguns minutos antes. Segundo, a dança, que era basicamente repetição de
movimentos do kung fu. Terceiro, a espada dela tinha que acertar o alvo.
Consequentemente, as fraquezas do feitiço eram: impedir que ela dissesse as
palavras, parasse a dança e, agora, que sua espada não tocasse em Riesenheim. Duas delas era tarde demais
para fazer, e seria impossível lutar contra alguém tão habilidosa sem o
martelo. Devia evitar ao máximo bloquear os ataques.
A
garota se afastou de novo e iniciou um movimento de meia-lua com a espada. Outro feitiço, a Artista pensou. Ela
recitou algo que soou como um poema para Melanie e no segundo seguinte, atacou
ainda mais rápido que antes. A Artista conseguiu desviar de muitos dos ataques,
que eram de frente, porém extremamente rápidos. Por isso ela foi obrigada a se
defender algumas vezes com o martelo, que acabou tão pesado que ela não
conseguiu mais levantá-lo. Foi obrigada a desinvocá-lo, abrindo uma brecha imensa,
que a adversária obviamente aproveitou. Quando a espada estava com a ponta no
pescoço da Artista, uma voz grave e profunda disse:
-
Já chega!
Melanie
virou-se e viu um homem mascarado como a garota: uma máscara redonda deixando
apenas o olho esquerdo, que no caso dele era um azul penetrante, a mostra.
Porém, os escritos em sua máscara eram runas nórdicas.
-
Você já venceu, Camilla. - Ele andou até Melanie e tocou seu ombro.
No
momento seguinte, Melanie estava em uma floresta escura, iluminada fracamente
por uma luz verde que passavam pelas folhas que davam o tom. Não entendeu. Onde
estava? Os machucados doeram. Reparou que ela estava ensanguentada e que suas
roupas estavam destruídas. Ela tinha cortes por todo o corpo, mas nenhum era
profundo ou causava algum risco a sua vida. A situação não fazia nenhum sentindo.
A um segundo ela estava bem no meio do deserto e agora estava em uma floresta.
E de onde haviam surgido todos aqueles ferimentos?
Notou que em seu braço direito havia um desenho. Uma palavra, de alguma forma ela sabia
que o era. Mas em qual língua, não soube dizer.
-
Se você não se perder. - Uma voz masculina disse. - Por que acha que este lugar
está abandonado? Milhões se perderam nesta Floresta e foram mortos pelas três
Feras. Ninguém sobreviveu para contar onde é à entrada do Reino dos Sonhos. Nem
mesmo Dante Alighieri sabe onde é, sabe apenas que de alguma forma chegou lá.
Melanie
ouvia vozes vindas de algum lugar a sua direita. Em silêncio, seguiu-as.
-
Então alguém atravessou e sobreviveu a Floresta. - Uma voz feminina retrucou.
-
Sim, apenas por ter a ajuda de uma alma que já estava do outro lado. - O mesmo
homem disse.
-
E como, então, vamos chegar lá? - A mesma mulher falou.
-
Igual ao Dante Alighieri: você irá dormir.
Dante Alighieri?,
pensou, Será que estão falando daquele
Dante Alighieri? Se estiverem, significa que eu possa estar na... Melanie
agora tinha uma visão das pessoas que falavam. Era um grupo de três pessoas. Um
homem de pele cinza, escura e fosca; hieróglifos egípcios desenhados em branco
nos ombros definidos - de alguma forma ela soube que era um deus. Outro homem que
estava vestido com um sobretudo preto em cujas costas havia desenhado um
coração com detalhes tribais. Achei que
eles estavam extintos, pensou. Deixando isso de lado, ela observou a
garota. Era familiar. Então se lembrou: ela era da turma de Aaron no Colégio
Andersen. Contudo, não se lembrava de seu nome.
A
garota deitou, enquanto o homem de sobretudo ficava de guarda e o deus virava
um chacal imenso e cinza e entrava correndo na floresta.
Sim, estou mesmo na
Floresta Infinita Escuridão; estou perto de um dragão. Apesar
de se sentir esgotada, e sem saber o porquê, ela tentou um feitiço de escudo
para protegê-la enquanto dormia. Então, sentindo uma dor absurda, ela sentou,
se recostou numa árvore e dormiu.
Ela
ainda estava na floresta, porém, ao contrário de quando acordada, ela não
estava machucada nem suas roupas estavam rasgadas. Tornou os olhos para onde
estavam aquelas pessoas, e viu que apenas a garota estava ali. A menina foi
pela floresta, Melanie a seguiu. As Três Feras estavam encurralando-a, enquanto
a Artista passava despercebida. Finalmente, elas se dissiparam e a garota parou
diante de uma gruta. A entrada para o Reino dos Sonhos, onde estava o dragão.
Melanie
entrou logo depois da garota, porém quando chegou à porta viu dois olhos roxos
encarando-a em meio ao breu com uma ferocidade quase animal.
-
Quem está ai? - Ouviu a voz da garota.
-
Meu nome é Melanie. Melanie Craymer. - Respondeu; os olhos desapareceram.
-
A bibliotecária? - A garota adiantou-se, deixando seu rosto revelado pela luz
que entrava pela porta.
-
Sim. Você estudou no Colégio Andersen, não é?
-
Sim. - Respondeu. - Meu nome é Elena. Elena Treagus.
Os olhos de Melanie se arregalaram. Mais uma vez
o destino estava brincando com ela, pois ali, diante dela, no lugar mais
improvável do mundo, ela encarava a filha de um dos homens que ela mesma matara
anos antes.
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