A
Segunda Guerra Mundial estourou quando Thais completou dezesseis anos. Ela já
dominava a magia com perfeição, principalmente a parte curativa. Podia curar
qualquer animal ou pessoa de qualquer doença em questão de minutos.
Nesta
época, Thais havia saído da fazenda de seu pai e morava em Dallas, onde suas
habilidades eram muito bem aplicadas. Ela trabalhava em um hospital, cujo dono
sabia da existência de magia - ele mesmo a praticava, porém era um estilo
diferente baseada em uma língua que ela não conhecia; ele se autonomeava
“Artista”.
Aos
poucos a reputação dela foi crescendo. A médica sem diploma que podia curar
qualquer doença de qualquer um. Em um ano e meio, milhares de pessoas do Texas
iam visitá-la para pedir uma cura milagrosa. E ela, sem cobrar nada dos pacientes,
mas sim do hospital, curava-os de bom grado. Foi quando os feridos de guerra
começaram a vir.
Homens,
mulheres e crianças vindas de todos os lados com amputações infeccionadas,
balas alojadas e membros quebrados. Thais ajudava-os. Eles entravam com um
braço quebrado e saiam com o braço inteiro. Claro que ela tinha um limite, mas
a cada dia ela superava-o mais.
Até
que um dia os militares ouviram sobre suas habilidades.
Num
dia de inverno, no final do mês de novembro, um homem vestindo um terno militar
esverdeado com tantas medalhas quanto seu peito podia suportar entrou em seu
consultório logo após terminar um tratamento de um paciente.
-
Senhorita Walker? - Ele perguntou, entrando.
-
Quem quer saber?
-
Meu nome é Major Stronghammer. Eu venho em nome do Exército dos Estados Unidos.
-
O que quer? - Thais perguntou, desconfiada e pronta para defender-se.
-
Nós precisamos de suas habilidades para a Guerra.
-
O que você quer dizer?
-
Sua magia. A magia de cura eslava é a mais poderosa que existe. E precisamos de
você em nossas tendas.
-
Vocês sabem sobre magia? - Thais não sabia se estava surpresa ou não; eles eram
o governo, mas ainda, magia era o maior segredo da humanidade.
-
Bem, alguns de nós sabemos. - Ele respondeu mexendo em um anel que tinha no
dedo indicador. - Nós somos o governo e, além disso, sou da organização que
nasceu para proteger a magia neste mundo.
No
anel brilhava uma safira no centro de uma cruz de pontas iguais em que uma rosa
tinha seu caule enrolado. O botão da rosa ficava no ângulo noroeste da cruz.
-
Ainda assim, não, obrigado.
-
Pessoas do mundo todo estão morrendo, e você opta por ficar aqui de braços
cruzados?
-
Não estou de braços cruzados. Eu curo centenas de pessoas aqui toda semana,
inclusive pessoas que a sua guerra trás.
-
É por isso que precisamos de pessoas como você. Assim, não mandaremos mais
pessoas para casa com ferimentos mortais.
-
E como vou fazer parte de uma equipe de medicina militar se não sou nem médica
nem soldado?
-
Deixe a burocracia comigo. Seu país precisa de você, senhorita Walker.
-
Eu vou. Mas não por causa desse país idiota ou qualquer patriotismo que você
pense que eu possa ter. Vou por que pessoas precisam de mim.
O
homem sorriu e, retirando-se, disse:
-
Em dois dias um carro virá buscá-la. Esteja preparada.
E
veio. Eles realmente estavam desesperados. O veículo levou-a até um aeroporto
militar em algum lugar meio do deserto do Texas, onde tomou um avião. Algumas
horas depois ela pousou em uma ilha no Pacífico. Assim que tocou o solo daquele
lugar, ela pôde sentir a guerra. Pôde sentir cada alma morta e cada um que
lutava para viver - e esses últimos precisando ainda mais dela.
-
Onde estamos? - Ela perguntou a um soldado que a guiava pela ilha.
-
Aqui, senhorita, é a ilha de Oahu, Havaí.
Diante
dela estendia-se uma rua cumprida e larga, onde, nas laterais, vários galpões
velavam e guardavam aviões. Viu longe no horizonte um campo gramado que dava
para uma praia belíssima que ficava ainda mais linda à luz do pôr do sol. Thais
sentiu-se realizada. Era a primeira vez que via o mar ao vivo. Um pequeno sonho
que se realizou.
-
Mais especificamente - ele acrescentou -, estamos na base de Pearl Harbor.
Eles
entraram em uma das barracas, onde havia uma cama e uma escrivaninha iluminadas
por uma lamparina a gás.
-
Não são as acomodações mais confortáveis. - O soldado disse como se aquilo
fosse culpa dele. - Mas é o que temos.
-
Não se preocupe. Onde vou trabalhar?
-
Em todas as barracas. Em qualquer lugar onde alguém precise de você. Pode
começar imediatamente, se quiser. - Adiantou-se a pergunta que viria em
seguida.
Thais
confirmou uma vez com a cabeça e o soldado retirou-se. Não desfez sua mala,
apenas pegou um jaleco branco e saiu, indo de tenda em tenda curando aqueles
que estavam em estado mais crítico. Notou que metade as enfermeiras ali faziam
algum tipo de magia de cura, e as que não faziam não pareciam se importar.
Seis
meses depois, os japoneses vieram.
Alguns
soldados entraram carregando um homem em uma maca improvisada. Ele tinha três
marcas de tiro no abdômen. Deitaram-no ao chão, ela sentou ao seu lado e
posicionou ambas mãos sobre o peito dele e disse:
-
Yav: pozdravi. Nav: da duša ostane v
telesu. - Ela repetiu as palavras até que as balas estavam fora de seu
corpo e os buracos cicatrizados.
Então
tudo tremeu. Pensou que poderia ser um terremoto ou um vulcão, mas estavam em
guerra, então poderia ser algo muito pior. Saiu para ver as centenas de aviões
japoneses lançando bombas e mais bombas na base de Pearl Harbor. Seus olhos
arregalaram-se. Pequenos dedinhos agarram sua mão: um menininho pedia ajuda por
sua mãe. Thais voltou correndo para tenda, pegou um kit de primeiro socorros.
Seguiu-o fugindo dos estilhaços e escombros que as bombas causaram. Encontrou a
mãe do menino semimorta. Usou o mesmo feitiço para curá-la.
No
entanto, mal havia começado quando uma bomba veio em sua direção. Antes que
pudesse fazer qualquer coisa, ela foi jogada a vários metros de distância.
Sentiu vários de seus ossos quebrando.
Mesmo
com a visão turva, ela viu um homem de terno caminhando em sua direção; por
alguma razão, ele não estava calçado. No segundo seguinte, Thais estava de pé,
inteira e limpa e tudo a sua volta, toda a ilha e o ataque estavam parados no
tempo. Diante dela estava o homem. Foi quando Thais percebeu que ele não tinha
olhos; suas órbitas eram dois buracos vazios que caiam em um abismo sem fim.
Ela conhecia aquele vazio.
-
Eu sei quem é você. - Ela disse. - Você estava em Dallas quando John morreu.
-
Sim. Estava lá para levá-lo.
-
Levá-lo?
-
Sim, eu sou a Morte.
-
O que?
-
Eu sou a Morte em pessoa.
Thais
não respondeu, mas levando em consideração que tinha acabo de ser explodida e
que tudo em volta dela estava parado no tempo, não questionou o que ele falava.
-
Estou morta?
-
Sim, está. E nada vai mudar isso. Mas, o que pode ser diferente, é que eu posso
te dar algo que você quer há muito tempo.
Instintivamente,
ela soube do que ele falava.
-
Você pode me deixar vê-lo? Do outro lado?
-
Sim, posso. Porém, quando o tempo for certo, precisarei de você lá em cima e
você terá que me ajudar.
-
Tudo bem. Agora apenas deixe-me vê-lo.
A
Morte estalou seus dedos e diante dela estava seu primo John. Ele estava com
todas as cores de sempre e o mesmo sorriso cativante. Ele não usava óculos,
provavelmente não precisava deles.
-
Estive guardando essa alma para este momento. Vocês agora podem ir juntos. E
não se esqueça de nosso acordo.
Thais
confirmou uma vez com a cabeça e a Morte desapareceu. Ela pegou a mão do primo
quem amou todos aqueles anos; de quem sentiu saudade; de quem chorou
desesperadamente tantas noites desejando que ele voltasse. Os dois juntos
seguiram para o Julgamento.
Thais
Walker abriu os olhos para ver David lutando contra vários Filhos do Abismo ao
mesmo tempo. Ele era bom, cortava cabeças mais rápido do que ela podia ver.
Ainda meio tonta devido às memórias que acabara de receber em sua mente,
reparou que a espada de Leonard estava em sua mão e que estava caída no chão
recostada em uma árvore. O Fruto havia desaparecido.
-
Acorda! Anda! Preciso de você aqui! - O espadachim gritava.
Como
se tivesse um surto de adrenalina, ela levantou de súbito. Sacou a espada da
bainha com a mão direita enquanto segurava-a com a esquerda. Com uma única
coisa em mente, ela atacou os Filhos de frente; ao lado de David. Tinha que
salvar Leonard custeasse o que for.
0 comentários :
Postar um comentário